Delírio

Acordei do que eu poderia chamar de uma noite dormida sobre o vulto da capa da insônia. Eu estivera com meus olhos fechados, mas sentia um cansaço tremendo, uma fatiga ansiante que clamava por socorro. Por Deus, que dor de cabeça! Eu não consigo achar meus analgésicos em nenhuma gaveta da escrivaninha do meu quarto. E já é preciso trocar essa escrivaninha, anos de uso e nenhuma manutenção. É, a madeira já fora carcomida pelo tempo e eu nem mesmo percebera. Oh, cristo, e minha mente já deveria ter sido devorada há tempos por essa dor que sinto. Náusea, uma grande náusea também embrulhava meu estômago de uma maneira nunca antes sentida. O tempo come nossos corpos como porções de aperitivos, e degustam com seus vinhos satirizando com seus risos obtusos nossas condições de vida pérfidas. Se um dia eu me tornar santo, eu quero ser daqueles que ficam nas cômodas das senhorinhas que oram por namorados. Sim, dessas mesmo. Assim eu posso vê-las se despirem sem o menor pudor e sem o menor olhar libidinoso. Seria santificada minha luxúria.

O café já tinha um aroma seco e um gosto amargo e gelado. Não me lembrava de ter feito aquele café com antecedência na noite passada. Oh, essas doridades nossas! Queria tanto voltar a ser jovem! Já não consigo sequer me lembrar das minúcias que realizo nos dias anteriores. Nos dois primeiros goles de café eu percebi meu estômago amarrar e soltei a xícara no mesmo instante. Não, não! Onde estou agora? Parecia uma transformação de súbito instante, em que um calafrio misterioso tomara-me até as entranhas de minhas espinhas. Porque eu estava agora cercado de rostos que eu não conseguia visualizar com clareza. Era escuro? Como era! Arrê, esse zumbido que bate com seu zim-zim em meus ouvidos ensurdece até minha alma. A esquina escura tinha apenas o silêncio da madrugada com seu frio ar. Ai, onde estou? Onde estou? Mas minha garganta não conseguia gritar, porque eu tinha algo como uma mão apertando meu pescoço para impedir-me de dizer qualquer palavrização naquele momento. E algo gelado começou a escorrer sobre meu colo. Foi então que percebi. Cristo, a xícara de porcelana quebrara em cacos indecifráveis como o momento que passei. E eu estava estirado sobre aquele café de sei lá quantas horas. Como pude deixar os analgésicos acabarem?! Essa dor está me matando até com delírios.

Peguei a valise que deixava sempre na mesa da frente. Sorte que isso estivera como sempre foi. Tem momentos em que as mudanças não podem atracar vorazmente em nossas vidas. Atrapalha nosso jeitinho de ser humano. Vesti-me com meu terno e calça e logo corri para ir ao escritório. Nem fiz questão de pegar o relógio, essa dor matava-me a cada segundo e não queria mais um tick-tick dos ponteirinhos no pulso medindo quantos segundos faltam para terminar o tempo de uma ação e começar a outra. Como estou faminto! Mesmo nessa náusea inexplicável, de como se eu tivesse sido ébrio desde que nasci, o cheiro de uma barraquinha de cachorro-quente apetitava meu paladar. Mas o tempo já fora muito perdido naquela cozinha estranha, que às vezes até penso se estivera em minha casa todo aquele tempo. Posso comer mais tarde, num intervalo, ou qualquer hora que eu quisesse com alguma desculpa maquinada. Afinal, eu sou advogado, oras! Somos pagos para inventar essas verdades, para fazermos as pessoas acreditarem naquilo que elas querem crer que seja a realidade. Somos como messias, com o perdão dessa palavreada minha, dessa mistura vocabular do religioso com o laboral. E tem diferença? Tão tênue, tão perto!

A porta do elevador se abriu e eu adentrei aquela caixa coberta na penumbra, já que algumas luzes falhavam. Êixa, essa dor que dói, essa perseguição! Como minha cabeça pesa! E naquele instante eu mais uma vez estivera no caminho errado, porque a nebulosa ofuscante das luzes do elevador era na verdade a neblina da madrugada. Eu senti aquele frio novamente. Eu não estava mais lá. Na verdade, até agora eu não sei se estou cá ou aqui. Nem sei mais onde estou. Tinha mais duas ou três pessoas, ainda não conseguia identificar. Mas eu sentia o vento venteando o clima preocupador. Eu sentia um quê de mistério sério. Eu sentia o que sentia porque simplesmente sentia, nada mais. Eu não estava ébrio, tenho a plena certeza que não bebera na noite passada. Então, onde eu estivera? Eram como fragmentos de um quebra-cabeça desconexo. Minha insônia, eu estivera o tempo todo deitado em minha cama. Mas naquelas imagens eu me via como em primeira pessoa, como presente na cena. E aquilo me cansava, a dor ainda beliscava meus nervos como beliscamos as crianças por punição. Eu nunca pensei em ser pai. Nunca pensei em ter tempo para filhos e essas outras minúcias da vida, que acontecem de surpresa ou não. Eu tinha tanta náusea que eu não queria pensar em nada. Apenas em ser um pássaro para voar dessa existência e pairar noutros mundos onde pudéssemos viver longe da sombra da preocupação. E as vozes ecoavam agora, ficando um pouco mais claras. —“Vamos, já está feito.”—. Que diabos está feito? Eu olhei para as minhas mãos e estavam agora cobertas de sangue, cobertas de algo assustadoramente inexplicável. De onde viera esse sangue? Santo cristo, como dói minha cabeça! Eu vou encerrar minha existência aqui mesmo, nesse instante, não aguento mais isso. E um barulho veio, um som daqueles estilos plim, de quando sua comida no micro-ondas está pronta. —“Senhor, está tudo bem?”—. Olhei ao redor e eu estava naquele maldito elevador do escritório, suando tão frio quanto um cadáver inexplicável que estivera em minhas mãos poucos segundos atrás. —“ Tem um analgésico?”—. Eu nem quis saber quem era ele. —“Não, não tenho.”—. Por deus, então não está nada bem! —“Certo, tudo bem.”—. O homem me ajudou a levantar e saiu dando uns tapinhas em minhas costas, como se deduzisse o que me fizera naquele estado. Agora alguns naquele escritório pensariam que eu gastava meus honorários em noites nos bordéis, com drogas, bebidas e qualquer outra coisa imaginável.

Eu sentei em minha mesa e decidi não pensar em mais nada. Se eu esvaziasse minha mente, talvez aquela dor fosse embora. Mas os atos, o que fizemos, isso não pode ser esvaziado. Permeava mesmo uma dúvida sobre o que eu poderia ter feito. Era um delírio, um delírio real. A realidade tanto pode ser manipulada como nossos delírios e fosse esse um momento imaginante ou uma rememória. Só que, antes de tudo, um delírio. Tentei abrir minha valise, mas a combinação não procedia. Oh céus, essa agora! Já não bastava eu estar entrando num transe psicótico desde que eu acordara. Esquecer a própria combinação do que mais usava no trabalho. Eu percebera Alice com os olhos fustigantes sobre a maleta, com uma surpresa alucinante em seus olhares sobre minha presença ali, naquele momento. —“O bilhete, Alberto, o bilhete.”—. Bilhete? Aquilo já estava passando dos limites. Além da mente, além da vida estar usando-me como seu brinquedo, com suas atitudes masoquistas de querer-me ver confuso, venho agora a contemplar até meus colegas de trabalho com posições ocultas, diálogos tão circulares quanto redemoinhos de incógnitas. Pois era assim que eu me via, tragado num mar cheio de redemoinhos de incógnitas, pronto para afogar-me no indefinido. Abri uma rasura de papel pregada em minha mesa.

“No mistério do sem fim

equilibra-se um planeta.

E no planeta um jardim,

e no jardim um canteiro;

no canteiro uma violeta,

e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,

a asa de uma borboleta.

Essa graça era tão poética que eu pouco conseguira senti-la. Minha condição, minha incógnita daquele dia só me fazia ter calafrios, ainda mais com um bilhete tão estranho como aquele. Uma mensagem sem quase nenhum significado. Porque não poupava esse trovadorismo para que eu entendesse logo em linhas retas? Não! Algo ainda mais sombrio estava me esperando por aquelas horas, tão nefasto que precisava ser dito em poesia para ofuscar maiores alardes. Eu podia ouvir o ranger de meu estômago clamando por comida. Meus olhos alcançavam o outro lado da rua e eu só conseguia ter olhos para aquela barraquinha de cachorro-quente, presumindo até que seu vendedor me vira e estivera instigando-me para ir até lá. Logo atrás dele tinha uma praça. Olhei Alice para tentar achar alguma resposta em sua profundeza de estar ali, mas eu só fiquei numa superfície rasa, com mais perguntas do que respostas. Ela olhou até a praça e fez sinal afirmativo com a cabeça. Ai, ai, como dói. Como dói minha cabeça! Eu abri a gaveta da minha mesa procurando algum analgésico. Encontrei um frasco de comprimidos calmantes quase vazios. Eu tomava aquele tipo de remédio? Havia séculos que eu não pegava uma prescrição medicamentosa do meu psiquiatra. Tudo estava numa normalidade habitual. Não! Não! Algo vem tocando a campainha da lembrança. Eu pedi semana passada! Eu reclamei que eu estivera um pouco depressivo com causas perdidas, e sinto agora que não foi nada mais que uma desculpa para se esconder. Era fático, meu medo estava dominando até minha dor e a qualquer minuto eu vomitaria minhas entranhas em clemência para poder conseguir minhas respostas. —“Você realmente não se lembra, não é?”—. Sim Alice, eu posso me lembrar de tudo, posso tomar nota até dos detalhes menos óbvios.  É claro que eu não lembrava, e minha vontade era agredi-la naquele momento para que despejasse sobre a mesa tudo que eu precisasse saber para terminar com minha irresoluta dúvida. —“Eduardo não veio trabalhar hoje?”—. Ela postou sua cabeça ao longe, suspirando de uma forma como se fosse óbvia a resposta. As coisas começaram a tomar certo sentido. As coisas começaram a se juntar em seu quebra-cabeça. —“Você tem analgésicos?”—. Ela balançou negativamente sua cabeça. Eu levantei e desci até o hall do edifício, onde tinha um pequeno bar. Meu lorde, como minha cabeça dói. Eu podia apenas sentir a dor pulsante em minhas veias sendo levada em minha corrente sanguínea e dando choques em todos os meus órgãos.

Eu vi um homem sentado num dos banquinhos do bar. Aquela face não me era deveras estranha. Aquela face era como uma das chaves de resposta que eu buscava. Andei até o homem e sentei num banco ao seu lado. Aquela súbita ânsia misturada no frenesi de dor voltou e eu senti que estava respirando aquele ar gélido da madrugada outra vez. Mas o bar, era aquele mesmo bar onde eu estava. O homem, era aquele mesmo homem que estava sentado ao meu lado. Só que outras pessoas rodeavam noutros bancos. E eu pude reconhecer Alice. Por Deus, aquilo agora estava tão claro que eu não conseguia distinguir mais onde terminava meu delírio e começava a realidade. —“Nós vamos roubar a maleta assim que ela for entregue.”—. E quando escutei aquela palavra senti uma ansiedade de poder gritar a maleta já está aqui! Mas ainda continuava com a garganta abafada, pressionada. E eu só estava em meu corpo presente como telespectador. —“Temos que ser rápido, pois esse dinheiro é para livrar o delegado Cássio do envolvimento com o cartel de drogas da fronteira.”—. É isso! É isso! Eduardo era o advogado encarregado do caso. Cristo, como não percebi isso antes! —“E quanto ao assassinato, tudo em conformidade?”—. E dessa vez foi uma pergunta direta para mim. E eu respondera que sim, tirei o frasco de calmantes comprado com a receita do psiquiatra. Isso, era um delírio o que tive! Mas um delírio da realidade, porque o sangue era tão real quanto minha condição de estar drogado para cometer aquele crime. E meu sangue pulsava frio, minhas veias dilatavam. Quanta dor de cabeça! Só podia ter sido efeito colateral da alta dose que eu tomara. Eu queria poder completar sem erros aquela missão e necessitava de alcaloides para despertar o psicopata interno. Eu podia matar sobriamente, mas a vida tem seus momentos de lucidez feita ebriamente. Sim, eu queria anuir com tudo aquilo, mesmo que certas ações fossem contra meus princípios. Aliás, outro fator, é que se me pegassem no ato, era mais uma alegação para a corte pensar na condenação. Sim, aquilo fora feito nos miúdos para dar certo. Em cima do balcão tinha um panfleto de divulgação do sarau literário que teria no Teatro Municipal dali alguns dias. E seu anúncio vinha em forma de poesia, vinha num convite para suscitar o mistério e lhe intrigar a visita. —“Essa vai ser a mensagem, o que lhe fará lembrar o que tem que fazer no dia seguinte.”—. Tão banal a situação, tão… (reticências para a falta de expressão para minha perplexidade com a descoberta). Foi isso que Alice disse. E eu já disse de uma vez que não haveria erros. Levantei e deixei meu copo de whisky sobre o balcão. —“Só cuidado com as borboletas. Existe sempre um perigo entre o planeta e o sem-fim…”—. Assim o homem que estava sentado ao me lado disse e acenou com o chapéu em minha despedida. Só estávamos nós dois agora e toda aquela agitação da ‘hora do rush’ no hall com seu bar. Eu sorri, para mostrar cumplicidade e entendimento da situação. —“Você tem algum analgésico?”—. Foi o que falei antes de partir. E a mesma cena do escritório se repetiu. Tenho ódio, porque esta dor está fatigando meus passos já.

Passei logo ao lado da barraquinha de cachorro-quente. Por ímpeto da curiosidade de buscar o grand finale eu não parei. Ah, mas essa fome já fazia parte do meu ser agora. E eu buscava tomá-la como animal de estimação. Segui direto para a praça e logo notei que em seu centro um canteiro com violetas. Aquelas violetas combinariam com as plantas da sacada de minha vó. Fazia tanto tempo que eu não visitara minha avó. Os anos passam e nós acabamos que vemos a vida apenas passar. Essa corrente vai nos levando sem pedir permissão. E tão triste é você acabar definhando sem realizar aquilo que sonhou, aquilo pelo que deu o simples nome de ‘razão de viver’. Abaixei-me e vi que dentro daquele jardim de violetas tinha um embrulho de papel, outro bilhete:

4-2-0-7-6-1

Era uma sequência numérica. Olhei para a maleta e abri de forma escondida. Ouvi o trinco. Assim que abri, vi com meus olhos tanto dinheiro que eu jamais veria se apenas vivesse para trabalhar e vagasse mais duas vidas como aquela por esse planeta. Eu agora entendia que apenas fui ladrão como no ditado popular, roubando outro do mesmo. Mas quem se importa agora com moralidades! Oh céus, como dói minha cabeça! No outro lado da praça havia um carro parado que logo fez sinal para eu entrar. Presumi que ali seria o começo da minha rota de fuga. Não, antes eu tinha que matar essa dor e decidi apenas desviar-me dois segundos para buscar aquele cachorro-quente que estivera desde a manhã me chamando. O vendedor era como aqueles gordinhos simpáticos dos filmes italianos, dos vendedores da década de 20 ou 30. E logo serviu-me um bem grande. —“Você tem algum analgésico?”—. Os olhos dele fecharam-se com um singelo sorriso e ouvi um enorme sim. Por deus, finalmente vou matar essa dor! Ele se abaixou para pegar e quando levantou a única coisa que eu pude ouvir foi o barulho de uma pistola com sua bala entrando pela minha cabeça. Ao menos minha dor passou, mas fui junto por não ter tido cuidado com as asas de borboleta que ficam entre o planeta e o sem-fim.

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

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