Cuidado: não-venenoso!

– Quero todo mundo na minha sala agora. Eu disse agora!

– Nossa, o que é que aconteceu?

– Recebemos um lote enorme de veneno vencido, ou seja, não fatal. Estamos rastreando todo o processo para detectar onde foi o erro e processar o fornecedor.

– E como é que a gente faz agora? A história é contada milhares de vezes por dia… se não tiver maçã envenenada, como é que vai ser?

– Pelas barbinhas dos sete anões, chefe! Isso aí é uma catástrofe de dimensões mundiais.

– Cala essa boca, vai, não precisa ficar me lembrando disso. Eu sei o quanto estou ferrado, os acionistas vão me cobrar explicações.

– Olha só, ligação de Singapura informando que o filme travou bem no ponto em que a madrasta entrega a maçã para a Branca de Neve. Houve confusão no cinema, tiveram que chamar a polícia, a plateia queria os ingressos de volta. Tá feia a coisa por lá.

– Calma, calma pessoal. A gente sabe que, na história, o veneno não é pra ser tão fatal assim. É só um nana-neném suficiente pra Banca ferrar no sono até a chegada do príncipe. Podemos tranquilamente substituir o veneno por uns dois ou três Lexotan de 6mg que dá no mesmo…

– Tá, mas o estrago está feito. Ou seja, onde quer que a história tenha sido contada nos últimos dias, a coisa ficou sem pé nem cabeça. A responsabilidade é nossa!

– Bom, aí já não é da alçada do meu departamento. Mas, daqui pra frente, se acharem a ideia do Lexotan boa, eu conheço um pessoal que fornece o genérico. Fica bem mais em conta. Até onde eu sei, eles têm um galpão lotado pra pronta entrega, e a data de validade é pra 2016. Resolve o problema por um bom tempo.

– Como saída emergencial, acho que pode ser. O problema é que a tolerância da mocinha ao medicamento tende a aumentar. Mesmo dando mais sossega-leão pra ela, a expectativa depois de algumas semanas é que ela desperte antes da chegada do príncipe.

– Gente, notícias frescas do norte da Itália. A história estava sendo contada hoje de manhã, para um grupinho de jardim da infância de uma aldeia. Estão dizendo que a porca da princesa traçou a maçã até o talo, deu um baita de um arroto, cuspiu as sementes na rua e foi multada por um fiscal da limpeza urbana. A situação está fugindo do controle. Estamos desmoralizados. Os Irmãos Grimm devem estar se virando nas catacumbas.

– Tem mais. Chegou um email de São Félix do Araguaia informando que a Branca comeu a maçã, saiu pra rua e se enrabichou por um atendente do Subway local. Ficaram conversando num banco de praça e tomando energético com tequila, enquanto o príncipe chegava a todo galope. Ele arrombou a porta da casa dos anões e, claro, não viu caixão nenhum. Começou a esbravejar, dizendo que aquilo não estava no script e que ia pedir uma indenização milionária por danos morais.

– Mais essa… cancela a compra do lote de Lexotan, ou então não vamos ter grana para o acerto com o sacana do príncipe. Vamos tentar uma conciliação no juizado de pequenas causas.

– Pequenas causas?? Só se a pendenga fosse com os anõezinhos. No caso do príncipe, grandalhão do jeito que é, vai ser difícil. Fora que ele tem uma renca de advogados reais.

– Se o advogado dele fosse bom mesmo, ele já teria escapado da história. Ou conseguido um Habeas Corpus.

– Bom, lá isso é.

Marcelo Sguassabia

Marcelo Sguassabia

Redator publicitário, pianista diletante, beatlemaníaco desde sempre e amante de filmes e livros que tratem de viagens no tempo.

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