Cicuta

Tudo começou com a invasão do laboratório de química do colégio. Na realidade, há várias formas de ver como tudo começou e cada escolha é contingente. Mas o fato é que se a cena se passasse numa tela de cinema, tudo teria começado com a invasão do laboratório de química do colégio.

Dezenove horas da noite, o último dos meninos amarelos já havia sido pego pelos pais ou pelos transportes escolares. Os funcionários iniciavam a via crucis da volta para casa. O zelador já rodava as chaves na mão enquanto assobiava “eu não presto, mas eu te amo” e guardava suas coisas na salinha escura dos fundos do corredor estreito do bloco G. E de resto, a tarde já caíra há tempo, subindo lentamente o bafo da noite quente, quando ele a puxou a si e lhe deu o beijo insano.

Ele era maluco, gostava muito de se exibir. Nunca faria nada num quarto fechado, dentro de quatro paredes. Dizia que gostava de se expressar livremente, mas o que gostava mesmo era de despertar vontade nos outros, tesão. Tanto que ela havia estranhado o fato de terem ficado até tão tarde escondidos no colégio, à espera de que todos saíssem. Mas acontece que nem todos haviam saído e ali e acolá algum funcionário ainda arrumava suas bolsas para por o pé na estrada. O beijo tinha sido muito intenso, tanto que começaram a ofegar e a gemer e isso os denunciou – como ele tanto desejava.  Seguiu-se um “tem alguém aí?” duma boca que só podia ser a do zelador, e em seguida a luz forte e branca de uma lanterna. Correram pelo corredor afora. Perseguidos por um ser pesado que tinha chaves saltitantes, provavelmente penduradas na cintura. Pararam diante de duas portas em folhas. Forçaram. Forçaram. O ser pesado se aproximava. A lanterna emitia sua luz tremulamente como se segurada por um velocista em pleno pique. Forçaram e abriram.

Tudo começou com a invasão do laboratório de química. Já estavam dentro quando se deram conta. Ficaram parados abaixados e em silêncio por longo tempo, até que tudo lá fora silenciou. Aquilo poderia ser caso de polícia, pensou. Mas ele estava com a cara de safado mais bonita que ela já tinha visto. Foi que resolveram ficar um pouco mais. Em meio aos beijos ela viu. No início viu, mas não divisou. É como se tivesse visto o que qualquer um vê e, por isso, não teve interesse. Depois se lembrou e ficou interessada. Os beijos dele estavam ficando cansativos e repetitivos. Sabia que após aquilo outra coisa teria de ser feita, e igualmente sabia que não estava pronta para aquilo. Nem ela, nem sua mãe, nem seu pai. Decidiu ir pra casa. Pediu que ele fosse olhar se não vinha alguém para que pudessem sair – afinal, o zelador poderia estar à espreita, esperando unicamente que dessem um vacilo qualquer. Ele se foi em direção à porta, era a chance dela. Aproximou-se do balcão, pegou. Guardou assustada no mesmo instante em que ele chegou. “Vamos, a barra tá limpa!”.

Meses depois sentiu um enfado no coração e não sabia do que se tratava, de onde era. A mãe, prestativa e cuidadosa, a levara para todos os especialistas possíveis e nada. Todos os exames davam sempre a mesma coisa: normal. Se não havia nada, o que enchia seu peito de tanta fadiga e seu ventre de tanto fastio? Se tudo estava tão normal, porque ela se sentia estranha? Pensou longamente e não conseguia entrever um resultado qualquer que trouxesse um alívio, ou mesmo que pudesse aliviar o coração ainda mais aflito de sua mãe. Sabia das ingenuidades de muitos dos cuidados maternos, e da burrice residente em muitos aspectos do ciúme paterno, mas gostava de ambos e se fazia de obediente. Era uma menina boa. Uma menina muito boa. Daquelas que os vizinhos chamariam: normal.

Houve um dia, já próximo ao final do ano escolar, que no colégio percebeu qual era a razão de seu fastio e de todo o seu enfado: estava cansada dele. Precisava se livrar daquele cara o mais rápido possível. Não aguentava ver sequer a fisionomia dele. E o que ele havia feito? Ora, absolutamente nada. Nem era preciso. Essas coisas acontecem. Acontecem o tempo todo. “Mas você não pode fazer isso comigo, gata!”. “Por que mesmo você acha que não posso? E meu nome não é gata. O ano todo você esteve comigo e só me chamou de gata”, “Mas, gata você nem me deu o que tinha prometido…”, “Não era pra ter acontecido”, “Porra, gata! Não aconteceu porque você não quis”, “Pode ser. Enfim, essas coisas acontecem, o tempo todo”, “Isso não vai ficar assim, gata”.

Após isso: liberdade. Estava feliz, radiante, o enfado passara e o fastio também. Havia vomitado. Vomitou e no vômito se livrou da razão de todos os males: alguém indesejado. Estava pronta para ser ainda melhor do que sempre fora. Era uma menina boa. Uma menina muito boa. Daquelas que os vizinhos chamariam: normal. E assim se sentia mais do que nunca: normal.

Sempre tinha visto aquele bicho na casa dos outros. Nunca imaginou que um dia poderia estar na sua. Em sua casa sempre tivera cães e gatos que morreram e deixaram vácuos no estômago e olhos amarelados nas fotos. Mas um papagaio… Nunca pensara! Daí o rapaz chega com um papagaio numa gaiola – de presente. A mãe adorou, sempre quisera ter um bicho desses, bicho de marujo. O pai concordou. Todos haviam recebido o rapaz muito bem. Ela olhava o papagaio com surpresa e hesitação ao passo em que observava cuidadosamente as expressões do namorado. Aquele presente tinha sido mais para os pais do que para ela. Era uma forma de se por no seio da família sem ter de dizer palavra, e ainda assim ser bem aceito. No início tinha achado muito inteligente a atitude dele, depois se sentiu um pouco traída por sua mãe, que vivia de mimos com o papagaio e com o namorado da filha. Mas aquele sentimento de inveja e ciúmes da mãe era muito ruim e no fim das contas ela era uma menina boa. Uma menina muito boa. Daquelas que os vizinhos chamariam: normal.

As primeiras semanas foram interessantes. O bicho era apenas uma ave grande e burra que emitia sons horrorosos que deixavam as pessoas contentes – era uma esquizofrenia coletiva dentro de casa. Excetuando-se ela, que tinha apenas surpresa de ter um bicho daquele, não vontade, amor ou coisa que o valha.

Ao fim de um mês o bicho já cantava algumas músicas e imitava a voz do pai falando mal da presidente da República. Todos riam, menos ela. Achou engraçado uma vez, mas depois se cansou, do mesmo jeito que se cansava de tudo o que era repetitivo.

Todas as noites quando iam namorar na rede da varanda, o papagaio se achegava e ficava observando. Ela no início tomou um susto, depois achou engraçado, depois relegou ao ostracismo. Toda a noite o rapaz, enamorado como sempre, cantava para ela uma mesma música romântica de Djavan. No início tinha achado belíssimo, depois um saco, mas tinha medo de dizer a ele e machucar seus sentimentos – homens não conseguem conviver com sentimentos esfrangalhados, ficam logo bêbados. E afinal ela era uma menina boa. Uma menina muito boa. Daquelas que os vizinhos chamariam: normal.

No dia em que se livrou daquele namoro romântico, belíssimo, carinhoso e tão insuportável chegou em casa radiante. A mãe, que há muito a levava aos médicos para investigar a tal patologia, soube de supetão que se tratava de uma doença da alma curada por um pé na bunda bem dado no namorado idiota. “Mas filha como você pôde?! O rapaz uma pessoa tão boa…”. Deu de ombros, estava cansada. Estava há muito cansada de tudo, cansada até mesmo da velha máscara da menina muito boa.

Na noite seguinte, ela estava deitada na rede da varanda lendo Álvares de Azevedo, pro vestibular, quando o papagaio chegou, parou, observou. Olhou para ele de lado e virou-se. De repente a ave começou a cantar aquela velha música romântica de Djavan. Aquilo a atormentou pela primeira vez. É que não tinha pensado muito nos sentimentos dele, e só depois é que soubera que ele chegara até a chorar por conta do rompimento. “Ah, mas ele supera!”, berrou enxotando o papagaio.

Toda noite a partir de então o papagaio cantava a música de Djavan, com sua voz estridente. A mãe achava lindo e jurava se tratar do destino unindo os dois pombinhos de novo, dizendo que de repente o destino dela fosse estar com ele e que destino é algo que a gente aceita, nunca muda. O pai apenas sorria, sorria alto quando ouvia a mulher falar aquelas coisas pra filha, e ria-se ainda mais da forma gasguita como o papagaio interpretava Djavan. Ela dava de ombros, estava cansada. Estava há muito cansada de tudo, cansada até mesmo da velha máscara da menina muito boa.

Toda noite o papagaio cantava Djavan e seguiam-se conselhos sobre destino e risadas dentro de casa. Toda noite.

Toda noite.

Toda…

Noite.

Um dia a mãe acordou e não ouviu o papagaio entoar seus sons pré-históricos diários, que ela interpretava como uma chamada para lavar roupa (ela lavava, enquanto ele acima de sua cabeça, num puleiro, cantava). Um dia a mãe acordou e notou que o papagaio não cantava. Tinha achado estranho porque logo cedo, às seis da manhã o marido soltava o bicho da gaiola pra ele andar pela casa e fazer das suas. Foi até o corredor que ia da cozinha para a área de serviço e viu o marido vestido com as roupas do trabalho, completamente atrasado, acocorado diante da gaiola.

Agachou-se. A ave tremia, tremia enquanto seus músculos se enrijeciam. Soltava baforadas de ar pelo bico, mas não emitia mais som. O papagaio era tão jovem, não estava em idade para aquilo, o que havia acontecido?

Tinha se lembrado da invasão do laboratório de química da escola. Tinha se lembrado que entre os beijos molhados do namorado, entrevira sobre uma prateleira um vidrinho com um rótulo onde estava escrito: C I C U T A. No início não deu muita importância àquilo. Mas depois, ao passo que os beijos ficavam maçantes, foi se lembrando da aula de história da filosofia onde ouviu pela primeira vez falarem aquela palavra: cicuta. Sócrates bebera a cicuta e entortara-se inteiro na paralisia de seus músculos e membros e depois, depois morrera asfixiado por ter sido supostamente ateu e por ter corrompido os jovens de Atenas. Estava decidida: não sabia o que poderia fazer com aquilo, mas levaria para casa. Veneno de vez em quando é útil, pensou e enquanto o namorado foi ver a porta, aproximou-se do balcão, pegou e guardou esbaforida, no exato instante em que ele voltara.

Toda noite o papagaio cantava Djavan e ela começava a sentir raiva de si, pena do rapaz, raiva do papagaio, da mãe e seus conselhos, do pai e suas risadas, de tudo. Mas e ela não era uma menina boa? Uma menina muito boa? Daquelas que os vizinhos chamariam: normal?

Deu a cicuta ao pássaro num cerimonial de expiação. Fê-lo tomar na vasilhinha de água onde molhava o bico. E assistiu aos primeiros sinais. O dia raiava e ela sentiu bondade em seu coração. Os ventos frios da manhã e o cantarolar dos pardais lá fora. Ouviu os passos do pai e correu para o quarto.

Naquele momento o pássaro estava morto. Havia expirado diante dos olhos arregalados da mãe e do pai. Sobre o chão, recostado à parede um vidro de cicuta. A mãe desatou a chorar assombrada, estava muito assombrada. Derrubava cachoeiras de água salgada dos olhos enquanto balbuciava algo como “Como ela pôde?! Meu Deus! Que monstruosidade!”. O pai havia recebido um telefonema do chefe e havia se desculpado informando que uma pessoa da família havia falecido e que precisava de uma folga para ir ao cemitério. Desligou. Nunca mais a mãe falaria em destino. Nunca mais o pai riria tão alto quanto antes.

A cicuta é uma planta belíssima. Linda. Verde e branca. Delicadíssima. Um primor. Tudo poderia começar aqui, também. Mas o fato é que ela era uma menina muito boa. Daquelas que os vizinhos chamariam: normal. Delicada, verde e branca, belíssima… Mas estava cansada. Estava há muito cansada de tudo, cansada até mesmo da velha máscara da menina muito boa. E afinal de contas, cicutas matam.

Mário Filipe Cavalcanti

Graduado em Direito pela Ufpe, advogado, escritor, autor dos livros de contos Comédia de enganos (Penalux, 2013) – Semifinalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014 – e O circo (EdUfpe, 2015), colunista das revistas Samizdat e Página Cultural e colaborador do site Homo Literatus, já saiu pelas revistas Flaubert e 7faces. Leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e também absolutamente nada. Conheça o Blog .

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