Cálculos Acadêmicos

Trabalhemos com números conservadores, para termos uma expectativa mais realista. O aluno chega para um curso de quatro anos. São cerca de duzentos dias letivos por ano, vezes quatro dá oitocentos. Se, nesses oitocentos dias, ele comer no intervalo uma coxinha da cantina (provavelmente vai comer mais, pois já chega para a aula com fome), junto com um refrigerante, temos aí de oitocentas a mil e seiscentas coxinhas e mais a mesma quantidade de refris no decorrer da graduação.

Vamos para as máquinas de venda automática. Em cada uma das alas principais do prédio, contamos com máquinas de preservativos, de snacks e de chocolates. Nossos repositores de estoques apontam para uma média de 32 camisinhas consumidas ao ano per capita, o que dá 128 escapulidas entre uma aula e outra para as urgências da carne. Lembrando que essa conta é por cabeça, independente de ser homem ou mulher. Os snacks e chocolates vendem bem mais, até porque depois do bem-bom bate mesmo aquela fome. Sem contar que os consumidores dos petiscos podem não ser necessariamente os praticantes de sexo, basta que sintam vontade de comer no intervalo entre uma coxinha da cantina e outra.

Os números mais impressionantes vêm dos nossos serviços de fotocópias. Incluindo o montante gasto no TCC, estima-se que cada graduando levará para sua repúbica ou pensionato uma montanha de 18.000 cópias ao longo do curso. Praticamente todas elas tiradas nos serviços de xerox da própria faculdade, a um lucro projetado de 600% por folha.

Esse Monte Everest de papel não caberia no quartinho do aluno se fosse acumulado todo lá. Mas acontece que boa parte disso acaba voltando aqui para a Universidade, na forma de trabalhos solicitados pelos professores. São milhares de toneladas de sulfite que a Universidade revende como reciclável e se transforma em receita. Expressiva receita.

As pesquisas de campo, as excursões para simpósios, palestras, semanas de estudos, ciclos de debates e o que mais aparecer como atividade de complementação acadêmica extra-muros tem toda a sua logística movimentada pela Universidade – do transporte à hospedagem dos participantes. Desnecessário dizer que essa desgastante operacionalização não é conduzida gratuitamente por jesuítas, e nem é penitência missionária. A Instituição cobra bem e fatura horrores com isso.

A fonte de lucros prossegue em patamares elevados e constantes no decorrer dos semestres letivos, até a formatura. É quando toda a parafernália de buffets, conjuntos musicais, cerimoniais diversos, viagens comemorativas, álbuns de fotografias e DVDs de festas e colações de grau são oferecidos aos formandos por valores extorsivos, embutidos neles as comissões da Universidade. Não havendo o repasse de pelo menos 25% para a Instituição, as propostas são barradas e nem chegam ao conhecimento dos alunos.

Tendo em vista o acima exposto, concluímos ser economicamente viável o “Programa Faculdade Grátis – Seu diploma com mensalidade zero e sem vestibular”. Será a consagração definitiva da nossa marca no disputado mercado educacional.

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Marcelo Sguassabia

Marcelo Sguassabia

Redator publicitário, pianista diletante, beatlemaníaco desde sempre e amante de filmes e livros que tratem de viagens no tempo. Blog Consoantes Reticentes.

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