Um panfleto chamado Veja

Durante a campanha eleitoral que terminou no ultimo final de semana, os jornais britânicos deram um belo exemplo de como se comporta a imprensa em países de longa tradição democrática. Todos os grandes órgãos declararam apoio, em editoriais, a um dos partidos em disputa, enquanto nas matérias havia informação e análise, limitando-se os textos opinativos aos artigos assinados. O Daily Mirror apoiou os trabalhistas, enquanto o Guardian e Observer recomendaram o voto nos liberais democratas. Já o Independent defendeu o voto anti-conservador nos trabalhistas ou liberais democratas.

Apoiar partidos políticos ou candidaturas é prática corriqueira entre órgãos da imprensa escrita nas democracias maduras. Os grandes jornais norte-americanos fazem o mesmo: assumem publicamente, em editoriais, o apoio a um candidato, mas procuram manter, na medida do possível, a isenção nas matérias. A prática é saudável, pois o leitor não se sente enganado, uma vez que já sabe, de antemão, qual é a posição da revista ou jornal que está comprando. Ao mesmo tempo, dá liberdade aos repórteres e jornalistas, que não se sentem presos ao compromisso ideológico assumido pelos seus chefes e podem escrever sem serem obrigados a inserir opinião travestida de informação.

No Brasil, faz-se o oposto. Os órgãos quase nunca declaram o partido ou candidato que estão apoiando – salvo as honrosas exceções do jornal Estado de São Paulo, que tem apoiado em editorial os candidatos do PSDB, e da revista Carta Capital, que apóia os candidatos do PT – mas distorcem manchetes, informações e até gráficos e números para beneficiar idéias, grupos ou políticos da preferência dos editores. Agindo assim, desrespeitam o leitor, que acaba por comprar gato por lebre: ao buscar informação ou análise, encontra opinião.

No entanto, seria injusto colocar todos no mesmo nível. Os editores da Folha de São Paulo, embora não declarem, compartilham as teses liberais e apóiam os candidatos e partidos que têm afinidade com elas, como o DEM e o PSDB. Neste início de campanha presidencial, por exemplo, a ampla repercussão, nas páginas do jornal, dos deslizes retóricos da candidata petista, Dilma Roussef, contrasta com o tratamento condescendente reservado ao candidato tucano, José Serra. Fatos como a explosão da criminalidade em São Paulo são escassamente noticiados e não geram análises. Tampouco é feita qualquer associação entre a gestão de Serra e a falência da política estadual de segurança. Apesar disso, percebe-se um esforço, da parte de alguns de seus jornalistas, em aparentar isenção. Há elegância no estilo, garantida pelo estrito cumprimento do manual de redação da Folha, e certo cuidado em evitar o tom opinativo – embora esse cuidado seja maior nos textos do que nas manchetes ou legendas das imagens. Além disso, um profissional é mantido no cargo de ombudsman, com a função de criticar publicamente o jornal.

Já a revista Veja, da Editora Abril, há muito abandonou o jornalismo e se transformou num misto de panfleto direitista e publicidade privada clandestina. O mal estar que tenho ao folhear suas páginas é o mesmo que, quando jovem, nos anos 80, eu sentia ao tentar ler as publicações das organizações de extrema esquerda, especialmente as trotskistas. Não há um só parágrafo, uma só linha, que não esteja ali com o propósito de converter o leitor às teses e posições políticas dos editores. De permeio às matérias, digamos, “missionárias”, Veja publica as “publicitárias”: textos supostamente jornalísticos que, na verdade, estão ali para vender um produto ou a imagem de uma empresa.

Examinei a edição do dia 21 de abril deste ano, que traz na capa o candidato do PSDB. Serra aparece sorrindo, simpático, a mão no rosto, imitando a pose de Barack Obama na Newsweek, sobre a manchete: “Serra e o Brasil Pós-Lula”. Na página 62, o candidato aparece sentado em uma biblioteca, circunspeto, lendo um livro, com a manchete: “Com A Casa Em Ordem, Serra Vai À Luta”. A “matéria” é uma colagem de slogans pró-Serra: “o próprio Serra é o maior responsável pela unificação do partido”, “Serra refutou a narrativa petista de que o Brasil só começou a ser construído em 2003, com a chegada de Lula ao poder”, “no Nordeste, o tucano subirá em palanques com probabilidade de vitória em seis dos nove estados”, “no Sul e Sudeste, os ventos não poderiam ser melhores para o tucano”. O artigo finaliza: “com Serra, o Brasil de 2011 não poderia estar mais maduro para iniciar uma nova fase da sua história (…) Com Serra, a era pós-Lula poderá vir com a vantagem da alternância de poder, seiva da democracia”.

As “reportagens” seguintes são uma série de ataques ao governo Lula e ao PT: “Ele Agora Cobra 12 Milhões”, em que requenta as acusações do escândalo do mensalão contra o marqueteiro Duda Mendonça (página 80); “Bomba, Pra Que Te Quero”, em que acusa Lula de querer fabricar a bomba atômica (página 82).

Veja, no entanto, não é apenas um periódico que faz oposição ao governo. Seus editores acreditam estar envolvidos numa missão. É na seção de economia que o trabalho de doutrinação missionária de direita torna-se explícito. Na página 84, “Uma Visão Ainda Mais Liberal” faz apologia do pensamento de certa Escola Austríaca, um grupo de economistas liberais fanáticos que defendem a tese de que a crise de 2008 foi causada pelo excesso de intervenção do Estado no jogo econômico. Adiante, o economista Paulo Nogueira Batista Júnior, representante brasileiro no FMI, é acusado de ser “descrente do capitalismo e alinhado à ala mais atrasada do PT”, por ter demitido uma subordinada liberal (página 106). O sentido missionário continua em cada linha das seções seguintes. Até mesmo um artigo sobre a incorporação de vocábulos estrangeiros pela língua portuguesa é pretexto para investir contra o deputado comunista Aldo Arantes (página 96).

No meio de tanto rancor, o leitor de Veja encontra alento nas matérias “publicitárias”, em geral reportagens que anunciam sensacionais avanços “científicos” no campo da saúde, mas que, na verdade, são propaganda mal camuflada de produtos estéticos de eficácia questionável. Na página 115, por exemplo, o aparelho de peeling Dermaroller é anunciado como a revolução que vai acabar com as rugas, com a garantia da socialite paulistana Carmem Sangiorgio: “diminuíram as ruguinhas, a pele ficou mais viçosa, com cor e brilho”.

Não há informação ou jornalismo investigativo nas páginas de Veja. Na maior parte dos textos, há apenas opiniões redundantes sobre assuntos noticiados em outros órgãos. Os supostos furos da revista são frutos de dossiês fornecidos por adversários contra determinados alvos, sejam eles políticos governistas, órgãos de Estado ou empresas. Nos textos, há distorção de falas em entrevistas, montagem manipulada de gráficos, ou pura e simples falsificação.

Num caso exemplar, na reportagem “A Farra da Antropologia Oportunista”, publicada na edição de 5 de maio último, a revista critica o processo de demarcação de terras indígenas e quilombos. No texto há uma suposta citação do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, na qual teria dito: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original”. Era mentira. Viveiros de Castro publicou uma resposta indignada: “nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma. Na verdade, a frase a mim mentirosamente atribuída contradiz o espírito de todas declarações que já tive ocasião de fazer sobre o tema”.

Para quem consegue ler a revista do início ao fim, a impressão é que foi toda escrita por uma pessoa só. Não há variações no estilo, não há qualquer espaço para isenção. Abusam das metáforas grosseiras e de um coloquialismo artificial, que subestima a inteligência do leitor. O que será que acontece na redação de Veja? Será que as matérias produzidas pelos repórteres são depois reescritas pelo editor, para adquirirem um tom mais “vejista”? Ou será que os repórteres são forçados a escrever daquele jeito? Tendo a acreditar na última hipótese. Na redação de Veja, o clima é provavelmente o de um Gulag. Felipe Milanez, editor-assistente da Editora Abril, postou em seu twiter algumas críticas leves à citada reportagem sobre as terras indígenas. Foi o que bastou para que fosse sumariamente demitido, no último dia 11.

Neste texto, evitei citar os nomes dos jornalistas que assinaram as matérias de Veja. Acredito que Fábio Portela, Alexandre Oltramari, Ana Cláudia Fonseca, Igor Paulin e outros tenham seus motivos, talvez financeiros, ideológicos ou pessoais, para se sujeitar à humilhação e se acumpliciarem das sórdidas manipulações e falsificações impostas pelos seus chefes. A essas pessoas, empresto minha solidariedade.

Luís Bustamante

Luis Bustamante - Médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor dos livros "A Oeste das Minas" e "Triângulo Mineiro, do Império à República".

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4 Comentários

  1. Olá Bustamante, parabéns pelo texto!

    Para ser solidário, transcrevo abaixo um trecho de minha dissertação de mestrado no qual é possível perceber que a revista Veja já nasceu assim “comprometida”, pois no seu primeiro número, em novembro de 1968, ela vestejava a vitória do General De Gaulle, na França, alguns meses após os incidentes de maio, naquele país, com repercussão em outros países, inclusive o Brasil. O texto é o seguinte:

    “No Brasil, a revista Veja publicou na sua 1ª edição: “Pensadores como Herbert Marcuse, Ernst Bloch e Erich Fromm – todos de origem alemã – desencadearam com suas obras, inspiradas em Marx, embora modificadas por ideias psicanalíticas ou religiosas, o único movimento marxista espontâneo desde os tempos da Revolução Russa: a rebelião dos estudantes. (…) Marx partia da ideia de que o mundo somente poderia ser transformado pela violência. Escrevia em 1848: ‘Os comunistas declaram que os fins somente poderão ser atingidos pela subversão violenta de toda a ordem social preexistente’. Contudo, Marx imaginava que o capitalismo criaria um mundo de pouquíssimos ricos e de uma multidão infinita de pobres. Assim, a maioria seria proletária, e a revolução, proletária e democrática. A previsão não se confirmou: o proletariado hoje deseja integrar-se numa classe média cada vez mais numerosa. A França fornece um exemplo recente. Em junho passado, diante da incerteza de uma revolta começada nas universidades e que poderia arrastar a nação para o caos, o proletariado optou pela solução ‘burguesa’ e reelegeu o General De Gaulle. ‘O curso da história foi diferente do que Marx havia imaginado’, constatou recentemente Max Horkheimer, diretor da Escola de Sociologia de Frankfurt, ele próprio, outrora, seguidor de Marx”. (Revista Veja – Ed. 01, 11 de setembro de 1968. p. 92 – versão on line)

    Abraços,

    Paulo Irineu

  2. Correção no meu comentário: no primeiro parágrafo, onde lê-se “novembro de 1968″, o correto é “setembro de 1968″, conforme aparece no final do texto.

    Paulo Irineu

  3. Só para registrar o retorno que o Bustamante me enviou por e-mail!

    Olá Pirineu! Obrigado pelo comentário.

    Há também uma capa horrível da Veja, de 1972, se não me angano. No auge da tortura e do extermínio patrocinado pela ditadura, a Veja manchetou: “Presidente Médici: Não Admitirei Tortura no Brasil”.

    Abraço
    Luís

  4. Chamar a Veja de pasquim seria uma ofensa… ao Pasquim.
    No máximo, um pastiche de revista.

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