É um erro afirmar que Jesus era socialista

Recentemente, uma postagem divulgada nas redes sociais “chamou” a minha atenção: trata-se de uma imagem da Santa Ceia, na qual constavam dizeres atribuindo a Jesus a “paternidade” do socialismo. Mesmo respeitando a liberdade que todos têm de expressar as suas opiniões e a sua compreensão de mundo, compartilhei a postagem e fiz um breve comentário contra a ideia, que logo recebeu um número muito grande de novos comentários, alguns se posicionando contra a minha interpretação, mas a maioria se manifestando a favor.

Desconheço a autoria e origem do “post” e nem me preocupei em procurar saber. Não sei se foi postado por desconhecimento ou má-fé, tendo em vista que estávamos às vésperas do ápice de um processo eleitoral, em outubro passado. Prefiro acreditar na sinceridade de quem postou.

Dada a repercussão do comentário, reproduzo aqui, com um pouco mais de detalhes, as razões que me levam a discordar da afirmação de que haja alguma relação entre Jesus e o socialismo. Os meus argumentos são muito mais de origem cultural, filosófica e/ou histórica, do que religiosa:

Meus amigos sabem que raramente faço comentários relacionados à Religião nas redes sociais (virtuais), pois é um tema que gera muitas controvérsias e mal-entendidos. Em geral, as pessoas encontram nas palavras do outro apenas aquilo que querem encontrar e, antes de estabelecerem um diálogo, já vão logo “soltando farpas”. Por isso, prefiro conversar pessoalmente sobre esse assunto. Mas, dessa vez, seria omissão deixar passar:

É um erro afirmar que Jesus era socialista. Tenho visto esse engano (de se associar a figura de Jesus ao socialismo) de forma muito recorrente. Parece que se passaram 2.000 anos e a mensagem do Cristo não foi entendida. Se fossemos fazer essa analogia “corretamente” (mas anacrônica, por sinal), os Romanos seriam os capitalistas (ou a “direita”). Os socialistas (a “esquerda”) seriam os Zelotes revolucionários, que esperavam um Messias guerreiro e bélico, o que Jesus não era e, por isso, não foi compreendido por muitos. Alguns seguidores de Jesus integraram esse grupo, mas Ele não.

Jesus, o Cristo, já propunha uma superação desse contraditório e dicotômico pensamento reducionista e separatista, tanto em seus elementos religiosos, quanto laicos e civis, pois Ele se importava com a Vida, em seu sentido pleno. Tanto é que propôs um diálogo com grupos e pessoas que não se “bicavam” (com os Romanos [ele curou o servo de um Centurião]; com membros moderados do Sinédrio; Ele recebeu mulheres em seu círculo, o que era condenável na época; com cobradores de impostos [que geralmente eram pessoas da comunidade local e eram considerados traidores], dentre outros). Ele dialogou com todos não para fazer concessões, mas para ir além, para superar os velhos antagonismos.

Jesus não se posicionou nos extremos, tampouco se omitiu. Não ficou na “sombra”. Ofereceu uma “via” não política, mas que também incluía os elementos políticos da questão: “Dai a César o que é de César”! Curiosamente, Jesus foi acusado e julgado por quase todos com os quais buscou se comunicar.

Se Jesus fosse “socialista”, não seria Jesus, o Cristo, realmente e, guardadas as especificidades históricas, não teria sido crucificado, mas teria sido coroado, ainda que por pouco tempo. Teriam sido erguidas estátuas em sua homenagem e Belém teria passado a se chamar “Jeshuaréia”, ou algo parecido.

Por tudo isso, e não apenas porque a comparação é anacrônica, é um erro afirmar que Jesus era socialista (talvez comunista, no sentido arcaico, de “vida em comum”), mas não no sentido empregado no mundo contemporâneo.
Também seria um erro associar Jesus, o Cristo, ao capitalismo (não me refiro às apropriações que foram feitas a partir do seu ensinamento), por razões que não vêem ao caso agora, mas que podem também ser objeto de análise posterior.

Imagem: Jesus, Pilatos e Barrabás. Cena do filme: “A Paixão de Cristo”.

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

3 Comentários
  1. Olá Professor e grande amigo Cires,

    Obrigado!
    Concordo com suas palavras, tanto é que procurei alertar, no texto, para o fato de que a comparação é, antes de tudo, anacrônica.
    No entanto, é preciso lembrar que quem a postou originalmente (na rede social) não o fez pensando assim, caso contrário não faria alusão ao número 13 (os 12 apóstolos + Jesus, o Cristo), relacionando-o à conjuntura atual. Ou seja: a comparação foi feita não em “lato sensu”, mas pretendia ser em “stricto sensu”. Foi essa alusão que motivou os comentários na rede social e, consequentemente, o post acima. No mais, estamos de acordo.

    Enfatizo que não questiono a liberdade de expressão de quem fez o post inicial, pois é ela que fornece elementos para o debate. Apenas me posicionei a respeito e admito que a minha opinião também pode ser questionada, mas quanto aos argumentos, reforço, estamos de acordo.

    É sempre um prazer tê-lo como interlocutor, tanto aqui no chamado “mundo virtual”, quanto nos nossos encontros efetivos, como foi o caso de um recente encontro casual em uma livraria da cidade.

    Grande abraço

  2. Professor e amigo Paulo Irineu.
    Li o seu texto, embora não tenha tido oportunidade de acompanhar, provavelmente pela rede social, o debate sobre o tema.

    O seu texto é muito bom é bastante esclarecedor no tocante aos argumentos que apresenta para corroborarem com a tese enunciada, qual seja “Jesus, o Cristo, não era socialista”. Contudo, se me permite um aparte, devo acrescer um ponto de natureza mais conceitual que é o seguinte: O termo “socialismo” designava até meados do século XIX mais o espírito de reformas pontuais que pudessem mitigar distâncias ou diferenças entre os membros de uma sociedade, tampouco o conceito de classes (construído “a posteriori” no materialismo histórico e dialético), logo as lideranças, os movimentos que se reivindicavam de mudanças para diminuírem as diferenças eram assim vistos como “evolucionistas”, “revolucionários” ou “socialistas”. Com a construção da ideia do “socialismo” como uma etapa transitória ao capitalismo em Karl Marx, passaram a ser designados como “revolucionários ou comunistas” aqueles que pregavam e lutavam pelo socialismo e como “socialistas” de uma forma geral aqueles defensores de reformas no sistema capitalista que prescindissem o socialismo como um sistema a ser alcançado. Feitas tais ponderações, creio que não seja de todo errado, mesmo que cause confusão semântica e até conceitual, designar, “lato sensus”, Jesus, o Cristo, e os seus seguidores como “socialistas”. Abraços Professor

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