Brasília 53 anos

Brasília 53 anos: cidade horizontal, na qual a essência antecede a existência

Ronaldo Costa Couto, no livro “Brasília Kubitschek de Oliveira”, relata um episódio que expressa bem o “Espírito” de Brasília:

Rio de Janeiro, Leblon, anos 60. A carioquinha de apenas cinco anos é fixada em Brasília e em JK, amigo do pai. Provoca a babá:

            _ Quem fez o céu?

            _ Foi Deus.

            _ E o mar?

            _ Foi Deus.

            _ E eu?

            _ Também foi Deus. Foi Ele quem fez tudo, menina.

            _ É. Mas quem fez Brasília foi o Juscelino.

Assim como a garotinha do singelo relato de Costa Couto, sou também fixado em Brasília, diria até mais: fascinado! Brasília não é apenas uma filha material de JK, ela também é sua filha espiritual, deve a ele não só a sua existência, mas também a sua essência, seu Ser. Mas qual é o seu SER?

Nos dicionários encontramos a afirmação de que a cidade é “a povoação de primeira categoria de um país”. Os Gregos antigos, a quem devemos os elementos básicos da administração pública, por sua vez, atribuíam ao termo “polis” (cidade) a excelência do convívio social e não pensavam em termos de “nação”, ou “país”. A cidade era aglomeração física, social, política e moral de uma comunidade, não havendo nenhuma outra acima dela. Mesmo considerando o caráter exclusivo das cidades-estado gregas, nas quais nem todos eram considerados cidadãos (estavam excluídos da cidadania as mulheres, crianças, escravos, etc..), foi dos gregos que nós herdamos a dimensão orgânica da cidade: lugar de direitos e deveres, de expressão, de conflitos e reconciliação, de justiça, de encontros e desencontros! Embora Brasília seja uma cidade dentro de um país (uma capital), vejo-a como uma cidade nos moldes gregos: uma Cidade-Estado, na qual o ar que se respira está impregnado de Política. É isto, o Ser de Brasília é a Política!

Existem, a rigor, dois tipos de cidade: as que são planejadas e as que não são. No entanto, aquelas que são planejadas só o são em certa medida, pois tão logo os anos passam, torna-se impossível ao povo e aos administradores o controle de seu crescimento, como é o caso, no Brasil, de Belo Horizonte, Goiânia e a própria Brasília, projetada inicialmente para quinhentos mil habitantes e hoje com mais de dois milhões. As que não foram inicialmente projetadas, por sua vez, podem também se modificar, passando a ser foco de uma administração mais “controlada”, o que é mais raro. Os melhores exemplos desses casos estão na antiguidade, quando pequenas aglomerações espontâneas deram origem a cidades que se tornaram verdadeiras fortalezas ou impérios, como Alexandria (construída em local em que já havia uma comunidade de pescadores) e Roma.

Brasília, como uma cidade planejada, antes de existir de fato, foi concebida na cabeça de uns poucos. É, portanto, uma cidade na qual a essência antecede a existência! Ao andarmos por Brasília, sobretudo em sua parte central, estamos andando em “lugares” que estiveram, na sua concepção, na cabeça de alguém. Pode parecer exagero, mas talvez isso explique a atmosfera tão etérea de Brasília.

Outro aspecto que chama a atenção em nossa capital é a sua horizontalidade. Nas cidades antigas e, sobretudo, nas medievais, os prédios da administração pública e as igrejas eram construídos nos locais mais altos, para que não houvesse dúvidas quanto ao poder: “aqui está quem realmente manda!”. Em Brasília é diferente. Todos os prédios estão no mesmo plano, o que dá à cidade um elevado princípio de moralidade, muito mais humano e democrático. A partir da Catedral se vê, na mesma altura, tanto o Congresso, quanto as quadras residenciais.

É uma pena que tão elevado princípio não tenha, até os dias atuais, se concretizado de fato, tendo em vista toda a corrupção e todos os abusos de poder que ali são cometidos todos os dias e circulam nos diversos meios de comunicação de que dispomos. Esses atos, no entanto, depõem contra aqueles que os praticam e não contra o princípio, que continua inalterado.

Paulo Irineu Barreto

Do livro: “Cavando Trincheiras – a crônica do Soldado Irineu”

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

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