Dias socráticos

Paulo Irineu Barreto (em Atenas – Grécia)

Houve um momento na história do pensamento ocidental em que a existência real do filósofo Sócrates foi colocada em dúvida, principalmente porque a maioria das referências a ele se encontrava nos diálogos platônicos. Alguns chegaram a afirmar que Sócrates nada mais era do que uma espécie de “alter ego” de Platão, um interlocutor que Platão criara para representar as suas próprias ideias. Essa possibilidade, no entanto, já foi descartada, embora, vez ou outra, os estudantes façam esse questionamento em sala de aula.

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Sim. Sócrates existiu de fato! E sabemos disto tanto pelos relatos platônicos, quanto pelo relato de outros contemporâneos do filósofo, nem todos seus simpatizantes, como é o caso de Aristófanes, o comediógrafo que o cita no diálogo “As nuvens”.

As circunstâncias da morte de Sócrates também são amplamente conhecidas e difundidas, mas, mesmo assim, é comum, nas aulas sobre o filósofo, algum aluno perguntar se Sócrates cometeu suicídio. Nada mas errôneo, embora, infelizmente, essa afirmação possa estar em alguns livros “didáticos” de Filosofia. Então, para que não fiquem dúvidas, Sócrates não cometeu suicídio. Ele, na verdade, obedeceu e deixou que se cumprisse a pena a ele imputada pela Assembléia ateniense. Por que “deixou” que se cumprisse? Porque poderia ter evitado, aceitando (ou propondo) uma pena alternativa (o exílio, por exemplo), ou pagando um valor em moeda (que ele não possuía, mas que alguns dos seus discípulos possuíam de sobra). Ele preferiu “salvar” a filosofia, permitindo a sua morte terrena, do que salvar a própria vida, sacrificando, assim, a filosofia. Aos que quiserem aprofundar a leitura das circunstâncias da acusação, julgamento, condenação e execução de Sócrates, recomendo a leitura do diálogo “Fédon” e/ou assistir ao filme “Sócrates”, de Roberto Rosselini.

A circunstância para a qual quero chamar a atenção neste post, que dá nome a ele, é o fato de que quando um ateniense era condenado a morte, essa deveria ocorrer no dia seguinte. No entanto, no caso de Sócrates, a sua condenação ocorreu um dia após a consagração da embarcação que se deslocava anualmente de Atenas a Delos, para reviver o drama de Teseu e o Minotauro. O período que durava a viagem do barco, cerca de 30 a 40 dias, era considerado sagrado e ninguém podia ser executado em Atenas durante esse intervalo de tempo.

Durante os dias em que ficou preso, Sócrates recebeu os seus discípulos para longas conversas. Muitas das quais foram registradas nos diálogos de Platão. O mais célebre desses encontros, no qual estão descritos os momentos finais de Sócrates, está no diálogo “Fédon”, escrito por Platão, embora esse último, conforme o texto, não estivesse presente e tenha se limitado a transcrever o que ouviu.

O “Fédon”, que versa sobra a natureza da alma, é o supra-sumo da filosofia Socrático-platônica e nele Sócrates [por Platão] explica porque não temia a morte, fala sobre a função da filosofia e sobre as bases da “Teoria das ideias”, fundamento do pensamento platônico. Eis um trecho do texto:

“— De que modo, Sócrates?

— Vou dizer-te. É uma coisa bem conhecida dos amigos do saber, que sua alma, quando foi tomada sob os cuidados da filosofia, se encontrava completamente acorrentada a um corpo e como que colada a ele; que o corpo constituía para a alma uma espécie de prisão, através da qual ela devia forçosamente encarar as realidades, ao invés de fazê-lo por seus próprios meios e através de si mesma; que, enfim, ela estava submersa numa ignorância absoluta. E o que é maravilhoso nesta prisão, a filosofia bem o percebeu, é que ela é obra do desejo, e quem concorre para apertar ainda mais as suas cadeias é a própria pessoa! Assim, digo, o que os amigos do saber não ignoram é que, uma vez tomadas sob seus cuidados, as almas cujas condições são estas, a filosofia entra com doçura a explicar-lhes as suas razões, a libertá-las, mostrando-lhes para isso de quantas ilusões está inçado o estudo que é feito por intermédio dos olhos, tanto como o que se faz pelo ouvido e pelos outros sentidos; persuadindo-as ainda a que se livrem deles, a que evitem deles servir-se, pelo menos quando não houver imperiosa necessidade; recomendo-lhes que se concentrem e se voltem para si, não confiando em nada mais do que em si mesmas, qualquer que seja o objeto de seu pensamento. Que não creiam, enfim, senão no próprio testemunho, desde que tenham examinado bem o que cada coisa é na sua essência e que se persuadam de que as coisas que são examinadas por meio de um intermediário qualquer, nada possuem de verdadeiro, e pertencem ao gênero do sensível e do visível, enquanto que o que elas vêem pelos seus próprios meios é inteligível e, ao mesmo tempo, invisível!”

(Platão, Fédon)

Em Atenas, visitamos aquela que se afirma ser a cela em que Sócrates viveu os seus últimos dias. É uma sensação indescritível estar nos locais que o filósofo frequentou, nos quais os seus pensamentos e as suas palavras podem ainda estar vibrando, numa dimensão além do espaço-tempo.

Imagens:

Foto maior: J – Louis David, óleo sobre tela, 1787.
Fotos menores: Paulo Irineu, junho de 2015.v

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

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