De costas para a Mona Lisa

I

Sobre como visitar museus de arte 

No Museu Louvre, há cerca de dez anos atrás, surpreendeu-me tanta gente olhando para a pintura Mona Lisa através da câmara fotográfica. Muitos visitantes, após percorrerem apressadamente o longo caminho – havia uma sinalização especial para levar à esta pintura – chegavam à obra de Da Vinci, tiravam uma foto e iam embora com a sensação de dever cumprido. Ufa! Tá visto.

Eu fiz um livrinho reunindo fotos de visitantes se espremendo, levantando seus braços com a câmara digital para tirar fotos da Mona Lisa, como se estivessem num show de rock mudo.

Comentando tal experiência com um conhecido, fiquei sabendo que tal atitude continua até os dias atuais, mas agora, predominam os selfs com a Mona Lisa. Ou seja, os visitantes chegam até a obra e rapidamente se viram de costas para ela: fazem self. Imaginei esta coreografia repleta de movimentos vazios e auto-centrados realizada por visitantes que não se afetam pelos trabalhos de arte que concentram tantas tradições, momentos, esforços e sonhos de artistas. A experiência  poderia ser intensa no momento presente da visita, mas é substituída pela foto que será vista no futuro. Então as obras, mediadas pelas fotos, viram souvenir de uma experiência que não ocorreu. E assim, também nos museus, vemos as pessoas viverem no futuro e perderem o presente. Não estou aqui criticando a reprodução via foto, ou da perda de autenticidade da obra, mas sim de autenticidade da experiência: pois ninguém nem olha os selfs depois.

Também, sem bons leitores não há obras de arte: os trabalhos de arte têm valor na medida em que eles proporcionam experiências e não por eles mesmos. Com um ritual superficial, os grandes museus viraram a Ilha de Caras.

II

Corpos endurecidos na galeria

A ideia de que precisamos ser descorporificados e nos comportar como múmias pensantes no museu tem sido tradicionalmente cultivada. Quase num ato de tortura, em museus de arte, temos que mover apenas nossos olhos. Apesar de tantos corpos livres e loucos representados, o nosso corpo deve ficar comportado e “pensar mentalmente” sobre arte. Assim, visitamos exposições de arte com nossos corpos endurecidos e gelados pelo ar condicionado. A coreografia tradicional do visitante de museu é a de um corpo contido e com movimentos discretos. A trilha sonora é o silêncio.

Não é raro sentir exaustão após visitar um grande museu de arte. O corpo dói. Dá vontade de correr para um massagista, direto. Mas o pior é que nossa experiência diante das obras se reduz: quando estamos cansados nossos sentidos se contraem e, com nosso corpo tenso a experiência se encolhe. Muitos museus já perceberam isso e colocaram cafés integrados nos espaços expositivos ou ainda promovem atividades onde o visitante é convidado a fazer gestos, a mover-se e usar o corpo –  eu vi isso em um curso de formação no Museum of Modern Art-MOMA de Nova Iorque[1].

Sobre como a experiência no museu é também corporal (somática) reproduzo o relato que ouvi de um educador de um museu mexicano:

“Recebi um grupo no Museu que pretendia firmar um patrocínio para as exposições do acervo. Eu fiquei responsável por mediar esta visita que era de grande importância para o Museu. Todos os visitantes deste grupo tinham conhecimento acerca da arte e por isso andamos por diversas salas onde em cada uma delas, eles pontuavam questões acerca de uma obra e assim fizemos um longo percurso por todo o museu, quando após mais ou menos uma hora e meia decidimos parar no café do Museu para descansar um pouco e tomar um lanche. Nas paredes do café do museu também haviam obras do acervo, que não eram consideradas as mais importantes ou significativas, e sequer estavam lá através de uma curadoria muito elaborada.

No entanto, me dei conta que ficamos a conversar mais uma hora sobre uma das obras que estava na parede do café. Simplesmente viajamos, rimos e choramos com as ideias que a obra nos sugeriu. Realizei que realmente a obra do café foi o ponto alto da visita.

Depois,  ao pensar sobre esta visita me dei conta que o motivo pelo qual a obra do café foi o ponto alto da experiência não estava diretamente relacionado com a obra, mas com o fato de que estávamos sentados em poltronas confortáveis e em um ambiente mais acolhedor, tomando café. Essa situação de conforto melhorou a nossa experiência. Foi então que decidimos encher o museu de sofás!”[2]

Então, como seriam os museus cheios de sofás? E se pudéssemos entrar no museu de arte e respirar mais profundamente? mais leve, mais pesado, relaxar no chão e experimentar novos equilíbrios a partir de obras que nos causam instabilidade? Dar suspiros altos e em bom som. Ser afetados. E se pudéssemos compartilhar nossas experiências com os outros visitantes: abraçando-os, encostando a cabeça em seus ombros para nos consolar de algumas fortes emoções que lá sentimos?

Imagine melhorar o seu corpo visitando um museu. Experimentar sensações corporais novas, copiar poses, alongar na exposição como numa aula de dança ou ioga.

III

Dançando no Museu de Arte

Experimentamos, em 2016, no Museu Universitário de Arte- MUnA, localizado em Uberlândia – MG, sem culpa, ficar de costas para as obras. E também, por vezes, ficamos de ponta cabeça para ver uma instalação.  Experimentamos toda a tridimensionalidade do espaço, das obras, em  nosso corpo, enxergamos de costas, sentimos com o corpo integrado.

Eu e Patricia Chavarelli, que é professora de Dança da Universidade Federal de Uberlândia, organizamos uma visita assim: onde além de pensar, os visitantes puderam dançar, deitar e experimentar movimentações a partir das obras[3] que viam/sentiam. O MUnA ficou bem mais atraente para um grupo de jovens que (em sua maioria) o visitavam pela primeira vez. Eu não precisei fazer um questionário de avaliação para constatar a eficiência da proposta: pude ver em suas caras e calor, que após 3 horas no Museu, havia acontecido uma “experiência”.

As experiências estéticas envolvem dimensões subjetivas e objetivas de um corpo que é vivo, que age, sente, tem carne e osso e é ao mesmo tempo singular e inseparável do ambiente circundante. A experiência de ler trabalhos de artes visuais, não é somente uma experiencia ótica ou mental, mas depende de todo corpo(soma). A Somaestética (um arcabouço teórico que se dedica ao estudo crítico de cultivo deste corpo/soma, visando o aperfeiçoamento deste tanto para a vida quanto para a arte), tanto pode melhorar as experiências com a arte, como anuncia que as experiências estéticas que se centram em nosso soma podem também ocorrer em contextos não artísticos. Uma respiração profunda, a descoberta de uma nova postura ou a consciência de uma parte de nosso corpo podem nos prover sensações de intensa beleza e/ou de natureza estética. Muitas vezes, a consciência interna do nosso corpo, através da propriocepção[4] nos fornece também imensos prazeres estéticos.

O Museu é um lugar propício para afetar nosso soma esteticamente, ele não combina com corpos anestesiados .

 …

[1] O educativo do MOMA assume a influência de Dewey em suas ações de mediação/educação. O curso “Art & Activity: Interactive Strategies for Engaging with Art” mostra muitas formas de medestá disponível na plataforma de ensino à distancia Coursera.

[2] Eu reproduzi quase que ficcionalmente este relato, uma vez que escutei o mesmo em um curso há mais de 3 anos, durante conferência do ICOM.

[3] Fizemos este trabalho na exposição Anômade da artista Claudia França

[4] Como uma espécie de inteligência cinestésica, este termo nomeia a capacidade de reconhecer sem utilizar a visão:  a localização espacial do corpo, sua posição e orientação, a força exercida pelos músculos e a posição de cada parte do corpo em relação às demais.

Luciana Arslan

Luciana Arslan

Trabalha na Universidade Federal de Uberlândia - UFU, onde é professora do IARTE. É autora de livros publicados pela Editora Moderna e Thomson Learning. Formada em Artes Visuais, fez mestrado na UNESP, doutorado na USP e realizou estágio de pesquisa pós-doutoral no Center for Body, Mind and Culture na Florida Atlantic University com bolsa da CAPES. Tem concentrado seus estudos na área da Somaestética.

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