Uma Fábula Direitista da História do Brasil

Ao visitar a Livraria Nobel, no centro de Uberlândia, na tarde da última quarta-feira, deparei-me com o livro “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, de Leandro Narloch, repórter de Veja. Ali mesmo, de pé, li alguns trechos, e foi o que bastou para ser tomado pela mesma náusea, o mesmo gosto rançoso na boca que sinto ao folhear a revista onde o autor trabalha. Ali estavam o coloquialismo forçado, as manipulações e as falsificações que tornaram conhecido o estilo Veja de jornalismo.

O jovem Leandro deve ter sido um trainee exemplar. Com uma idéia na cabeça e o teclado nas mãos, o repórter escreveu o livro para comprovar a tese de que as mazelas do Brasil se devem aos índios, aos escravos, aos quilombolas, aos anarquistas, aos comunistas, à esquerda armada dos anos 1970 e, por fim, ao PT. Para tanto, manipulou velhacamente informações pinçadas de algumas obras dos historiadores que hoje despontam nas universidades brasileiras.

O alvo dos impropérios de Leandro são os autores marxistas dos anos 1960 a 1980. Um alvo fácil e indefeso. De fato, a produção historiográfica dessa geração vem sendo submetida a uma crítica radical, base da profunda revisão, hoje em curso nos centros acadêmicos de excelência, sobre os temas mais relevantes da História do Brasil.

A proposta daqueles autores dos anos 1960, 1970 e 1980, que hoje nos parece ingênua e romântica, era resgatar o povo como o grande protagonista da História. No intuito de trazer à tona o verdadeiro papel daqueles que foram derrotados ou esquecidos, denunciaram os massacres de índios e quilombolas, as revoltas dos escravos, as lutas dos sertanejos e operários, sobre os quais silenciava a narrativa dos vencedores. Se o Brasil não deu certo, se havia miséria e desigualdade, era necessário apontar os responsáveis pelo fracasso: a burguesia e sua sanha de lucros, o capital internacional e sua insaciável avidez pelo sangue e suor dos povos da periferia do mundo.

Quase todos os historiadores dessa leva também foram militantes de partidos e grupos de esquerda. Não escondiam de que lado estavam. Se a imparcialidade é impossível na interpretação da História, optaram então pela total parcialidade. Dariam voz aos que não tiveram voz. Havia, para eles, um desígnio maior no ofício de historiar. Ao denunciar as injustiças, resgatar as lutas e revelar os heróis do passado, contribuiriam para criar a consciência libertadora do presente.

No entanto, ao tentar esclarecer o passado, esses autores não conseguiram se desvencilhar do seu presente. No mundo de então, fortemente polarizado pela Guerra Fria, fazia sentido apresentar a História como um grande teatro da luta entre o Bem e o Mal. O marxismo, na época hegemônico nas universidades brasileiras, é quem lhes dava régua e compasso. A luta de classes era a narrativa mestra, a grande trama na qual os fatos históricos deveriam se encaixar. Se cineastas como Glauber Rocha, em sua busca pela essência do homem do povo, idealizaram-na romanticamente no sertanejo nordestino ou no cangaceiro, os historiadores fizeram o mesmo, construindo intenções revolucionárias igualmente míticas e projetando-as em seus objetos de estudo. Assim, por exemplo, surgiu o quilombo dos Palmares quase socialista criado por Décio Freitas, ou o Bloco Operário e Camponês de Edgard DeDecca, por ele visto como o protagonista proletário esquecido de uma imaginária Revolução de 30 que se decidiu em 1928.

Essa História narrada em tom de denúncia acabou por se difundir entre o grande público, graças, principalmente ao boom de livros didáticos ocorrido logo após a lei de anistia e o abrandamento da censura, em 1979. Essas obras foram utilizadas em sala de aula pelos jovens professores que, formados no contexto da luta contra a Ditadura Militar, ansiavam por uma “história crítica”, que desmistificasse a “história oficial”, admitida e propagada pelo regime que agonizava.

Nos anos 1990, quando a Ditadura Militar e a Guerra Fria já haviam se tornado parte do passado, uma nova geração de historiadores, formada nos cursos de mestrado e doutorado criados nos anos anteriores, retomaram os temas abordados pela historiografia marxista dos anos 60, 70 e 80. Agora contando com métodos mais sofisticados, foram em busca de fontes – inventários, registros de batismo e casamento, correspondência oficial e diplomática, cartas, jornais etc. – que não eram conhecidas ou não haviam sido estudadas pela geração anterior. Interpretaram-nas de forma mais isenta, livres das injunções ideológicas típicas do período anterior a 1989. O resultado foram obras reveladoras de um surpreendente passado brasileiro.

Assim, por exemplo, João Luis Fragoso e Manolo Florentino, do chamado Grupo do Rio, mostraram um Brasil colonial com uma diversificada economia de abastecimento, um intricado mercado interno e uma grande população livre e pobre, muito mais complexo do que davam a entender dicotomias esquemáticas como latifúndio exportador/metrópole ou senhor/escravo, presentes nos modelos explicativos de Caio Prado Júnior e Fernando Novaes. Historiadores da UFMG, em especial Douglas Libby e Júnia Furtado, descobriram que a maioria dos proprietários de escravos tinha pouca fortuna, possuindo em média um ou dois escravos. Desse modo, a posse de cativos, longe de ser exclusividade dos grandes senhores, era muito mais “democrática” do que se imaginava. Ao reestudar a Guerra do Paraguai, Francisco Doradioto, Ricardo Salles e Vitor Izecksohn concluíram que o conflito teve causas essencialmente regionais, como parte do ciclo de guerras iniciado em 1810, fundamentais á formação dos Estados nacionais platinos. Desse modo, a tese desenvolvida por historiadores marxistas nos anos 70 e 80, como Leon Pomer e José Júlio Chiavenato, de que a Inglaterra fora a principal interessada no conflito, derivou mais da vontade de denunciar o imperialismo britânico do que da concretude dos fatos.

Nos últimos oito anos, contudo, essa nova produção historiográfica, ao invés de orientar a confecção de novos manuais didáticos, infelizmente ainda presos às desgastadas fórmulas do marxismo vulgar, está sendo manipulada para servir de álibi a fábulas direitistas sobre a história do Brasil. Os autores destas fantasias ideológicas não são, em geral, profissionais da área, mas articulistas leigos, jornalistas e polemistas ligados à grande imprensa conservadora. A partir de leituras distorcidas de obras acadêmicas, criam coisas como o “Guia” de Leandro Narloch.

A fábula criada pelo repórter de Veja é rica em teses, algumas conservadoras, outras demofóbicas, muitas claramente racistas, que ele tenta provar manipulando informações obtidas em obras de historiadores conceituados. Não pretendo fazer um inventário do bestiário de Narloch, mas apresento a seguir algumas pérolas, que guardei de memória depois da passada de olhos na livraria.

Sabemos que a principal atividade dos habitantes da Vila de São Paulo, nos séculos XVI e XVII, era fazer expedições, conhecidas como bandeiras, até as regiões interiores do Brasil. O objetivo delas era a captura de índios, que eram escravizados nas fazendas de São Paulo e arredores. O grande número de índios escravos deu origem a uma população mestiça que, com o tempo, passou a predominar na vila. Por isso, nas expedições, os sertanistas paulistas se faziam acompanhar de centenas de dependentes mamelucos e escravos índios, usados na preação dos índios do interior.

O repórter de Veja se baseou nesse fato para afirmar que “os índios foram os principais responsáveis pelo extermínio dos índios”. Ao confundir colonização e conflito racial, Narloch finge não perceber que o extermínio das sociedades indígenas americanas não foi obra da “raça” índia ou de qualquer outra “raça”, mas da conquista européia da América. O sertanismo paulista, as fazendas do Piratininga, as expedições de apresamento e seu séqüito de mamelucos e índios, as justificativas religiosas e legais para a escravidão indígena, foram todos parte dela. Adiante, afirma que os índios não foram exterminados, pois temos, os brasileiros do Sudeste, 8% de DNA indígena. Na sua teoria racial da História, os índios se resumem ao DNA ameríndio. Uma vez preservado este, não se pode falar no fim daqueles…

Mais adiante, Narloch afirma que a escravidão foi obra dos próprios negros, pois os africanos os escravizavam na África antes de vendê-los aos europeus. Mais uma distorção que decorre de sua visão racializada da história. Ele entende que, por serem os pretos escravizados por outros pretos, então a escravidão era um negócio lá deles na África, no qual os brancos tinham participação menor. Esse é o mesmo argumento usado pelos negreiros, na primeira metade do século XIX, para justificar suas atividades: eles “salvavam” os escravos da barbárie dos escravizadores africanos. Na verdade, a escravidão existia em quase todas as partes do mundo. Por isso, não se pode imputar a “culpa” pela escravidão aos africanos ou a qualquer outro povo. A questão que os historiadores (mal) citados por Narloch propõem não é saber qual “raça” escravizava primeiro, mais ou melhor, mas como se fazia a captura e a venda de escravos na África e o tráfico para a América.

O repórter de Veja desfia outras idéias semelhantes ao longo do texto. Há um fio condutor na sua narrativa, uma moral que alinhava suas conclusões. O tom macunaímico, sarcástico, mal esconde a intenção de procurar culpados pelo fracasso do Brasil. E os encontra. São aqueles que a vulgata marxista via como heróis inabaláveis ou vítimas indefesas. Num e noutro caso, no lugar de conhecimento histórico, houve manipulação ideológica. Onde os marxistas viam Zumbis heróicos, jagunços socialistas, cangaceiros revolucionários e operários transbordantes de consciência de classe, Narloch viu índios que se exterminam e destroem matas, negros que se escravizam, sertanejos bárbaros que pegam em armas contra o progresso… Eta povinho chinfrim, concluiria o leitor desavisado desse libelo direitista.

Luís Bustamante

Luis Bustamante - Médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor dos livros "A Oeste das Minas" e "Triângulo Mineiro, do Império à República".

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7 Comentários

  1. Caro Bustamante, no seu artigo, vc afirma:

    “Nos últimos oito anos, contudo, essa nova produção historiográfica, ao invés de orientar a confecção de novos manuais didáticos, infelizmente ainda presos às desgastadas fórmulas do marxismo vulgar, está sendo manipulada para servir de álibi a fábulas direitistas sobre a história do Brasil.”

    Agora, lhe pergunto, não seria mais coerente, pelo menos nesse artigo,pensarmos nos prejuízos e na necessidade de abandonar os alienantes livros de História( aqueles Bustamante…presos às desgastadas fórmulas do marxismo vulgar) que ainda são ministrados aos alunos, sobretudo ao ensino fundamental, mas também ensino médio.

    Pontuar essa questão é coisa rara de se ver em um artigo de esquerda, mesmo da forma tímida que foi feita, mas como um bom artigo de esquerda, preferiu desviar o foco para o “libelo direitista” que faria, segundo seu artigo, uma “manipulação direitista da manipulação esquerdista”, de modo que o leitor novamente é “convidado” a malhar o bode da direita que, embora também defeque na produção literária, faz-se expiatório.

    Estaria o infeliz e cômico manual de Narloch fazendo tanto estrago assim ao ponto de esquecermos dos capengas e contaminados livros que li em toda minha trajetoria escolar? Ao final do seu artigo, alguem se lembra desses livros?

    O que o leitor desavisado concluiria dessa libelo esquerdita?

    Abraço

  2. Caro Fsan, como não fui avisado da existência de seu comentário no presente artigo do Professor Doutor Luís Augusto Bustamante, interpor-me-ei aqui qual leitor desavisado de seu próprio comentário.

    Data Venia, seguem-se os fatos. No início do segundo parágrafo, você interpõe (?):
    “Agora, lhe pergunto…” – Todavia, não há nenhum ponto de interrogação ao final da frase ou mesmo no período. Afinal, chegou mesmo a ser uma pergunta? No mesmo parágrafo, quando você faz menção ao que tratou por “alienantes livros de História”, lembrei-me de imediato de duas disciplinas impostas, durante o período que sucedeu ao golpe militar de 1964, na grade curricular do ensino fundamental (à época, ginasial) de todo país: EMC (Educação Moral e Civica) e OSPB ( Organização Social e Política Brasileira), ambas se tornaram obrigatórias no currículo escolar brasileiro a partir de 1969, por meio do Decreto-lei 869/68, e vieram para substituir as disciplinas de Filosofia e de Sociologia.

    Ah, meu caro Fsan! Aquilo sim era alienante.

    Ainda no já citado parágrafo, observei a oração “sobretudo ao ensino fundamental, mas também ensino médio”, pela qual parabenizo pela escolha do “a” preposicional fundir-se ao artigo “o”, em detrimento da recorrente preposição “em”, o que confere ares de estilo à produção textual. Contudo, gostaria de lembrar-lhe que faltou à segunda parte da oração (o que vem depois da vírgula) a presença da mesma preposição ou outra similar.

    Já no terceiro parágrafo, pediria que reorganizasse o período: “de modo que o leitor novamente é ‘convidado’ a malhar o bode da direita que, embora também defeque na produção literária, faz-se expiatório” – uma vez que eu, desavisado que seja, não entendi lhufas do que quis expressar. Afinal, lemos os alienantes de esquerda ou os defecados de direita?
    Por fim, o vocábulo libelo, por tratar-se de um substantivo masculino, exige do pronome demonstrativo a concordância de gênero.

    Abraço

    (PS: Ao amigo Luis Bustamante, saudações magistrais)

  3. Caro Guimarães, apenas faltou a interrogação no final da frase, um lapso que não impediu de passar a mensagem de forma clara.

    Estou ciente dos pequenos erros de digitação, mas o seu comentário objetiva muito mais descreditar meus argumentos com base na forma do que no contéudo. Eu, particularmente, não sou fã de “competições linguísticas” porque elas não priorizam o debate de idéias e sim batalha de egos. Ao final das contas, seu comentário chama mais atenção pelo “Data Venia” do que por um ponto de vista sólido.

    Agora, quanto ao que interessa de verdade:

    O conhecimento pede constante aprimoramento. Ok, aquelas disciplinas impostas eram perversas e ainda bem que foram retiradas, houve um avanço. Então, o ensino atual não tem o que avançar? Então se eu comparo um contexto ruim com um contexto pior, o primeiro se torna bom? Te soa lógico isso?

    Por fim, respondendo à sua pergunta, temos disponíveis porcarias dos dois “lados” para ler. Mas isso talvez soe irreal para aqueles mais partidários, já que estamos sempre tentando polarizar o cenário político entre os “heróis” e os “vilões”, ou é tudo culpa da direita ou é tudo culpa da esquerda. Meu descontentamento está essencialmente nessa questão.

    Abraço

  4. I thoroughly enoyed your reveiw of Leandro Narloch’s “Guia Politicamente Incorrecto… I am not a professional Brazilian historian, but I was struck by the same points that you comment on that reveal this work has fundamentally racist and right wing. With all the popular aclaim, I was beginning to think I was the only one who objected to many of the issues covered in this work. (I use the term loosely because it is certainly not a real work of history–well researched and supported by an extensive bibliography it is not.) Thank you for your insightful comments. (Please excuse me for writing in English. My written Portuguese is a desgrace.)

  5. E mais uma vez a Direita sai como a principal responsável dos males sociais e quando vemos alguém disposto a discutir isso, a pessoa é ridiculariza em um jogo de palavras que prefere se dispersar apontando erros de Português do que real argumento.

  6. Para o comentário da Gabriela,

    O problema não é a direita sair como vilã. O problema é que um livro que se pretende sério deve ser baseado num estudo sério. Em primeiro lugar, não se deve, em um livro pequeno como o dele, ter a pretensão de escrever sobre toda a história do Brasil. Ele deveria sim era escolher um assunto mais específico.
    E sobre o marxismo tem um detalhe. É impossível se fazer um estudo sério sobre história sem utilizar conceitos marxistas, mesmo se o historiador não for marxista. Aí a minha crítica vai para o Bustamante. Ele deixa a impressão de que não se deve mais ler Caio Prado Jr., o que seria absurdo.

  7. Voce é o CARA Bustamante.Tanta sabedoria e com uma humildade fora do comum…Naça Raça.

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