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  • A Bala de Prata

    A desidratação da candidatura Serra caminha a passos largos. O instituto Vox Populi começou hoje a divulgar o tracking diário das intenções de voto, com resultados desanimadores para o tucano. No tracking, método muito usado em eleições norte-americanas, são feitas pesquisas instantâneas, com amostragens menores, para verificar flutuações momentâneas no humor do eleitorado. Nesse primeiro resultado, Dilma disparou para mais de 51% das intenções de voto, contra 25% de José Serra. Enganaram-se, contudo, os que, no campo da candidatura lulista, pensaram que era hora de relaxar e surfar no tsunami vermelho até o dia 3 de outubro. A oposição ainda tinha uma bala na agulha.

    No meu artigo da semana passada, achei que a mídia tinha começado o desembarque da candidatura tucana, conformada com a inevitável vitória petista. Eu me enganei. Só passei a desconfiar que houvesse alguma coisa no ar quando a Folha de São Paulo publicou uma série de matérias especulativas, travestidas de notícias obtidas de “fontes sigilosas”, sobre arranjos que estariam sendo negociados para o futuro governo entre peemedebistas, petistas, Palocci, Pimentel e outros. Achei que o jornal estivesse usando a tática infantil de plantar cizânia entre os adversários, ao lançar a isca da disputa de cargos, ou talvez quisesse criar uma imagem de presunção de Dilma perante os eleitores.

    Mas não. A estratégia era preparar caminho para a “bomba”, cuidadosamente guardada pela Folha para um momento como o atual, em que só uma bala de prata seria capaz de matar o lobisomem dilmista. Desde pelo menos 2009, era de conhecimento do jornal a existência de um esquema de venda de declarações de renda de contribuintes na Receita Federal. CDs com dados sigilosos da Receita – e até senhas de acesso – podem ser facilmente comprados de camelôs no centro de São Paulo.

    O engajamento da Folha na montagem do episódio revelou-se, em primeiro lugar, no fato de o jornal ter guardado a “notícia” para só divulgá-la neste momento, a um mês das eleições. Em segundo lugar, na tentativa de associar o esquema criminoso à candidatura Dilma e ao PT, sem que se revele um só nome que sirva de elo ou uma prova sequer. Segundo editorial da edição de hoje, a prova seria o fato de a fraude ter ocorrido em Mauá, que fica no ABC paulista, que é berço do PT…

    Parece haver um padrão na dobradinha mídia-Serra: um veículo da imprensa escrita – Veja, Época ou Folha – levanta a bola, a Globo repercute no Jornal Nacional e a campanha tucana leva as manchetes para o horário eleitoral na televisão. O método é revelador de vários aspectos dessa disputa eleitoral.

    Primeiro, mostra que a oposição tenta agora fugir do jogo jogado e partir para a “virada de mesa”. A ordem parece ser ganhar no grito, a custa de factóides alimentados por manchetes na mídia. Essa estratégia, frequentemente, resvala para o golpismo escancarado, em geral com o concurso de aliados na magistratura, ao estilo hondurenho. No caso ora em curso, o PSDB entrou hoje com um pedido de impugnação da candidatura de Dilma no TSE.

    Segundo, revela que a oposição abandonou a disputa entre projetos políticos – ou seja, o projeto liberal demo-tucano desistiu de tentar vender-se como melhor que o nacional-estatismo lulo-petista – provavelmente porque tenha se deixado convencer pelo discurso da situação e passado a acreditar que, de fato, é tão feia quanto pintam. Se for isso o que pensam, estão errados. Aécio Neves fez um bom governo em Minas baseado no gerenciamento eficiente do Estado, pedra angular do receituário liberal. A competente equipe de gestores montada por Aécio, tendo a frente o atual candidato a governador, Antônio Anastasia, é prova de que há lugar para um programa liberal no país.

    Terceiro, expõe, de maneira inequívoca, a ligação visceral entre a coligação PSDB-DEM e os grandes órgãos de imprensa. De onde vem esse vínculo tão forte entre a imprensa e o conservadorismo político? Essa é uma pergunta que eu gostaria de ver respondida. Não creio que a atual disputa presidencial seja o retrato da “luta de classes”. Isso é sociologismo vulgar, marxismo de palanque. Se há um lado para o qual a elite econômica pende, é o de Lula e sua candidata, haja vista a arrecadação da campanha de Dilma ter somado três vezes o montante da oposicionista. Eu, se fosse empresário do setor automobilístico, empreiteiro ou banqueiro, contribuiria alegremente para que um governo que manteve o PIB crescendo em plena crise mundial, transformou o país num canteiro de obras, financiou fusões entre grupos nacionais e fez o mercado interno dobrar de tamanho, elegesse seu sucessor. Sem falar naquela parte da – vá lá – “burguesia” que é petista de carteirinha, como os dirigentes de fundos de pensão, egressos do movimento sindical, que hoje controlam atividades que vão da mineração industrial à telefonia. As forças que se aglutinam em torno de Lula e do PT resultam de uma aliança política que atravessa verticalmente a sociedade. Inclui desde a nova elite econômica, passando pelo sindicalismo, por parte do funcionalismo público, até a massa de trabalhadores pobres que se beneficiou das políticas sociais do governo. O consórcio entre direita e mídia, portanto, não deriva da “luta de classes”.

    Enquanto aguardo uma opinião mais autorizada para responder à pergunta acima, arrisco-me a dizer que a grande imprensa aproximou-se da candidatura Serra não porque tenha simpatia particular pelo candidato ou pelos partidos que o sustentam. O que a move é a ojeriza a Lula e ao PT.

    Os grandes jornais e revistas, assim como a maior emissora de televisão do país, são todas empresas familiares muito antigas. A família Marinho, dona da Globo, é herdeira, já na terceira geração, da empresa criada por Irineu Marinho em 1911. Os Mesquita, donos do Estado de São Paulo, detêm o controle da empresa desde os tempos do Império. Octávio Frias de Oliveira era um rico herdeiro de uma das famílias mais tradicionais de Minas Gerais, quando adquiriu a empresa Folha da Manhã, em 1962, para publicar a Folha de São Paulo. Victor Civita, imigrante judeu ítalo-americano, fundou a Editora Abril, que hoje publica a revista Veja, em 1950.

    O imobilismo de um século na direção desses órgãos acabou por gerar, entre as famílias proprietárias, um comportamento aristocrático que se manifesta num elitismo inflexível e na repulsa a qualquer perturbação do status quo político ou social. Além disso, há forte concentração de poder nas mãos de um grupo muito reduzido – neste caso, apenas seis famílias, se incluída a RBS gaúcha, da família Sirotsky, controlam a maior parte da informação que circula no país –, o que impede dissensões e leva ao monolitismo ideológico. Isso explica não só porque rejeitam o lulo-petismo, mas também porque esses mesmos jornais estavam na linha de frente da oposição ao trabalhismo, até 1964, ao comunismo, até 1945, e ao anarquismo, até 1922.
    Luís Bustamante

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