A derradeira causa

INTERESSANTE COMO A FELICIDADE, para a constância que quer denotar, tem várias acepções na vida e nisso contém sua relatividade… O que é ser feliz? É um estado de graça, que como todo estado do ser passa. E talvez sem essa transitoriedade ela mesma não fosse possível, o homem vive nos liames dos deslimites.

         Estava bastante pensativo naquele dia…, filosofando como um “bode velho” como dizia a Dindinha, mas ora: filosofando! E tinha passado o curso de Direito inteiro metido com o boxe e outros esportes que realçavam sua pretensa masculinidade, achando que tudo o que se ensinava na Casa de Tobias Barreto não passava de asneiras duns velhos filósofos bêbados, os tais “bodes velhos”.

         Agora ali, sozinho em seu imenso apartamento da Zona Sul, ele com aquilo que sempre passara a vida: seu eu – agora em estado de bode velho.

         Tinha sido um ótimo advogado daqueles que não veem clientes, mas cifras em sua frente e que, não obstante, conseguem demonstrar uma preocupação inefável com o sofrimento humano, com o que chamam não raras vezes de “condição humana”, numa tentativa de eloquência arendtiana… Era um retórico dos melhores e isso foi a única coisa filosófica que tirou do curso de Direito, o restante era a técnica suficiente que lhe traria os louros, ou melhor, os reais e dólares americanos.

         “O advogado de mil causas”, eis a alcunha que ganhara dos colegas no primeiro ano de advocacia no Recife. Era mesmo o dono do jogo, sabia bem como se mexer nos tabuleiros de xadrez da Justiça, era um simples “cavalo” recém-chegado ao jogo, mas já sabia por em xeque o “rei” e matar uns milhares de “piões”.

         E tudo aquilo lhe satisfazia imensamente – a vida como a busca da satisfação pessoal. O mundo outro. O mundo como a eterna busca do postiço…, dos bens, das glórias, do dinheiro – do mundo a mola mestra. O mundo novo como a busca da solidão própria de cada um. Ora, mas que solidão?! Era uma época em que se davam festas gigantescas no Cabanga Iate Clube, e nos melhores Pubs e casas de festas de Recife.

         E ele vivia sempre com uma dose a mais de ar nos peitos, num estufamento glorioso. Já no primeiro ano após a Faculdade não se lembrava mais de quem tinha sido, tal foi o modo como assumiu o novo papel no seio social. Era feliz, segundo dizia. Muito feliz…

         Deu um mixoxo enorme de canto de boca. À sua frente o apartamento num brinco insuportável, tudo milimetricamente organizado como sempre fora. Os retratos enormes de molduras de prata na parede retratando suas faces de boxe, de hipismo, de esquie, seu estupendo rosto de atleta grego, seus músculos que ainda reluziam por baixo dos ternos…

Olhava tudo aquilo com um ar desolador, havia prometido a si mesmo que não ficaria lembrando, lembrando, lembrando, mas o que fazer? Seu tempo bom tinha sido, não mais era.

         O Felipe… Ah, Felipe seu imbecil! Como ele tinha rido do Felipe… Ele, impávido colosso e o Felipe? Bem, o Felipe um simples estudante de merda…, preocupado com casamento ainda na Faculdade, ora! Um tolo! Ainda foi lhe convidar pro tal casamento! Mas pode? Caçou o e-mail do crápula no Google Groups, achou, mandou um texto curto e grosso: “não frequento pequenas festas. De todo modo, obrigado por seu interesse”. E riu, riu, riu mortalmente!

         Felipe agora advogado de menor envergadura que ele, militante, mas não rico, tão velho quanto, mas vivendo, segundo dizem, feliz com aquela mesma namorada da Faculdade, viajando todo ano à Toscana onde (dizem) tem casa, vivendo um mar de flores amorosas… Sim, sua esposa estava velha, ele estava velho, todos estavam velhos agora. Mas eles eram realmente felizes.

         Aquele “realmente” lhe inundou a mente. Ah, Felipe, seu…

         A verdade é que se sentia falido. Sentia-se falido desde o início, afinal, porque cargas d’água o pai e a mãe haviam pensado tanto em trabalho, em dinheiro, em poder? Graças aos dois ele era só, filho único, cheio dos mimos e solitário. Por que ele mesmo tivera a mesma doença dos pais, o mesmo pensamento idiota, riqueza, poder, influência, e, ora, ora vejam só, ele ali sozinho aos sessenta anos sem mulher, sem filhos, sem netos nem bisnetos, sem qualquer pessoa a quem referenciar a vida…

         Pensar que a Roxane…

Roxane foi a única mulher que teve por mais de uma noite. Estava bêbado e drogado, lembra que tinha tomado de tudo, fumado maconha, quase sido preso na Rua da Moeda e tinha ido parar num bar de quinta categoria na Rua 1º de Março. Seu possante estacionado sabe-se lá onde. Desmoronara na cadeira de ferro amarela cor de gema, Roxane estava servindo. Era uma morena de se perder os olhos, a vida, o dinheiro, tudo. Ele ainda que alucinado reconheceu em Roxane um dom, o dom da gazela jovem.

         Não sabe como até hoje, fato é que saíram, foram pro apartamento dele. Roxane, claro, enlouquecera com aquele mar de riqueza, e tinha se prometido ser a melhor das mulheres, a mais gentil, a mais afável, inclusive de esquecer as eventuais brigas, e os possíveis bate-bocas, conquistaria aquele homem. Não que ela fosse interesseira ou “piranha”, como se diz, mas que Roxane passava fome várias vezes por mês, recebendo um salário mínimo miserável, aquela era a chance de ser o que não era, de comer bem, de dormir tranquila, de não precisar vender o trabalho por um prato de sopa.

         Transaram por toda a noite loucamente como dois cães no eterno gozo e ao adormecerem, em alta madrugada, acordaram apenas às 13h da tarde, dia seguinte.

         – Querido, estou atrapalhando… Você tem trabalho, não tem?

         – Ah, minha querida, trabalho melhor tenho aqui com você, deixe que o escritório se vire sem mim…

         E aquele foi um dia e outra noite de loucuras.

         Roxane, contudo, durou até o dia em que ele se enjoou de pronunciar seu nome, e a expulsou de casa gritando, esbaforido e com cara de nojo: “que nome horroroso! Saia daqui!”.

         Um nome… Uma felicidade possível jogada fora por um nome. Pensava, agora.

Não se recorda de ter perdido uma causa. As causas que perdeu, perdeu porque não era advogado principal dos autos. Foi assim que cresceu, cresceu, tornou-se sócio, depois majoritário, depois único dono, quando repartiu ao meio o tal escritório. Era o infalível. Calamandrei e seus conselhos não eram nada diante dele. Um mito.

         E tinha um tosco orgulho de tudo isso, um orgulho como quase tudo hoje em dia: postiço.

         Mas ali, em sua cobertura na Avenida Boa Viagem, velho – “bode velho” como dizia a avó Dindinha daqueles filósofos de Coimbra onde ela tinha se formado –, sentia-se falido.

         Faria como boa parte desses artistas famosos faz na vida quando morre: doação de toda sua fortuna para uma instituição de caridade e estaria em paz com deus e os homens. E isso, malgrado fosse algo belíssimo pra quem estivesse de fora de sua existência, era para ele só agora a prova de sua falência, de que falira, de que perdera a derradeira causa: a de ser realmente feliz.

Mário Filipe Cavalcanti

Graduado em Direito pela Ufpe, advogado, escritor, autor dos livros de contos Comédia de enganos (Penalux, 2013) – Semifinalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014 – e O circo (EdUfpe, 2015), colunista das revistas Samizdat e Página Cultural e colaborador do site Homo Literatus, já saiu pelas revistas Flaubert e 7faces. Leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e também absolutamente nada. Conheça o Blog .

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