A Origem
Se você prestar muita atenção e entender, é um filme perfeito. Caso contrário…
Começo a crítica de “A Origem” dizendo algo que talvez resuma os diversos sentimentos do público ao sair da sala de projeção: é um dos melhores e mais complicados roteiros que eu já vi em toda a minha vida. Se você prestar muita, mas muita atenção mesmo, e entender toda a complexa história escrita e dirigida magistralmente por Christopher Nolan (de Batman – O Cavaleiro das Trevas), com certeza vai amar o filme e colocá-lo no topo de sua lista de melhores de todos os tempos. Mas se você não conseguir se manter atento e não entender o que se passa na tela, pode odiar o que está assistindo. E ainda têm aqueles, como um amigo me contou, que assistem ao filme e acham ótimo mesmo sem entender absolutamente nada! Portanto se você ainda não viu, se prepare para não piscar ou roube o controle remoto do cinema pra pausar quando não entender!
A Origem é baseado na história de Dom Cobb que é um experiente ladrão, capaz de penetrar no íntimo e infinito universo dos sonhos e, assim, roubar valiosos segredos dos subconscientes das pessoas enquanto elas estão dormindo. A rara habilidade de Cobb o tornou um invejável jogador neste universo de espionagem, ao mesmo tempo em que o transformou em um fugitivo internacional e lhe custou tudo o que ama. Mas a vida de Cobb muda quando ele recebe uma proposta para ao invés de roubar uma idéia, coloque uma idéia na mente de um dos personagens que vai fazer mudar o futuro das pessoas que o cercam.
Christopher Nolan faz de “A Origem” um filme tão bom ou até melhor que o excelente Batman The Dark Knight. Já comentei parte de seu roteiro nas primeiras linhas de minha análise, mas me aprofundo. Inventar um mundo em que as pessoas entram em sonhos para roubar idéias? Até aí tudo bem. Mas um sonho dentro de outro sonho que vem de outro sonho sonhado na realidade? Aí já é demais! E é claro que se você ainda não viu o filme, não entendeu nada que eu disse nessa frase. Mas continuando… tudo se encaixa apesar dessas “camadas” de sonhos. Com isso você acaba vendo até 4 filmes diferentes com os mesmos personagens e um único objetivo. E se pra mim é difícil escrever essa crítica pela complexidade do filme, imagine pra você que não viu o filme e está lendo-a?
Mas vamos falar de outros pontos positivos menos difíceis de entender. Pra começar os efeitos especiais são ótimos e colocados na medida certa, como se realmente estivéssemos sonhando. Sabe aquele susto enorme que levamos quando a gente sonha que está caindo da cama e que nos faz acordar imediatamente com o coração disparado? Pois é, este é o famoso “chute” denominado no filme e que é mostrado através desses efeitos. Mundos diferentes sonhados por pessoas diferentes ganham vida e parecem bem reais neste filme. O uso do Slow Motion é outro acerto da direção. As cenas em que o personagem Cobb explica a novata arquiteta Ariadne como as coisas funcionam nessa rede de sonhos são de deixar o espectador boquiaberto. O mesmo acontece na parte em que nos corredores de um hotel acontece uma luta emocionante que começa no chão, passa pelas paredes, vai para o teto e volta ao chão novamente. Tudo roda por que aquilo é um sonho de alguém que está dormindo em uma van que está capotando.
Além de ter escrito essa história maluca e fascinante, Nolan dirige “A Origem” como um veterano da sétima arte, apesar de ser dono de uma carreira de apenas 12 anos em longas e somente 7 filmes (todos que assisti muito bons). Mas não podemos esquecer do elenco. As interpretações de todos os atores são boas, por menores que sejam na projeção. Também pudera: Leonardo DiCaprio, Ken Watanabe, Joseph Gordon-Levitt, Cillian Murphy, Marion Cotillard, Tom Hardy, Ellen Page e Michael Caine. Só tem fera!
Não leia se não viu o filme.
Mas depois de todo o desenrolar dos seus 148 minutos, “A Origem” ainda nos deixa cheio de perguntas sem respostas ao término do filme. O que aconteceu no sonho que Saito voltou à realidade após ser convencido por Cobb? Subentende-se que ele teria pegado a arma e sucidado naquele mundo fictício para acordar na vida real. Mas e o “Gran Finale”? Finalmente Cobb volta pra casa, é recebido por seu pai e revê seus filhos. Mas antes coloca sobre a mesa um pequeno peão girando. Se ele cair é a vida real, mas se continuar rodando, o filme todo não passa de um sonho. E advinhe o que acontece? A imagem é cortada sem sabermos o que acontece com o peão!
Perfeito!!!
Nota 10
Por Kelson Venâncio
FICHA TÉCNICA
Don Cobb (Leonardo Di Caprio) é especialista em invadir a mente das pessoas e, com isso, rouba segredos do subconsciente, especialmente durante o sono, quando a mente está mais vulnerável. As habilidades singulares de Cobb fazem com que ele seja cobiçado pelo mundo da espionagem e acaba se tornando um fugitivo. Como uma chance para se redimir, Cobb terá de, em vez de roubar os pensamentos, implantá-los. Seria um crime perfeito, mas nenhum planejamento pode preparar a equipe para enfrentar o perigoso inimigo que parece adivinhar seus movimentos. Apenas Cobb é capaz de saber o que está por vir.
Diretor: Christopher Nolan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Ellen Page, Cillian Murphy, Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe, Michael Caine, Tom Berenger
Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas
Roteiro: Christopher Nolan
Fotografia: Wally Pfister
Trilha Sonora: Hans Zimmer
Duração: 148 min.
Ano: 2010
País: EUA/ Reino Unido
Gênero: Ação
Cor: Colorido
Distribuidora: Warner Bros.
Estúdio: Warner Bros. / Syncopy
Classificação: 14 anos
Kelson Venâncio - Jornalista premiado, diretor de Comunicação da Câmara Municipal de Uberlândia, editor e apresentador do TVU Notícias (UFU) e diretor do site e programa de TV Cinema e Vídeo". www.cinemaevideo.com.br
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“A origem”
Mesmo que levássemos em conta apenas a superfície imediata do entretenimento, o filme superaria a média industrial hollywoodiana. Nem tanto por mérito do jovem e talentoso Cristopher Nolan, mas graças ao arrojo técnico empregado para contar sua história mirabolante. Os efeitos visuais atingem um grau de ilusionismo assombroso. A edição é exemplar. Prêmios técnicos não faltarão ao filme.
Há, no entanto, um pequeno detalhe.
A música “Je ne regrette rien”, cantada por Edith Piaf, surge freqüentemente, servindo a necessidades dramáticas. Os protagonistas a utilizam como uma espécie de gatilho para retornar das viagens pelos sonhos. Depois que os inconscientes foram devidamente treinados, basta-lhes ouvi-la e todos despertam imediatamente, salvando-se de apuros eventuais.
Mas trata-se também de uma referência exterior ao próprio filme: a canção desloca nosso raciocínio da personagem-chave “Mal” para sua intérprete, a francesa Marion Cotillard. Pois é impossível não lembrar a própria Cotillard no papel de Edith Piaf, cantando exatamente “Je ne regrette rien”.
Enquanto “Mal” só existe no mundo onírico, a identificação da atriz com seus trabalhos anteriores faz sentido apenas no plano dos espectadores conscientes. A citação extrai os personagens de suas imersões pela fantasia e ao mesmo tempo nos retira de “A origem” (ou do “sonho” representado pelo filme) para devolver-nos à realidade exterior.
Se qualquer outra canção preservasse o mesmo sentido conveniente à trama (“não lamento nada”), as lucubrações acima virariam delírios absurdos. Mas a escolha dessa música, entre inúmeras possíveis, é precisa e enriquecedora demais para soar casual. E assim descobrimos a essência do código metalingüístico em sua plena realização.
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