Destinos Cruzados

Demosiele pensara no significado do que é ser livre e de que forma a liberdade é exercida pelos homens. O corpo é o domicílio encarcerador das possibilidades do ser. Fatigado de uma época embelezada pela aparência, Demoselie ausentava-se dos círculos sociais daquela aristocracia do século XIX que de nada entendia desse tedium vitae para exercer sua própria faculdade e que de melhor tinha: a arte de ser livre. Vôos longínquos, albergadores de um tempo que apesar de lhe pertencer não era onde os olhos repousavam…

─ Augusto, está me ouvindo? Já chegamos na casa de campo. Quando você abre essa caderneta de anotações parece que está num século diferente do que estamos. Todos estão na saleta de recepção. Apronte suas malas que o caseiro virá buscar.

Aquela caderneta poderia mesmo ser a porta de entrada para novos mundos ou séculos passados. Era um retrato do coração de um autor. Augusto entretinha-se a cada intervalo com as ideias da construção de seu próximo livro, suas conversas eram menos tediosas entre ele e o francês despravatado que construía em Demosiele do que com qualquer outro que ficaria naquela semana. Personagear uma propsopopeia para suas feições íntimas com o que lhe redomava era especialidade sua, e tinha agora que ser um linceador de todos os sentidos para apanhar a mais aguda essência dos miúdos do dia-a-dia para entrelaçar sua narrativa. Odiava as idas naquela Fazenda secular em que seus avós viviam museados da realidade, em que apenas o passado corporificava as glórias da humanidade. Quiçá fosse desesperador estar diante de um seio social a que não lhe representava. Talvez fosse assim que Augusto sentia-se nessas idas obrigatórias. Pergunto-lhe: há maior mal para um ser humano que a desesperadora angústia de não ter um lugar definido onde se encontra? Minhas reminiscências concordam sobre esse mote prospecto. ─ “Oh Augusto, quanto tempo, você cresceu tanto! Quantos anos já faz que não nos vemos? Cinco ou dez, não me recordo agora.” ─ . Uma breve resposta de ‘cinco, no último Natal na casa de tia Dolores’ foi o que respondera para aquela tia-avó de seus oitenta e tantos anos, perco-me nesses detalhes específicos. Aquele semblante apático iria predominar por toda a estadia, com um clima lá fora de um sol agradabilíssimo para jogar um Polo ou cavalgar por detrás das colinas, mas que o claustro de embriagar-se com uma interna reflexão parecia mais interessante que qualquer coisa vinda daquele lugar.

O mogno da mesa de jantar que ficava ao centro da sala brilhava pelas constantes lustragens dos serviçais da fazenda. O velho Von Leopoldo tinha manias de enxergar a antiga Floresta Negra dos povos bálticos e germânicos nas cores daquele mogno e discursava durante longas horas sobre os costumes depravados da nova era e a belle epoque das virtudes decimonônicas que jamais retornam. Homens que embebedavam do vazio e figuravam cenas de um universo avesso, distante do que importava. Os pesadelos podem perdurar por uma eternidade inteira sem que tenhamos conta de que nossos agouros perseguem-nos diuturnamente. Uma solidão e ódio miscuem-se de tal forma que do ponto em que se dorme para sonhar e da hora em que se acorda esperando ver a realidade, há confusões e delírios que permitem mútuas confusões.  Assim o velho Leopoldo delongou por mais de uma hora dos heroicos feitos daquela última guerra, e como todo santo ano mostrava as medalhas e títulos de honra, e vozeava ditos de sermões para os mais caçulas sobre a responsabilidade de ser ético no caminho para a fortuna. Quando o discurso climaxeava nesse ponto, tornava-se dificultoso não gargalhar, principalmente para Augusto, que percebia a superfície deserta em que aqueles seres viviam, de um diálogo antiético a querer falar de ética e de homens e mulheres que exaltavam uma erudição inútil e afazeres desnecessários pelos quais vangloriavam.

  “Charles – Demosiele acentuava em tom de pergunta – o que te faz todos os dias ser o que é?”   O ar sereno do britânico grunhou duas ou três frases, até que terminou decepcionado por não saber responder. E também não se importava com a resposta. Sabia que a mais ou a menos, os dias passando, as coisas continuariam em seu estado para ele, e tendo a existência a parcimônia de não incomodá-lo, que importaria o resto? Assim Demosiele expressava incredulidade pelo tempo em que vivia. Não atribuía significado e espaço para frequentar os templos da aristocracia francesa daquela época. E distinguia-se em ser um dos poucos que queria entender esse movimento do Tiers Etat ou as vozes de Baudelaire, ou ainda uma virtude para além da noção hermética de filosofias construídas pela ideologia da paixão na riqueza. Mas eram apenas uma de suas faces. “Charles, eu me movo pelo indefinido e pela compreensão do ser humano como humano, de um tempo em que o absoluto não será a verdade e as Ciências não irão se preocupar com teoremas, mas pelos temas. Charles, esse mundo poderá ser o do próximo século, quem sabe o XX ou XXI. E nesse dia veremos homens que esperam a completude em muito além de completar-se com o que o cotidiano lhe oferece.”   De poucas vezes que ele viu seu amigo rir, aquela era uma delas, eis que os britânicos possuem um frio senso de humor. “ Oh Demosiele, não seja tolo! Ao nascerem os homens contentam-se em banhar nos riachos; a mocidade lhes desperta para os grandes lagos. Mas nunca suficiente. Quando ele percebe a imensidão do mundo sem perceber seu pequenino tamanho, vai querer um oceano. E então vai se afogar.” .

         Vergado em suas anotações, não percebeu o desdém e desgosto de alguns olhares, com certos comentários linchosos por sua condição videira de aventurado através das palavras e sensações. Uma juventude transviada acentuava seu avô, e alguns tios tinham íntimas suspeitas de que era um galanteador e aproveitador das oportunidades, um falsário de espírito idealista. Mas não se deixem enganar por essas aparências. Esses que aqui leem precisamente entendem uma gota da ácida crítica em que se personificava através de Demosiele. Somente no fundo da mesa ouve um suspiro de admiração e interesse de uma jovem, e que passava despercebida pela sua simplicidade de gestos e postura refinada, uma compostura elegante, porém não subversiva. Mas Augusto ainda não estava em íntima situação de se confortar para quietar seus olhos em um horizonte. Esperava o momento em que os demônios saíssem para as caçadas e deixasse a toca como âmago e refúgio para livrimaginar. Extasiado de alguns assuntos sobre a decadência econômica e o ódio político sem fundamento, preferiu levantar-se antes que alguém ousasse ver as anotações de seu caderno intimista e foi para a varanda frescar-se de corpo e alma.

─ “Imaginei que estivesse debochando de seu avô, mas o que veio a mente foi que suas anotações talvez possam servir de filosofia para consolar-se na solidão.” ─ . Certamente que rir não era a melhor forma de iniciar uma conversa com uma estranha, mas o momento era até impropício. Tinha um belo nome, assim pensou, porque conhecera poucas (provavelmente a única) Liliane. Aquela moça seguira-o logo depois que se levantou; nunca estivera nas reuniões familiares, era amiga de um primo não sei de segundo ou terceiro grau que nunca tivera um contato maior. Os graus enumeram as distâncias entre o que ser e sentir. Mas o grau dele fosse mesmo um grau de parentesco perdido, procurando um lugar no submundo das ruelas imaginárias, da solidão noturna, das lacônicas esquinas sonhadoras. Os dias e noites possuem consciências distintas, e sabia muito bem decifrar melhor a consciência do escondido do que aquilo que nossos olhos podem enxergar. Liliane interessou-se em ouvir isso. Havia certa misticidade ou uma aura espiritual diferente naquela garota. Preferia aguardar alguns dias a mais para descobrir, eis que, aliás, o que lhe restava fazer naqueles dias corridos era apenas a observação. Alguns sussurros vinham da cozinha. ─ “Espera, vem comigo aqui”. ─ . As vozes volumavam-se em baixezas, como se as miudezas sonoras pudessem ocultar uma trama maior. Da fresta da porta entre a varanda e a cozinha, Augusto pôde observar seus dois tios Hernández e Luíz balbuciando códigos abafados. Estranhou a situação e quando os interlocutores deram conta de que estavam sendo observados, terminaram a conversa para assentarem-se outra vez em seus lugares. ─ Ai Augusto, talvez você imagine coisas demais por ter essa verve criativa. Aquieta-se.” . E foi o que respondera a jovem mística antes de fundir-se ao infinito da escuridão do corredor afeiçoando-se com o mesmo sentimento atormentador que implicava nessa querência com misto de prazer a dúvida sobre querer saber mais sobre ela.

Esqueci de dizer que no jantar mais cedo, Augusto tivera percebido alguns olhares estranhos entre seus dois tios e o avô. Não era algo excepcionalmente incomum as estranhezas entre ambos, que vertiam para ideais diferentes sobre o capital. Mas o clima daquela noite era uma sombra noir. Havia um mistério crescendo a ponto de chamar os corvos e abutres para já organizarem uma roda de seus bandos no entorno de lá: a qualquer hora haveria expostas as carcaças do segmento putrefato. Uma consciência adequadamente sherlockiana fervilhava em suas sugestões. Mas precisava de maiores pistas. Os detalhes poderiam estar aparentes, mas os olhos ainda eram incrédulos. Quando a noite fosse despida de sua inocência, Augusto poderia ver os pecados nos corações de cada homem. Só assim saberia dizer qual era a causa daquela sensação atormentadora. Assim se escrivaninhou por um breve instante.

A senhorita Laffayete aceitou tomar um café com o recém desconhecido num bistrô das ruelas de Paris. A situação um tanto quanto estranha não importava para aqueles dois no momento. Cercava-lhes o espírito descobridor da juventude, aquela eterna observação do proibido.

         “Perdoe esse meu inconveniente. Mas depois de nossa inusitada situação no salão de reuniões de dias passados, precisava retribuí-la por ter me tirado daquela medonha confusão. Sabe como são os aristocratas: mesquinhos e insuportavelmente cretinos com suas medíocres opiniões”   .

           “Oh monsieur Demosiele, não seja por tanto! Eu não tive essa impressão de vossa senhoria. Na verdade fora bem o oposto e percebi que a discussão primeiramente enviesada pelo político tomou proporções do ódio sem fundamento. São tempos difíceis esse. Não há mais gente com quem se possa falar de Goethe sem que lhe julguem como um anti-nacional.” .

         Demosiele pontuava algumas características díspares daquela cocote que, apesar de parecer ser uma a mais das boutiques e floristas que passam o dia nas alfaiatarias e perfumarias, a senhorita Laffayete parecia esconder um outro alguém dentro de si. Uma persona que não poderia ser vista por ser proibida ou talvez malograda em desacertos. Demosiele, mesmo sendo profícuo observador da realidade que era, não tinha identificado as verdadeiras características daquela mulher. Esse mistério lhe intrigava. Poucas vezes sentira-se atraído tão forte por alguém a ponto de querer conhecer a intimidade. Julgava-se desacertado de seu século, muito além do tempo. Escrevia cartas para um outro ele como se estivesse de um lado lendo Baudelaire, e de outro criticando o próprio fato de ter gostado de Baudelaire. Demosiele era uma contradição personificada em homem e que reunia sua vocação como um filósofo a frente de seu tempo. Naquele momento enquanto observava um alguém mais próximo do que era e pensava, por um breve instante, mesmo sabendo que talvez outras intenções pudessem estar acobertadas por aquela sedução, Demosiele se sentia mais próximo de ser humano.

         ─ “ Ei, ei, ainda acordado também? Ouvi uns rabiscos de caneta e tive certeza de que era você rascunhando algum pensamento.” ─ . Liliane observou Augusto durante alguns minutos antes de interromper a viagem entre o espaço-tempo da ficção e do real dele. Fechara o caderno e guardara em uma mochila sobre a cama. Dera um sorriso como se esperasse que ela já fosse lhe procurar. E o que ele observava? Particularmente, sempre que me deparo com tais tipos de excertos em narrativas, faço uma dedução mental. E dou-lhe uma chance para saber se as opiniões do leitor convergem com a do narrador. Augusto pensara em dois mistérios: primeiro da pessoa que lhe aparecera; segundo dos fatos que talvez tivessem relação com tal pessoa. ─ “Escuta Liliane, eu realmente acho que algo possa estar acontecendo nessa fazenda. Venha comigo para um lugar, sei de onde guardam alguns importantes arquivos aqui.” ─. Ele agarrou a mão da moça e espreitou-se no corredor até o fundo do casarão, rumando direto para um escritório. A porta, ao que lhe parecia trancada, abriu-se facilmente por um truque aprendido na infância com elásticos e um clipe de papel.  Tomou o cuidado para revirar sorrateiramente a papelada das escrivaninha, a fim de que não suspeitassem de sua incursão naquela noite pelo escritório. Pilhas e pilhas dos contratos de arrendamento e alguns excertos exóticos de selos postais da Segunda Guerra que seu avô colecionava. Havia um envelope pardo, iguais aos que estavam todos os contratos. Mas naquele envelope uma borda preta e branca saltava pelas laterais, o que diferenciava a aparência dos demais. O detalhe sendo sutil, era importante. Ali continha inúmeras fotografias. Começou a percorrer os olhares e revirava as fotos freneticamente, porque acentuava-lhe um frenesi de palpitação ao ver os dois tios negociando com o que parecia serem traficantes mexicanos. Um, dois, três, quatro. Pisares tórridos podiam ser ouvidos do corredor. Boquejou um balbúcio de medo, e percebeu o calafrio lhe acometendo. Não haveria tempo de repor os envelopes. Levantou-se da posição curvada em que estava e revirou os olhos para o ambiente procurando onde se esconder. ─ “Aqui, venha cá, já sei onde ir”. ─ . Liliane apeou-lhe os dedos entrelaçados e se abraçocultaram num armário vazio ao lado da escrivaninha. O velho entrou no escritório e teve uma nítida sapiência de que alguém estivera lá. Dirigiu-se de pronto para a gaveta e vasculhou incansavelmente a papelada. Nervosou ao refinar-se na descoberta do sumiço do envelope de fotos que estava nas mãos de seu neto que se armarinhou para se esconder. A garota esboçou até alguns risinhos pela situação, pois no fim tudo era até um pouco cômico, uma quase tragédia com dois jovens escondidos num armário. Aquele clima descontraído fez-lhe perceber um quê de excitação e calma abraçado daquela garota, o que lhe confortou e fez-lhe esquecer por um breve momento das inferências que estivera fazendo sobre a relação entre dois tios e traficantes. Foi-se um momento único em que deixaram seus corpos se encontrar ali mesmo, e despiram-se do pudor para que pudessem se conhecer da melhor forma possível, em que se troca carne com carne, prazer com prazer. Mas o que lhe surpreendera é que teve um breve lapso de branco de memória e noutro dia acordou em sua cama, vestido e sem o dossiê de fotos que tinha consigo.

“Charles, vou lhe dizer: Laffayete é indubitavelmente uma pessoa maravilhosa. Fico encantado a cada encontro com essa garota. Mas muito me intriga ainda sobre o por que dela ser assim tão fértil comigo em tão pouco tempo. Ás vezes me sinto como usado, outras vezes prefiro apenas gozar do momento despreocupado que possuo.”

         “Demosiele, temo por ti. Nosso coração cega-nos. E volvemos a uma natureza de paixões predadoras. Olha, você viu os boatos? Dizem que invadirão a Bastille dentro de poucos dias. Mas isso ainda é tudo segredo. Você tem posição privilegiada por ser um elo entre aqueles sans cullotes e a nobreza daqui de Versailles. Lembre-se de que muito dessa sua visionária acepção pode se tornar realidade com o tempo próximo que irá nos agraciar. Veja por mim: o que diria o pessoal la da Coroa inglesa se soubesse que existe um inglês apoiando esses ideais de fraternitè. Oh Lord, be generous with my soul! Por isso todo cuidado que tenho é bem longe de ser uma cautela extra, uma precaução de vida.

         O garoto estava deslumbrado, e não queria achar relação entre a conspiração e seu vislumbre. Ah, Demosiele, tão sábio para o corpo social, tão ingênuo para si. Essa falta de distinção sobre a virtude da malícia ainda lhe traria enormes pesares. Se sonho de construir uma República estava pronto para ser sólido, seu coração ainda era uma carícia de infância; pura e simplesmente.

Quando terminou de dar uns goles naquela xícara de café, esquivando-se para seus aposentos por uma desculpa de um reumatismo inventado para que pudesse organizar seus pensamentos com a caderneta, sabia que deveria interrogar Liliane sobre o estranho acontecimento da noite anterior. Não seria preciso buscá-la; ela viria. Sim, ela viria. Pode ainda não ter sido perceptível, mas há de sacarmos que a garota o seguia propositalmente e observava sua rotina como se estivesse fazendo anotações de algum experimento e Augusto fosse sua cobaia. Quando estava no hall de recepção, indo colher alguns morangos silvestres para clarear-se dos fatos, brota-lhe como o fruto silvestre a figura daquela moça. Sem expressar um tom de alegria, encostou-a na parede e levantou sua voz num tom intimidador, mas baixo, o que deixava a sutileza ainda mais agressiva. ─ “Escute, há algo acontecendo aqui. Isso eu tenho certeza. E não há outra forma de me dizer o que está acontecendo se não o que você sabe. Porque sei que esconde algo, não sei se por bem ou mal, mas esconde.” ─. E então as lágrimas escorreram. Muitas lágrimas. E o choro tinha de ser soluçado em silêncio para que não notassem o causo esquisito. O velho Leopoldo observara e cena, e saíra no tom sério de que havia alguma desconfiança entre a relação dos dois com os fatos da noite passada. Sua boca mudeava e sem palavras para dialogar, entregou uma carta tipografada em letra de máquina de escrever, daquelas antigas guardadas em sótãos, que telegramou em letras garrafais:

HOJE DE NOITE. 23H. NO ESTÁBULO. CAVALGADA NOTURNA.

Abraçou-lhe e pediu certo perdão por pressionar a garota de forma tão rude. Dizia ela enquanto caminhavam até seu quarto que achou essa carta na mala de um dos tios de Augusto, o Hernández. Assim, a conclusão mais lógica é de que assassinariam o velho para tomar a propriedade com vista dos negócios escusos. Bingo. A carta, dessa forma, só poderia ter sido tipografada pelo seu tio Luíz, o que explica os olhares e as conversas enigmáticas entre os dois naqueles dois dias, principalmente a cena da cozinha. Algo deveria ser feito. E Augusto pela primeira vez sentia uma empatia por aquele lugar, afinal uma vida poderia estar prestes a ser ceifada. Exatamente às 23h daquela noite, estava no Estábulo, esperando qualquer um dos três aparecerem. Sabia que seu velho tinha hábitos extravagantes, por isso não desconfiou de uma cavalgada noturna. Percebeu que dois cavalos não estavam no estábulo. Será que já haviam partido? Maldição, assim pensou ele. Ou o relógio estava atrasado ou decidiram adiantar o ato de feitor. Os arbustos começaram a se mexer e ouviu um som vindo em sua direção. Correu para se esconder em um dos cochos e empunhou do coldre o .38 que havia pegado na sala de armas da fazenda. Apesar de não ter experiências com tiros e balística, para a ocasião bastava seu senso de perigo natural. Quando percebeu que o vulto crescia e se aproximava, quase pronto para atirar, pranteia alguns gritos por ver que era Liliane.

─ “Santo Deus, você quase me fez ter um ataque cardíaco e lhe matar. Eu lhe falei que seria perigoso e pedi para que não viesse!” ─ .

         ─ “Eu sei, eu sei. Mas eu precisei vir lhe avisar que vi Hernández sair com o velho para cavalgar 22h30min. Procurei o casarão todo para lhe avisar, mas não lhe encontrei. Venha, eu lhe ajudo e vamos nós dois, se corrermos talvez possamos impedir a tragédia.” ─ .

Pôs em cela no cavalo e partiram os dois rumo à pequena mata que cercava a fazenda. A sorte pode ser uma virtude de dois gumes. Os romanos podem ter acertado em dizê-la que era a fortuna uma deusa. Lembrou disso enquanto cavalgava por Liliane estar por detrás, abraçando-lhe. A fortuna, tal qual a ganância, também pode ser traiçoeira e revelar sua verdadeira face quando a oportunidade lhe convém. Enquanto a vida é vista de frente, a morte sempre vem sorrateiramente por trás. Percebeu que a arma não estava mais em seu coldre e já podia senti-la em sua nuca. Tarde para lamentações.

Demosiele viu o fracasso daquela investida na Bastilha da pior forma: jazia agora para seu último sono nos lençóis de seu próprio sangue. Oh Laffayete, eu bem que fui avisado! E o tal ditado das cegueiras de amor contemplaram-se verdadeiros. Demosiele culpou-se, mesmo após a morte, de sua ingenuidade; e quem sabe aquilo tornara-se um karma para suas próximas vidas, caso voltasse no mundo. Com os olhos semicerrados, mesmo estando tremendamente arrependido, terminou sua vida dizendo:   “Trágica Laffayete, aquilo que amei precisou da morte para que eu visse que existo.” ─ .  E assim Augusto também se foi.

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

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