Ecce Homo

Virginia foi levada pelas águas…

O silêncio é um absurdo incontestável. Não estou no direito de exigir nada de mim mesma. Se me tomo como sou ao me olhar no espelho, inquieta-me a expressão que faço ao ter noção de mim. O que sou? Não, não tenho a intenção de responder a mim perguntas clichês. Este trabalho esta dado aos filósofos. Não, não digo de responder as perguntas clichês, mas de ter com aquilo que nós estamos fadados a esquecer graças ao nosso cotidiano. Estamos aqui para fingir. Todos nós ousamos em nossos papéis, e fazemos isso com maestria. Oscilamos entre a verdade e a mentira, numa tênue linha, quase que transparente. A mesma linha que separa vida e morte, a mesma linha que me mantém presa a este momento. Então as palavras se absorvem, se conectam, dão-se as mãos, e se atam nós. Eu estou escrevendo qualquer coisa que me liberte da minha depravação. Estou me permitindo um contato com a sobreposição que o fantástico faz a minha realidade para viver. Eu estou meio morta, meio viva, meio qualquer coisa que me leve de volta ao momento primeiro, a antífona da vida.

A tudo isso dei nome de busca.

***

Os teus olhos me lembram de fatos passados. Agonias muitas que vivi em outros braços. Mas não me cabe lembrar de antigas dores, agora, eu só tenho a obrigação de satisfazê-lo. Tomo-te o corpo rijo com o qual hás de dar prazer a tua esposa quando chegares a casa e te babujo a boca por que assim me permites. O que estou dizendo?! Não sei quem és, não sei de quem se trata, nem ao menos sei o teu nome. No entanto, tudo que vivo, tudo que é sabido por mim agora, me faz lembrar de alguém que passou por minha vida. É que meus instantes estão colidindo com as lembranças do passado. É que naquele tempo eu nunca me senti tão vivo. É que a tua história, a história que te suponho é comum de todo e qualquer homem que durante a noite procura um travesti para apaziguar o seu tesão.

Mas eu sou um homem, uma mulher, não sei, estou tão desfeita das afirmações que os outros querem fazer de mim. E esta nova onde de definições. Acho que os politicamente corretos não entendem que somos todos humanos, e morreremos da mesma forma, e seremos enterrados ou queimados, mas iremos para o mesmo lugar. Estou farta de definições, não me definam, eu quero ser qualquer coisa que eu mesma criei, algo que mais tarde será moldado pelo tempo (ou pela vida?).

Do que estou falando mesmo? Estou falando de mim, do passado, de todas as coisas que dizem respeito a minha realidade, a minha estadia na terra, a vida. A vida é uma queda livre de encontro ao abismo.

***

Eu penso em me matar todas as manhãs. Acordo e procuro um motivo qualquer que me faça levantar da cama. Não estou tão disposta como um dia estive. Nos verões passados haviam sorrisos de bocas diversas, e sinfonias álacres. Raios de sol que pululavam de encontro às ondas da mar. Na praia as pessoas iam e viam dando passos largos, ou calmos. Havia maresia, céu, sol, noite, lua, estrelas. O que há hoje?… O que há hoje? Alguém poderia me responder?

E então ele se foi. Sou a culpada. Sou eternamente culpada pelo meu próprio erro. Então vou de encontro a minha dor. Decidi que seria assim. Decidi que a vida seguiria o rumo que eu lhe desse, e não o rumo que ela me ofertasse. Então a dor sufocara-me, era o momento em que meus desejos se colidiam com as vontades da vida. Ah… que saco!

***

Desci com os lábios até o membro. Aqueles olhos me lembravam de alguém. Detive-o dentro dos meus lábios, e suguei-o como se almejasse arrancar dele um alimento. A fagulha de uma resposta que me mantivesse viva.

***

Eu estava fascinada com a vida daquela mulher. O que ela haveria de ter feito para se conhecer tanto ao mesmo tempo que não sabia nada de si… E então foi levada pelas águas. Assim como eu, eu estava sendo levada pelas águas da vida. Carregada em braços angelicais que me guiavam a direção oposta dos sonhos que tive. Ah, a vida…

E então tudo estava explicado. Eu estava explicada.

Amar a vida! Tomá-la pelo braço e dançar a valsa tocada pelo vento. E tê-la! Tê-la como tem todo o homem a certeza da morte. E vive-la, vive-la apesar da dor que a quase todo tempo nos sufoca.

O que eu estou fazendo? Estou escrevendo algo que não posso explicar nem definir. Assim como eu, indefinível. Eu sou indefinível. Não posso ser conceituado.

***

O que mais vocês querem saber de mim, se nem mesmo eu sei de mim?

Virginia foi levada pelas águas…

Marcos Welinton Freitas

Marcos Welinton Freitas

Baiano do Bravo/Serra Preta. Graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Escritor: poeta e contista.

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