Dança

Tomou-o de assalto, envolvendo-o levemente com seus braços, cortejando-o como fazia os homens as mulheres. Suas pernas como se fossem cobras se entrecruzavam, e a realidade da serpente era outra, outra já sabida de ambos. Um deles se lembrou daquela amiga que se dizia defensora da causa gay, mas achava feio dois homens dançarem juntos. Por quê? Não havia nada de errado naquilo. Nenhuma normatização de atos, costumes, fariam com que a vontade dos dois não se concretizasse. Naquele momento em que no palco uma cantora embebia os ouvidos alheios com sua voz finíssima e as fogueiras queimavam a frente das casas, as crianças corriam e brincavam de estourar fogos, eles viviam. Viviam toda a humanidade dentro deles. Eram diminuídos ou aumentados a maneira que os olhos os observavam, e as pessoas chocadas com suas caras de horror se amedrontavam diante da cena. Porém medo algum os faria perder o passo, sair da dança, pois a dignidade com que portavam-se diante dos seus desejos era admirável. E os olhos dos dois conectados, como se o mundo houvesse parado para viver aquele momento junto com eles, e as pessoas se esquecem das suas próprias vidas para viver aquela faísca de vida e coragem que brotava daquela cena.

Então o ser elevou-se a supremacia e na lembrança da chegada se desfez o que nunca haveria de ter sido sentido, o medo, a perturbação. Chegaram juntos a festa, namorados a meses, mas era a primeira vez que chegavam juntos numa festa, que iam a uma festa. Para um deles era a primeira vez sendo namorado de um homem, para o outro era a primeira vez sendo namorado de um homem que ele amava. Chegaram e ficaram estáticos, todos os seus amigos heteros dançavam, bebiam, e eles dois, como se não se divertissem comiam a presença um do outro. Mas isso a eles não bastava. Algo lá no fundo de suas almas exigia o ato. Como se portar numa festa hetero onde se dança acompanhado com seu namorado gay? Não havia resposta, não deveria haver pergunta. E aquela vontade foi crescendo, crescendo até que tomou-o de assalto, envolvendo-o em seus braços, cortejando-o como faziam os homens as mulheres. E sorriram, por quê a vida é uma obra de arte feita para contemplar-se e ri-se. A vida é um emaranhado de cores que não existem. E dançaram, dançaram como se não restasse mais um único dia em suas vidas, e naquele momento foram eles, sendo todos os outros que os olhavam. A lua iluminava suas pelas e eles sorriam, sorriam, imensamente felizes, como se o nascimento houvesse acontecido. O desabrochar do próprio ser no âmago. E aquela ousadia sendo exalada, sendo respirada, como se o mundo fosse pela primeira vez.

Marcos Welinton Freitas

Marcos Welinton Freitas

Baiano do Bravo/Serra Preta. Graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Escritor: poeta e contista. Publicou os livros “Poesia proibida” (Editora Multifoco/RJ, 2012) e “Badalos do século XXI” (Editora Penalux/SP, 2013). Comanda o blog Para Lavar a Alma.

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