Cineclube no Mês da Consciência Negra
A África tem muitas palavras a dizer, imagens a mostrar e músicas para serem apreciadas. São diferentes culturas e dialetos que constituem um continente único, de forte tradição folclórica e artística e sempre conturbada relação com a modernidade. O cinema local, mesmo que em produção inconstante e em eternas dificuldades estruturais, traduz essa multiplicidade étnica e estética. Muitas vezes, em parceria com a França, país atento ao continente negro por afinidade histórica e por intenso interesse audiovisual, o FESPACO (Festival Pan-Africano de Cinema e Televisão de Uagadugu) foi criado em 1969 por iniciativa de um grupo de cinéfilos para dar vazão a essa expressão continental. O sucesso gerado junto ao público e aos cineastas da África levaram o evento a ser oficializado em 1972 e, a partir da 6ª edição (1979), passou a ser bienal, acontecendo a cada ano ímpar.
O FESPACO instituiu como grande prêmio o troféu “Semental de Yennenga”, que se inspira no mito fundador do império dos Mossés, etnia majoritária em Burkina Faso. Sua forma é o de uma guerreira (Yennenga) de lança na mão cavalgando um cavalo empinado. Ele é entregue aos filmes que se destacam em cada edição, na qual mais de uma centena de produções recentes são sempre exibidas. Para celebrar essa sólida história de valorização e divulgação da cultura africana, o Ministério Francês das Relações Exteriores preparou uma retrospectiva de obras consagradas na história do Festival. É uma forma de olhar o passado para melhor enfrentar o futuro, num contexto em que a diversidade cultural preservada surge como salvação dos povos africanos.
O conjunto de 14 longas-metragens e um média é um autêntico memorial vivo do cinema do continente. Ele ajuda o espectador e cinéfilo a descobrir ou redescobrir obras-primas, algumas delas de cineastas já consagrados no Ocidente, como Souleymane Cissé e Idrissa Ouédraogo, outras de nomes a serem revelados ou resgatados. Como os filmes abraçam um escopo temporal que vai de 1970 a 2004, atestam-se choques entre a tradição e a modernidade, entre o nacional e o estrangeiro, em diferentes momentos. A figura masculina imponente e autoritária, reflete-se como forte traço cultural em muitas das obras, como em “Guimba – Um Tirano, uma Época” (1995). A cultura centrada no homem, aliás, gera também difíceis histórias de amor, pois que a tradição zela que a mulher deva ser previamente prometida a um pretendente de interesse para a família ou comunidade. Esse é o mote de filmes como “Muna Moto” (1974), “Djeli”(1981) e “Tilaï” (1990).
Mas além de temas sócio-políticos, o conjunto de filmes dessa retrospectiva exibida na íntegra pelo Cineclube Cultura, da Secretaria de Cultura de Uberlândia, apresenta ainda ao público cores e sabores de um continente que tão íntima relação tem com o Brasil. Em especial na música, que enleva as tramas em tradicionais bases percussivas ou em texturas mais elaboradas, como as criadas pelo renomado jazzista Abdullah Ibrahim para “Tilaï”. Essa trilha também foi premiada com o Semental de Yennenga, que simboliza por fim o processo criativo pelo qual os cineastas mantêm viva a identidade cultural africana.
Mês da Consciência Negra
Os Sementais de Yennenga
Dia 13 de novembro – sexta-feira
20h00
Ali Zaoua (Marrocos/França, 2000)
Direção de Nabil Ayouch. Cor,90 min
Ali, Kwita,Omar e Boubker são meninos de rua. Apesar das dificuldades do cotidiano, uma amizade indefectível os une. Ali é morto durante uma briga entre bandos rivais. Seus três amigos terão agora um único objetivo: dar-lhe o enterro que merece. Contarão com a ajuda de um adulto, um pescador que ficara amigo de Ali. O filme ganhou o prêmio do público no Festival de Amiens de 2000.
Dia 14 de novembro – sábado
20h00
As mil e uma mãos (Marrocos/França, 1971)
Direção de Souhel Benbarka. Cor,75 min
Em Marrakech, o velho tintureiro Moha e seu filho Miloud transportam pacotes de fios de lã. Assim começa a minuciosa tecelagem de tapetes vendidos no exterior e a labuta dos homens, mulheres e meninas.
Dia 15 de novembro – domingo
17h00
Baara (Bali/França, 1978).
Direção de Souleymane Cissé. Cor,93 min
Um jovem camponês de Mali trabalha como baara, isto é, carregador de bagagens em Bamaco. Um dia, faz amizade com um jovem engenheiro. Este passa a protegê-lo, ajudá-lo em seus problemas com a polícia e lhe consegue um emprego. O engenheiro, que estudou na Europa, tenta aplicar suas idéias liberais dentro da fábrica. Ele se opõe ao sindicato local, submisso ao patrão, e entra em conflito com a diretoria da fábrica. O filme conquistou, entre outros, o prêmio de melhor fotografia no Festival de Locarno de 1978 e o Grande Prêmio dos Três Continentes no Festival de Nantes de 1979.
20h00
Heremakono – Esperando a felicidade ( Mauritânia/França, 2002)
Direção de Abderrahmane Sissako. Cor, 95 min
Em Nouadhibou, aldeia de pescadores no litoral mauritano, Abdallah, um jovem malinês de 17 anos, visita a mãe antes de partir para a Europa. Neste lugar de exílios e de falsas esperanças, o jovem, que não entende a língua, tenta decodificar o universo à sua volta: Nana, uma jovem sensual, Makan, que sonha com a Europa, Maata, um antigo pescador e agora eletricista, e seu discípulo Khatra, que vai ajudá-lo a sair de seu isolamento ensinando-lhe o dialeto local. Os destinos se encontram e se desencontram ao longo dos dias, os olhares fixos no horizonte aguardam uma incerta felicidade. O filme ganhou o Prêmio da Crítica Internacional na seção Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2002, além do prêmio de melhor direção de arte no Fespaco 2003.
Dia 19 de novembro – quinta-feira
20h00
Buud Yam (Burkina Faso/França, 1997)
Direção de Gaston J-M Kabore. Cor,99 min
Wend Kuuni foi encontrado quase morto na selva quando criança e adotado por uma família. Apesar de ter sido aceito pela comunidade da aldeia, continua a ser tratado como um forasteiro. A vida em família decorre serena até o dia em que Poghnéré, sua irmã adotiva, fica gravemente doente. Wend Kuuni parte em busca de um curandeiro lendário para salvar sua irmã da morte. Sai então de sua aldeia adotiva e começa uma jornada de iniciação que o conduzirá rumo às próprias raízes.
Dia 20 de novembro – sexta-feira
20h00
Djeli (Costa do Marfim/França, 1981)
De Fadika Kramo-Lanchiné. Cor, 92 min
Dois estudantes marfinenses, Fanta e Karamoko, estão apaixonados e querem se casar. Nascidos na mesma aldeia, seus respectivos pais se conhecem bem. Mas Karamoko, filho de griô (um músico e poeta itinerante), não pode casar com Fanta, filha de um descendente direto das famílias ilustres do povo Mandingue. Apesar de o mundo estar em plena transformação, ambas as famílias se opõem ao casamento entre os filhos para preservar a tradição.
Dia 22 de novembro – domingo
17 horas
Em nome de Cristo (Costa do Marfim/França, 1993)
Direção de Roger Gnoan M’Bala. Cor, 82 min
Numa pequena aldeia marfinense, vive um criador de porcos, desprezado por todos. Num belo dia, ele bebe demais e tem a visão de um Deus-criança, que o elege para salvar seu povo. Ele passa então a ser Magloire 1º, primo de Cristo, e usa sua eloqüência para impressionar a imaginação das pessoas e fundar uma seita. O filme ganhou, entre outros, o Prêmio Especial da Juventude no Festival de Locarno de 1993 e o Prêmio Especial do Júri no Festival de Milão de 1994.
20h00
Drum (África do Sul, 2004).
Direção de Zola Maseko. Cor,104 min
A vida de Henry Nxumalo, jornalista investigativo famoso nos anos 50 em Sophiatown, bairro-símbolo da resistência cultural em Johanesburgo. Ele trabalha numa revista direcionada para negros, Drum, verdadeira arma na mídia da época. Durante essa era, toda uma geração de exigentes sul-africanos (autores, críticos, músicos e jornalistas) surgiu e expressou-se nessa resistência. Henry Nxumalo arriscou a vida para denunciar as condições de tratamento dos negros que viveram e trabalharam durante os anos de segregação, apesar do assédio constante por parte das autoridades. Foi considerado o Melhor Filme Sul-Africano no Festival de Durban em 2005.
Dia 25 de novembro – quarta-feira
20h00
Finyé(Mali/França, 1982)
Direção de Souleymane Cissé. Cor,105 min
Dois adolescentes malineses, Bah e Batrou, oriundos de classes sociais diferentes, encontram-se no liceu. Bah é o descendente de um grande chefe tradicional. O pai de Batrou, governador militar, representa o novo poder. Os jovens pertencem a uma geração que recusa a ordem estabelecida e põe em xeque a sociedade.
Dia 26 de novembro – quinta-feira
20h00
Guimba – um tirano, uma época (Mali/França, 1995)
Direção de Cheick Oumar Sissoko. Cor,93 min
Sitakili, uma cidade no deserto do Saara, vive sob a dominação de um homem, Guimba Dunbaya, e de seu filho Janguiné. Kani Coulibaly é noiva de Janguiné desde que nasceu. Ela é agora uma bela moça, muito cortejada, mas nenhum pretendente ousa se declarar de tão grande o horror imposto por Guimba. Durante uma visita de cortesia a Kani, Janguiné apaixona-se por Meya, a mãe de sua noiva, e quer casar com ela. Para satisfazer o capricho do filho, Guimba expulsa Mambi, o marido de Meya. Este se refugia então numa aldeia de caçadores e organiza a revolta contra o tirano. O filme levou os prêmios de melhor figurino e desenho de produção no Fespaco 1995.
Dia 27 de novembro – sexta-feira
20h00
História de um reencontro (Argélia/França, 1983)
Direção de Brahim Tsaki. Cor, 80 min
Duas crianças surdas e mudas. Ela, filha de um engenheiro petroleiro americano. Ele, filho de um camponês argelino. Encontram-se e conseguem se comunicar, ultrapassando todas as barreiras culturais que as separam.
Dia 28 de novembro – sábado
20h00
O Wazzou polígamo (Le Wazzou Polygame, Nigéria 1970)
Direção de Oumarou Ganda. Cores, 38 min
Um crente muçulmano, ao voltar de Meca, recebe o título de El Hadj. Mas ele não tem escrúpulos em cobiçar a jovem Satou, prometida a Garba. Só resta a Garba, furioso, deixar a aldeia para ir à cidade. Mas um drama mais grave surge: a segunda esposa de Hadj, Gaika, não aceita a intrusa e, para impedir o casamento, decide matá-la na véspera. O filme conquistou o Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Dinard (França), em 1972.
Tilaï (Burkina Faso/França, 1990)
Direção de Idrissa Quédraogo. Cor,81 min
Saga volta à aldeia depois de uma ausência de dois anos. Muitas coisas mudaram. Sua noiva Nogma é agora a segunda esposa de seu pai. Mas Saga e Nogma ainda se amam. Apesar de terem que transgredir as leis, os dois jovens têm um caso. Para a aldeia, isto significa incesto e Saga deve morrer. Kougri, seu próprio irmão, é designado para matá-lo. Este deixa o irmão escapar e Saga refugia-se junto a uma tia. Nogma vai viver com ele. Vivem felizes até o dia em que Saga sabe que sua mãe tem poucos dias de vida. Ele decide então voltar para a aldeia. O filme ganhou um prêmio no Festival de Cannes 1990 e também levou o de melhor música (para o músico e compositor de jazz Abdullah Ibrahim) no Fespaco 1991.
Dia 29 de novembro – domingo
17 h00
Identidade (República Democrática do Congo/França, 1998)
Direção de Mwenze Dieudonné Ngangur. Cor, 97 min
20h00
Muna Moto (Camarões/França, 1974).
Direção de Jean-Pierre Dikongué-Pipa. Cor,89 min
Ngando e Ndomé se amam. Ngando quer casar com Ndomé, mas a família dela lembra-lhe que ele deve pagar o dote. Órfão, ele recorre ao tio para ajudá-lo a cumprir esta obrigação tradicional. Mas o tio, que não consegue ser pai apesar das três esposas, decide casar com a moça sem saber que ela está grávida de Ngando. O filme conquistou, entre outros, o prêmio Georges Sadoul em 1975 e o primeiro prêmio da Organização Católica Internacional de Cinema, de Ouagadougou (África), em 1976.
Local: Oficina Cultural de Uberlândia – Sala Roberto Rezende
Pça. Clarimundo Carneiro, 204 – Bairro Fundinho
Entrada Franca
Cineclube Cultura é um projeto de caráter cultural, sem fins lucrativos.
Lei nº 9.696/2007 e Decreto 10.999/2007
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