Castidade Violada

– Quando fechamos negócio, o senhor me jurou que dava garantia.

– Eu disse que garantia o produto contra defeitos de fabricação, o que não inclui avarias provocadas pelo mau uso. O cinto de castidade que eu lhe vendi foi violado, eu poderia jurar que usaram um pé-de-cabra para arrebentar a fechadura.

– Desculpa, mas um produto dessa natureza e com essa finalidade, só tem serventia se for comprovadamente inviolável. Cadê a fiscalização do Inmetro numa hora dessa? A minha noiva desacordada na cama, todo aquele sangue escorrido… Ah, se o senhor visse…

– Bom, pela minha prática eu arriscaria três hipóteses para o fenômeno. A primeira: a própria mulher ou alguma outra pessoa provocou ferimento nas partes baixas ao forçar a abertura, aí acabou sangrando. A segunda: a mulher menstruou e, incomodada com o sangue melecando a virilha, abriu a gaiola genital para se limpar. Não sei como, mas abriu. A terceira, que o amigo vai custar a admitir mas que costuma ser a mais provável: o sangue é da perda da virgindade. Consentida ou forçada.

– Ela não faria isso. A minha noiva não!

– Pois é, mas o senhor se lembra que não foi por falta de aviso. Se tivesse levado o modelo com quadrichave e senha digital, poderia ter evitado todo esse aborrecimento. Até hoje não conheci ninguém capaz de violar um genuíno quadricinto de castidade.

– Ponha-se no meu lugar. Se a noiva fosse sua e tivesse acontecido isso, o que pensaria?

– Eu não pensaria nada, pois teria optado por um cinto da linha Quadrichave Ultra Security para não ter dor de cabeça. Se a questão é prevenir, vamos fazer a coisa direitinho.

– Mas dizendo isso o senhor deprecia o seu modelo básico. Por uma questão ética, não poderia vender um modelo com chave comum e risco de violação, concorda?

– Olha, vamos parar com essa discussão. Eu conheço muito bem e respondo por toda a minha linha de produtos, tenho um bom nome na praça e a consciência tranquila. Já o senhor, eu não sei se está tão seguro quanto ao caráter da sua noiva.

– Escolha bem as palavras quando se dirigir a mim, seu maldito insolente. A família dela é respeitada em todo o reino, é gente que honra o brasão da família!

– Então por que comprou o cinto?

– Ferreiro desgraçado! Seu pós-venda não vale nada, é um case de marketing sobre o que não se deve nunca fazer e dizer ao cliente! Vou postar hoje mesmo essa história toda nas redes feudais. Seu negócio será reduzido à produção de ferraduras pra jumento, e olhe lá.

– Bom, pelo menos de fome eu sei que não vou morrer. Jumento é o que não falta nesse feudo…

Direitos reservados
Imagem: www.psychologytoday.com/blog/you-it/201205/the-truth-about-chastity-belts

Marcelo Sguassabia

Marcelo Sguassabia

Redator publicitário, pianista diletante, beatlemaníaco desde sempre e amante de filmes e livros que tratem de viagens no tempo.

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