Pena Branca e Xavantinho

José Ramiro, mais conhecido como Pena Branca, passou mal em casa e foi levado às pressas pela mulher, Maria de Lourdes, e uma vizinha ao Hospital São Luiz Gonzaga, no bairro do Jaçanã, zona norte de São Paulo. Segundo relatos de pessoas próximas, ele passou o dia tranquilo e até tocou algumas músicas em sua viola. O cantor morreu na noite da última segunda-feira, após sofrer um infarto em casa. O corpo do cantor foi enterrado no cemitério Parque dos Pinheiros, zona norte de São Paulo. Márcio Bonesso nos enviou um texto em homenagem à dupla Pena Branca e Xavantinho. Buscamos também alguns vídeo para relembrar esses ícones da música regional.

Pena Branca e Xavantinho
O ser caipira e o ser cosmopolita

Pena Branca e Xavantinho, grande dupla caipira que revolucionou a música brasileira justamente por fazer o caminho inverso de todos os músicos regionais, desafiando até mesmo o conceito dos intelectuais mais puristas que estudam a cultura popular. Como pode música caipira se misturar com gêneros modernos da MPB?

Final da década de 60, saíram de Uberlândia, interior mineiro, para a metrópole paulista. Toparam tudo e com tudo! Deixaram o bairro Patrimônio – bairro da diáspora negra de Uberlândia – para materializar o sonho de serem cantores profissionais. De foliões, congadeiros, jogadores de futebol, trabalhadores do charque se transformaram em chapas por muito tempo.  Faziam bicos, investiam o salário em ingressos para concursos em rádios e circos, batalharam muito; mais de dez anos para gravar seu primeiro disco no inicio da década de 80.

Década de 80, década da descoberta pela grande mídia da dupla cosmopolita Pena Branca e Xavantinho. Como assim, caipira na grande mídia? Caipira cosmopolita? Isso mesmo, vários prêmios Sharp – uma das premiações mais conceituadas da década em todo Brasil. Onde já se viu isso, dupla caipira tocar Chico Buarque e Milton Nascimento! Tocar Djavan, Caetano Veloso, Tom Jobim… acabaram se tornando tão geniais como esses gênios da MPB, transformaram clube da esquina, bossa nova, tropicalismo, toda a complexidade musical desses modelos estéticos em um modelo simples, simples e belo. Genial!

Década de 90, Xavantinho um militante declarado em suas poesias e na escolha das músicas se foi, virou Cuitelinho. Pena Branca costumava dizer que o Xavantinho era o politizado da dupla e o principal letrista.

Pena Branca seguiu o caminho da dupla, fez novas parcerias: Chico Lobo, Renato Teixeira, grupo Mano Veio, mas sempre dizia em entrevistas que nunca montaria dupla com ninguém, pois sempre sentia a presença de Xavantinho nos shows.

Início de um novo século, e não é que ocorre uma surpresa muito interessante. Grammy Latino da Música, estilo sertanejo candidatos: Sandy e Junior, Bruno e Marrone, Chitãozinho e Xororó, Leonardo e Pena Branca com seu primeiro cd “solo”.  Não é que uma tal Semente Caipira ganhou do rico agronegócio da música sertaneja.

8 de fevereiro de 2010, o Mano Véi foi se juntar novamente com o Xavantinho. Na verdade Pena Branca me mostrou em seus shows sensações e sentimentos que talvez não perceberia com nenhum outro músico, nem talvez se fosse com esses músicos gênios brasileiros citados acima. Como pode uma figura tão simples ser carismática a ponto de no intervalo de duas músicas fazer uma mesma pessoa chorar de rir dos causos engraçados e chorar de emoção por ouvir certos hinos cantados como o Cio da Terra, Romaria, Cuitelinho, músicas que fazem religar essas pessoas aos seus antepassados que em muitos casos faleceram. Fico pensando, será que algum espetáculo musical consegue reunir em tão pouco tempo essas duas sensações contraditórias com tanta harmonia? E isso não acontecia de vez em quando, era parte constitutiva do espetáculo feito por um grandioso humilde senhor.

* Márcio Bonesso, músico contrabaixista e professor de antropologia e sociologia do IFTriângulo. Tocou 4 anos com Pena Branca, integrando o grupo Mano Véi / Viola de Nóis.

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1 Comentário

  1. Pena Branca é da mesma linhagem do Guimarães Rosa, sertanejo, interiorano, porém universal. É um artista que consegue representar as minhas origens rurais, caipiras. Aquelas do interior mineiro, da roça, não do pastiche texano, da cowboy, da picape com o som automotico estourando os tímpanos dos pedestres e da calça jeans apertada.
    Viva Pena Branco, viva Xavantin!

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