Édipo, assassino

Naquele beco imundo, tão nefasto quanto minha atual condição de homem, eu me arrastava para tentar deixar para trás aquilo que nos negamos a aceitar, aquilo que nos quedamos em cegação: arrependimentos. Minhas costas doem, doem muito já de carregar aquele moribundo pelos becos escuros da cidadela, pelo túneis nefastos que continham a cada passo demônios que me agouravam com a lembrança de sua última face. Minhas costas, como doem, por Deus! E esse fardo já não é mais da corredeira idade, que avançou numa maratona inacompanhável. Esse arrependimento, esse negar do que vivi, essa lágrima que cai de meu rosto é para dizer simplesmente “Oh, porque tudo terminara assim!”. E terminou.

Minha sala na universidade estivera lotada naquela manhã. Nunca tivera dado uma aula de literatura com tanta gente presente. Eu suspirava tentando encaixar os fatos que ocorreram naquela semana. —“Meus caros, hoje veremos Édipo, Rei.”—. Abri na página marcada para a lição daquela classe matutina. Percorri com meus olhos e iniciei a leitura da página: “[…] E a única providência que consegui encontrar, ao cabo de longo esforço, eu a executei imediatamente. Creonte, meu cunhado, filho de Meneceu, foi por mim enviado ao templo de Apolo, para consultar o oráculo sobre o que nos cumpre fazer para salvar a cidade.”. Longe, longe eu tinha o pensamento naquele exato momento. As palavras saíam maquinamente da minha boca, sem apresso de pensar. Longe, longe eu colocava meu ser, em rodeios da consciência para poder decifrar o que acontecia por aqueles dias. Cristina chegara até em casa atordoada, num súbito de transtornação psíquica. —“Oh, meu amor, que passa?”—. E foi assim que eu descobri que ser gerente de um banco não era trabalho para qualquer tipo de pessoa. Chorava, escorria de seus olhos as lágrimas do sofrimento de ter uma chefia abusiva, de ter que sustentar-se com migalhas, apesar do imenso esforço naquela agência. Eu e meu filho observávamos numa piedade tão mais forte que a religiosa, segurando suas mãos e dizendo as palavras simples do coração que acalmam as almas aflitas desesperadas. Mas eu e meu filho éramos distantes. E eu tenho que dizer que no segundo dia houve um sorriso resguardado, mesmo com os mistérios rondando aquele ato. O dia de trabalho seria nefasto, seria um dia de ligeiras estranhências, mas para Clarice, simplesmente aliviador. O gerente havia sido assassinado na noite passada.

Santo Deus, aquele cheiro dos vermes roendo o corpo fazia um redemoinho dentro de meu estômago. E eu vomitei. Coloquei para fora não só minhas entranhas mais profundas, vislumbrava naquele asqueroso vômito minha culpa de ter feito aquilo. Foi preciso, foi preciso! Arrê, leitor, ainda não tem ideia de que era preciso realizar esse tipo de matância para aliviar o transtorno obtuso em que eu fora colocado. Meus olhos lacrimejavam na mistura da névoa da madrugada com os ares decompostos daquele cadáver. Por céus, como aquilo era mais pesado do que eu tivera imaginado! E meu ser imaginante estava sufocado internamente nas lembranças, em rememóriazinhas dos cacos de fatos passados. Ah, eu tanto queria poder me desculpar! Eu tanto queria poder justificar com a lógica minha ação. Senhoras e senhores do júri, vou escusar-me de usar minha razão, pois a emoção transborda de mim em cada inalada desse ar para sobreviver. Senhoras e senhores do júri, não precisa entender com essa matematicidade minha história. Minha tragédia só se faz lúcida quando entendida por ébria condição.

[…] Oh! Ai de mim! Tudo está claro! Ó luz, que eu te veja pela derradeira vez! Todos sabem: tudo me era interdito: ser filho de quem sou, casar-me com quem me caseie e eu matei aquele a quem eu não poderia matar!”. Assim disse Édipo! Só que o grito eu dei apenas para mim mesmo. Minha leitura naquela sala continuava com os olhos baixos no livro deveras gasto pelo tempo. Minha leitura apenas possuía uma voz rouca, sem timbre de emoção. Eu estava guardando as vertentes dos travessões e interrogações num canto da língua que só minha mente pudesse ler. Paf paf! Ouvia o barulho de um revólver em meu ouvido e uma sombra estava saindo de um canto na esquina. Um corpo. Um corpo estirado no sangue, quase que se afogando em seu próprio leito de morte. Os olhares espantosos, como que seu algoz tivesse sido surpresante. As ninfas faziam aquele tipo de expressão fascinorosa quando seus amantes tinham a audácia de dizê-las: —“Não, não a amo e nunca a amei.”—. Porque as ninfas, apesar de sedutoras e inquisitoras do pecado em nossas carnes, elas tem o dom da pureza de almas. Sim, sim, eu defendo que as ninfas um dia possam amar, possam ter um amor puro para poder beijá-las todas as manhãs. Meus olhos percorriam o jornal da manhã naquele breve momento, pois o imaginante foi despertado pela intrigação da foto de cadáver achado em madrugada pretérita. E eu conhecia a dona daquele corpo. Quiçá fosse um pequeno dejá vu. Não, meu leitor, simplesmente não era. O corpo, coitada, era de Adelaide, outra gerente do banco em que Clarice trabalhava. Êixa, eu deixei a xícara com meu café preto cair sobre toda minha calça recém lavada. E o quente líquido não queimava minha perna tanto quanto a ânsia de que o perigo estaria batendo em nossa campainha. Toc-toc. Eu pulei da cadeira e num susto achei que fosse a morte esperando sua próxima vítima. E a sala muda esperava que eu parasse a leitura daquela obra para fazer algum comentário crítico. Meus olhos, ainda aqueles meus olhos, estavam pensando no jornal e no café derramado de algumas manhãs atrás. Adelaide tivera sido promovida no banco, e Clarice tivera ainda que se contentar com as miseráveis escórias que lhe rendiam cobranças da gerência geral.

Então o rastro de sangue oriundo do corpo em minhas mãos fora já sumindo. Estava distanciando-me do local em que eu estacionara o carro. Dentro de pouco tempo eu chegaria ao meu destino afastado e poderia se livrar daquele cadáver. Oh, lorde! Eu peço socorro. Eu clamo aos céus que contenham essa agonia minha interna. Eu tenho ódio, ódio do que fiz. Senhoras e senhores do júri, mas preciso que percebam, preciso que realmente tenham uma visão benevolente, pois não sou assassino fruto de uma malevolência. Fiz o que tive que fazer sem outra opção, pois meu destino não podia ser tão igual aquele da literatura. Minha destinação ainda não tivera seu prazo de validade contado. Ai, ai! Dói esse meu peito, dói esse meu coração por não poder velar por um corpo. Mas tinha que ser assim, ponto final. —“Clarice, chegue mais perto, eu preciso ouvir sua voz”—. Era tão doce, tão suave a meiga voz daquela mulher. Era uma ninfa. Sim, eu não tinha dúvidas! Merecia um amor puro, merecia um homem que pudesse lhe amar verdadeiramente! —“Oh, Clarice, desculpe-me, eu peço mesmo que me desculpe se eu não tenha lhe amado como mereça. Eu prometo, serei um homem diferente!”. — Mas eu estava confuso com aquilo, confuso com minha própria nova condição. Como meus braços doem! Arrê, um corpo imóvel, que já jaze pela própria condição de mortal, é tão pesado quanto as pedras que os vivos carregam. E o fado, essas pedras fadantes em desgraças, degradam nossa própria condição. Eu, carregando aquele corpo, já tinha degradado minha moral. Não! Não! Senhoras e senhores do júri, eu teimo, ainda vou teimar que vocês precisam afastar qualquer resquício de lógica para entender o que eu fiz.  Eu peço que virem trovadores e que comecem a pensar em líricas trovas.

Continuei a leitura, sem aquele afeto de uma mãe que lê uma história de ninar para seu filho. E eu nunca tivera lido uma história para meu filho. As lembranças que tenho dele é apenas de um jovem calado, resguardado em si, mas com um afeto surpreendentemente grande pela mãe. Talvez, até demais. “[…] E agora, quem pode haver no mundo, que seja mais miserável? Quem terá sofrido, no decurso da vida, mais rude abalo, precipitando-se no abismo da mais tremenda ignomínia? Ilustre e querido Édipo, tu que no leito nupcial de teu pai foste recebido como filho, e como esposo dize: como por tanto tempo esse abrigo paterno te pôde suportar em silêncio?”. E eu começava a refletir numa situação a cada palavra daquele texto. Eu ia passando meus olhos despercebidamente. Desatentos, os alunos já pouco se entretinham com a leitura do clássico Sófocles. Desatentos, não percebiam minha condição de ser investigador da própria moral. A psicopatia daquele suposto ‘serial-killer’ tinha uma conduta específica; específica até em demasia. Pois tudo, tudo naquela história, girava no entorno de Clarice. —“Meu amor, minha rosa que repousa no jardim de meu âmago do coração, eu quero fazer de tudo para que seja feliz, eu quero sentar ao seu lado nas primaveras para sentirmos o cheiro dos jasmins e nos beijarmos na sombra das macieiras sem qualquer tipo de preocupação.” —. Eu observava todas as características daquela mulher, todos os pormenores de seus problemas para tentar fazê-la o mais feliz possível. Meu filho, e meu filho, ficava cada vez mais calado sobre aquilo, cada vez mais distante de um pai com que nunca tivera um verdadeiro afeto. Foi então que o brilho da clareza dos fatos cada vez mais alumiava minha mente, podendo eu estar muito a frente. Foi então que eu comecei desesperar-me angustiantemente. “[…] Só o tempo, que tudo vê, logrou, enfim, ao cabo de tantos anos, condenar esse himeneu abominável, que fez de ti pai, com aquela de quem eras filho!”. Ah Édipo, porque demorara tanto para ditar-me a resposta com seu sussurro teatral. Meu filho, meu próprio filho estava apaixonado pela mãe. Ai, senhoras e senhores do júri, encontrava-se aqui a premissa para crime hediondo. Encontrava-se aqui a premissa para eu estar diante de um beco sem saída dentre os meus dilemas sentimentais! A leitura acabara naquele trecho com o fim da aula.

Começara a chover naquela hora, e a lama misturava-se na enxurrada de chuva e sangue do cadáver. E as trovoadas eram tão fortes! Os trovões gritavam por mim, o céu chorava por mim! Por que eu fizera aquilo? —“Oh Clarice, nosso filho!”—. Mas ela não podia mais me ouvir. E a chuva escorria de meus olhos com suas gotas, com seu gosto amargo de angustiar-se com o passado. Minha crise seria ter vivido no eminente conflito da tragédia grega. E eu antecipei-me como Édipo, mas de forma renovada. Eu antecipei-me de tudo para privá-la dos problemas. —“Clarice, eu sei que te amarei, por sempre eu lhe considerarei meu eterno amor.” —. E doíam cada vez mais os trovões chocando-se com meu peito.  Fui arrastando o cadáver até a beirada do rio, onde a correnteza me deixaria dar o último adeus. Adeus, senhoras e senhores, do júri, pois terei de ir longe, terei que fugir para cantos onde as pessoas não consigam trespensar aquele que fui no passado. Eu poupei meu filho de denunciá-lo por tantas mortes. Eu poupei-o da cadeia. Ora, senhoras e senhores do júri, era tudo crime passional aquilo. Tanto quanto seria o meu. Tanto quanto seria o que eu tivera cometido. Ai, essa minha sentença vai perdurar mais que uma prisão perpétua. Meu cárcere vai ser espiritual, por conviver sempre dentro daquele que matara sua própria razão de viver. Meu filho, já bem longe, distante como sempre fora de mim, aquele pai até mesmo ausente, estava partindo para conquistar outros reinos. O turbilhão das confusões tebanas não se repetira naquela história. Senhoras e senhores do júri, ele fora embora porque eu descobrira tudo, e não restava nada mais que ele pudesse fazer para contornar a situação. Pois chegara o momento de o júri julgar minha ação apenas com a poesia. —“Não esqueça, não esqueça que eu sempre lhe amei, Clarice.”—. E o rio levava o adeus de uma dor dela que eu poupara. “Assim, não consideremos feliz nenhum ser humano, enquanto ele não tiver atingido, sem sofrer os golpes da fatalidade, o termo de sua vida.”. O cadáver descia a correnteza do rio, deixando pelos últimos segundos minha chance de palavras para uma despedida. Às vezes, bem em tempos certos, é necessária a morte para eternizar esse amor da vida. Bem em alguns tempos, nesses específicos, a morte é a única prova de amor. Eu não tinha forças para suportar mais aquilo, eu não tinha mais forças para controlar a situação sem dar um fim a qualquer um dos dois. Então eu preferi dizer ‘eu te amo’ com a morte, e deixei que a lua alumiasse com seu brilho prateado aquele semblante do sorriso que eu busquei refúgio em tantos anos. Sim, senhoras e senhores do júri, não tinha outro jeito para a tragédia não terminar como na literatura se não fosse pelo meu grande amor, pela minha consciência de que a morte a pouparia de maiores estragos e terminaria com esse legado ediponiano em meu filho!  Com o corpo já dobrando a esquina do riacho, deixando que sua alma descansasse com os eternos deuses de onde viera, eu consegui dizer quase sem forças: —“Adeus, minha pequena, Clarice.”

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

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