“MangArriada”, do ruminante Renato Cabral

E imaginar que as histórias mais belas são contadas por uma gente das mais esquecidas, os vira-latas, seguindo em sua vida de cão, malograda, largada. Gente ora molenga, ora ansiosa pela coleira que lhes guie; ora acordando no lixo, ora sonhando com o luxo. E o luto sempre perto. Por esse misto de engolir e vomitar, vai se tecendo a trajetória torta desses micróbios, desse microcosmo que nos é longe, mas familiar; que nos diz respeito como uma sombra e que conta nossa própria história por meio de bustos de bronze, por bonecas de plástico de uma infância perdida em poças de lama. Enfim, pelos signos que também nos tomam conta e nos apagam. E, enquanto isso, o mangue indo e vindo com a maré, relógio do tempo que não irá nos esperar nos limpar e seguir. Morreremos assim, sujos e quase lá, perto do mar, mais perto ainda do asfalto e da merda, da desgraça esperada.

Renato Cabral é colunista do Página Cultural.

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3 Comentários

  1. Valeu Alysson e Tiagão.

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