Comprovante de Residência

Faz frio e muito frio.
Entretanto, mais frio do que o próprio frio é a frieza com que tratamos os nossos velhos.
É certo que nos asilos durante o inverno eles têm pneumonia e morrem mais que nos outros meses do ano, pois levantam cedo e tomam banho frio ou quase isso.
Jamais entendi o porquê dos filhos abandonarem os velhos nos asilos.
Jamais entendi o porquê das crianças serem jogadas nas creches.
Talvez seja uma cultura do troco: “Você me coloca na creche e mais tarde eu te coloco no asilo.”.
Se as crianças não correm mais no pátio da casa porque estão na creche; se os velhos não precisam da cadeira de balanço na varanda, então a moradia dispensa o pátio e a varanda. Moraremos em pombais e cubículos sem crianças e velhos, e sem calor humano. Ficaremos frios de alma com a resignação de que assim deve ser. Passaremos a vida inteira tentando encaminhar os filhos e netos para uma vida profissional de sucesso e ficaremos tristes quando eles forem embora, voltando bem mais tarde para nos depositar em asilos.
Esquecemos que o maior investimento que devemos fazer durante a vida é investimento emocional, para que o frio de todos os invernos seja mais quente e humano.
Que os velhos tenham a sua varanda e sua cadeira de balanço e, enrolados num cobertor de lã, possam contemplar a gurizada brincando na geada dos invernos da vida.
Todavia, parece que o lar acabou, temos só o comprovante de residência.

Sérgio Clos

Sérgio Clos

Escritor de Porto Alegre/RS publicou "Premissas", "A maleabilidade do tempo", "Fios de Prata, "Império do cinismo" e "Fundamentalismo Democrático".

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