Buraco Negro

De repente me deu um medo de ficar louco. É como se… Não, não é como. Mas foi sendo. Aquela coisa veio vindo em meio aos calhamaços de papel. Como se nos calhamaços da papelada daquele processo morasse o gênio demoníaco que assola os felizes. Aquilo era felicidade? “Aquilo era”, eu digo e te pergunto sem noção do que falo. Usando essa linguagem, essa linguagem que é o modo, o meio, o tudo. A linguagem que se me é e eu não consigo sem ela. Ninguém consegue sem ela. Mas naquele momento é como se eu não quisesse. Não, é como se eu não pudesse com ela. E o que eu queria? Saber o que se quer pode ser a chave, mas eu havia perdido, havia me desencontrado de todas as chaves. Havia caído e caído cada vez mais dentro do calhamaço de papel.

Eles me disseram que o delegado era inocente. O delegado Fragoso era uma vítima do sistema. Um sistema atroz onde o processo tem o cheiro de Joseph K. O processo tem o cheiro, o gosto e o medo do senhor K. E também tem o beco onde envergonhado, como um cão, como um cão vira-lata, ele morreu. Mas eu não acreditava muito no delegado Fragoso. Eu descria nele, como descria em todos os homens. Li, li todo o processo do delegado Fragoso. Sabia de cada palavra por trás daquelas acusações que lhe dirigiam. Sabia o que era e o que não era. Mas eu não queria o que teria sido. Queria a verossimilhança. Queria a aparência. E me olhava no espelho enquanto estudava o processo administrativo do delegado Fragoso e eu não era eu. Eu era uma máquina que digitava no computador uns argumentos a levantar contra o Estado. Uns argumentos de um peixe contra um boi. Um camarão contra uma baleia. Mas a baleia, o Estado, o Leviatã, esse monstro maquinal era composto de vários camarões, de vários peixinhos que juntinhos pareciam um peixe grande, como num cardume. E no fundo era sempre culpa nossa. Era sempre culpa nossa tudo aquilo. Eu acreditava no eu? EU, EU, EU, não sei.

E aquilo foi me vindo. Era como um momento, um instante absoluto de pausa e de luta e de anulação do tempo e do espaço. Aquilo era como uma fome que de repente aparece e nos toma. E eu fui sendo vassalo da suserania do medo que me deu. Mas primeiro não veio o medo. Primeiro o medo não é, depois ele vem sendo, depois ele. Sim, somente isso: depois ele. O instante do medo louco. Mas no meu caso louco não foi o medo. Louco foi o instante.

Inocente – inocente – inocente era só essa a fórmula argumentativa da minha lógica informal. Eu tinha que provar que o delegado Fragoso estava agindo no estrito cumprimento do dever legal, mas eu não sabia o que as palavras podiam querer de mim, se diante do papel, as linhas tortas e pretas no fundo branco talvez dissessem ao juiz justamente o contrário. Mas essa não era a minha preocupação. Essa não fora. E eu ia, ia, ia chegar na concatenação mais perfeita da argumentação jurídica. Eu tinha a sanha de convencer, eu sempre tive. Era o liderzinho dos meninos amarelos que eu guiava no fito da brincadeira. Eles não sabiam como, mas eu inventava o jogo, eu inventava as estórias e punha todo mundo pra acreditar nelas e brincar e ser e fazer com que o faz de contas fosse. Mas é que eu não podia. Eu não sabia nem como era o rosto do delegado Fragoso. Como eu podia defender alguém que eu não vira nem o rosto? Por que ele seria digno de nota? Por conta da palavra escrita no papel, nas duas mil folhas de processo administrativo em que se dizia A é B e depois A não pode ser B, mas C. Ora, aquilo era vida pra mim. Aquilo era uma vida possível. Um destino pra mim.

E de repente me veio um medo de ficar louco. Aquilo me veio vindo enquanto eu olhava o calhamaço de papel. E me tomou todo. O peito. Meu peito foi ficando estufado e eu fui sentindo o segredo do mundo. Eu fui sentindo a chave da advinha. Mas o que era? Não, não aches isso. Não era coisa de se saber, era apenas de se sentir e eu não queria, sim, eu não queria utilizar a linguagem. Jogara fora Descartes, Locke e Wittgenstein, todos os três à puta que os pariu! E não tinha mais nada, nada que não fosse aquele momento de insanidade. A fome que eu ia sentindo, uma fome de loucura, uma fome que era uma saída. A fome que representava toda a controvérsia da vida. A vida era a fome que eu sentia e que ia matando aos poucos. Mas eu sabia, eu sabia que não podia ficar satisfeito. Eu sabia que ficar satisfeito era o princípio do fim, que eu podia cair no buraco e morrer, levar uma topada e ser lançado para fora da órbita da Terra. E se um buraco negro me tragasse? “O buraco negro de nossa galáxia está anos-luz de distância de nós”, uma merda! O buraco negro está em nós. E eu sentia aquela atração dos corpos que se anulam. Mas eu não podia cair em mim. Não assim sem nenhuma proteção, sem nenhum preparo. E era como se eu fosse ficando satisfeito é que estivesse sendo tragado pelo buraco negro e acabasse como tudo o que acaba em seu bojo: satisfeito. Se eu estivesse satisfeito, eu seria a matéria morta com tempo e espaço anulados. Eu seria o não-ser e o não-estar do buraco negro. Eu seria a antimatéria, chocando-se com o corpo delgado, entre amarelo e marrom, sensual que eu era. “O buraco negro não é um buraco, é mais um saco que um buraco”, vi na revista científica e ri. Ri como um doido. O b-u-r-a-c-o n-e-g-r-o O. Tudo isso são palavras, são somente palavras e aquela coisa a que chamam buraco negro é o ralo do universo. Aquela coisa é um botão reset. Aquilo é a descarga do universo e eu sei, eu sei que se eu ficasse satisfeito eu estaria me resetando, estaria me matando muito mais que o matar da fome. É que restaria morta a fome de vez.

E eu tinha a fome que se mata dia após dia. Mas aquilo me pegou despercebido e eu senti a vontade. O mundo, não sei se é vontade de potência, mas é vontade, é tanta vontade que eu amo. É tanta vontade, vontade de comer os olhos, a boca, o respirar, até aquela voz, aquela voz que ouvia na conversa, vontade de não sei. Mas a minha vontade veio vindo sem escrúpulos e sem a capa do saber. Eu olhei pro calhamaço de papel e não vi, não ouvi, não nada, não nada, porra nonada! Meu peito se encheu de ar e eu fiquei estufado e me veio. Senti vontade e me deu depois o impulso de levantar da cadeira aos pulos e gritar, gritar, gritar, bater nas paredes, derrubar todo mundo, bater, bater e só usar a linguagem pra dizer AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!. Você sente isso, você sente? Não, pelo amor de deus, não entenda isso. Não quero que você entenda, quero apenas que sinta. Sentir? Não sei, não sei o que quero contigo, mas eu precisava dizer, ir dizendo, ir dizendo, ir falando, ir, ir, ir, ir. E daí levantei a cabeça assustado, ao meu redor ouvia a zoada do teclado dos outros. Os advogados teclavam o direito dos outros. Assim: tec, tec, tec, tec, tec, tec. Aquilo era a dignidade da Justiça. E eu abaixei o olhos com medo de Thêmis. Eu baixei os olhos porque ela tudo vê e tudo julga. Thêmis é uma inconclusão. Mas ela é.

Eu não sou. Nunca fui e nunca serei. E me contive. Eu contive dentro de mim a vontade. E esperei. Esperei a morte da minha loucura. Esperei que cessasse dentro de mim aquela vontade de ficar louco. Fui descansando como no fim do sexo. Fui assentando o juízo como quem goza. Era como se eu estivesse no instante do buraco negro e agora eu me fosse dissolvendo. E eu olhei para mim e estava novamente de gravata. Eu estava de terno e gravata e eu estava bonito, com a barba feita e os cabelos cortados. E então eu estava quase satisfeito. E então morri.

Mário Filipe Cavalcanti

Graduado em Direito pela Ufpe, advogado, escritor, autor dos livros de contos Comédia de enganos (Penalux, 2013) – Semifinalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014 – e O circo (EdUfpe, 2015), colunista das revistas Samizdat e Página Cultural e colaborador do site Homo Literatus, já saiu pelas revistas Flaubert e 7faces. Leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e também absolutamente nada. Conheça o Blog .

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