Educação: uma questão de qualidade

Todos os que vivem o cotidiano das escolas brasileiras já ouviram frases assim: “Os alunos não estão aprendendo matemática, precisamos aumentar o número de aulas desta disciplina”; “Vamos aumentar o número de aulas de filosofia, para os alunos aprenderem a pensar melhor”, “Precisamos de mais aulas de língua portuguesa…”, etc…

No entanto, o que a prática tem demonstrado é que este procedimento está longe de ser o mais adequado, salvo em situações específicas de complemento de conteúdo, ou para suprir requisitos não preenchidos pelos estudantes.

Podemos verificar que quando a maior parte dos estudantes não aprende um conteúdo, isto não se deve, necessariamente, ao número de aulas semanais do conteúdo, mas sim a fatores relacionados à presença dele em sua vida e em sua visão de mundo. Se o aluno não compreende a(s) razão(ões) para estudar, dificilmente ele se esforçará para aprender. Por isso, é muito mais eficaz do que aumentar o número de aulas simplesmente, promover atividades que levem os estudantes a relacionarem as disciplinas estudadas ao seu cotidiano. Embora esta afirmação pareça óbvia, ainda é muito pouco praticada, por diversas razões, que vão desde a falta de interesse dos professores e dos estudantes, até situações como o grande número de alunos em sala de aula, a carga horária excessiva dos professores, dentre outras. Mas, quando se quer, há algo que pode ser feito: associar a Educação à Cultura. Ensinar pelo conteúdo e não pela forma simplesmente.

Ilustrarei a afirmação acima com um exemplo retirado da literatura. Embora seja uma obra classificada como “realismo fantástico”, o livro “Operação Cavalo de Tróia”, de J. J. Benítez, traz um episódio interessante: Quando o Major, um dos protagonistas da narrativa, tem que aprender o Aramaico tal qual se falava na época de Cristo, para a qual ele vai se “transportar”, ele não o faz em uma Universidade, ele vai passar um período na única aldeia em que ainda se fala este idioma antigo, de maneira preservada. Se o relato é verdadeiro, ou não, o que importa aqui é a solução encontrada. Da mesma forma, podemos verificar que quando alguém quer estudar um novo idioma, pouco adianta estudar o idioma separado da cultura do país de origem do idioma em questão.

Isto também vale para as demais disciplinas e atividades humanas. No caso da filosofia, é notório quando ela é estudada meramente como “obrigação”, na qual se busca ensinar e aprender filosofia, sem ensinar e aprender a filosofar. Ela se torna distante e enfadonha. Ensinar e aprender filosofia deve ter como início o despertar de uma “atitude filosófica”: ver e “ler” o mundo como realidade que possibilita a reflexão. Por exemplo, não fará muito sentido ao estudante se o professor, em sala de aula, se limitar a descrever os “momentos” do método dialético socrático, mas fará muito sentido se ele promover, entre os alunos, um debate no estilo socrático, no qual cada um possa apresentar a sua própria percepção a respeito de um tema previamente escolhido. Os alunos poderão, dentre outras descobertas, perceber o quanto é difícil chegar a uma definição última, ainda que seja do mais simples conceito.

No caso da matemática, já que a citamos no início, fica muito mais interessante quando os estudantes encontram na realidade que os cerca motivos para entendê-la, matematicamente. Por exemplo, o professor pode, ao invés de simplesmente dizer qual é o valor de Pi (π), realizar com os alunos todo o percurso feito pelos matemáticos antigos até chegar ao valor. Desta forma, os alunos terão a compreensão da “construção” do número e saberão, inclusive, porque o seu número de casas decimais tende ao infinito.

De maneira prática, uma boa maneira, e muito simples, de mostrar aos estudantes como se calcula o Pi é pegar uma roda (pode ser de madeira) medir o seu diâmetro e fazer marcações no chão que correspondam ao diâmetro, a partir de um ponto inicial. Passar um barbante ao redor da roda e prender a sua ponta no marco inicial. Em seguida, movimentar a roda, de forma que o cordão vá se soltando da mesma. Os alunos vão perceber que a marca correspondente ao momento em que cordão se desprender da roda, será a que “determina” o valor de π. É evidente que este exercício não dará o valor exato do número, devido a várias razões, como a própria espessura do cordão, a irregularidade da superfície da roda, etc.. Mas o importante é que os alunos entenderão a “lógica” do cálculo do valor de π. A imagem abaixo busca reproduzir a experiência.

O perímetro da circunferência é 3,1416… vezes maior que o diâmetro, sendo a razão perímetro/diâmetro o Π(pi)

Em suma, o que os nossos estudantes precisam não é de mais horas em sala de aula, desse ou daquele conteúdo, mas sim de perceber o significado e o sentido daquilo que estudam. Não é uma questão de quantidade, mas de QUALIDADE.

Imagens:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Pi
http://idiasdesorganizadas.blogspot.com.br/2011/02/morte-de-socrates.html

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

12 Comentários
  1. Oi Regina,

    Agradeço por suas palavras sobre o livro, é um incentivo a mais para continuar escrevendo.

    Abraços

  2. Olá Dirceu,

    Obrigado pelo comentário.

    É isto aí, também acredito que o caminho seja este: Cultura, no seu sentido mais digno.

    Abraços

  3. Paulo, como vai? Gostei imensamente do seu livro Ensaio Sobre The Dark Side of the Moon e a Filosofia: uma interpretação filosófica da obra-prima do Pink Floyd”. Continuo admirando o que escreve e concordo plenamente com o texto sobre educação. Continue assim.

  4. Grande Paulo:

    Muito pertinente a investigação sobre o “aumento” e a “extensão” de determinado evento. Sempre fiquei ‘matutando’ uma forma saudável de escapar da aula-show e ainda assim conseguir atingir o cerne do objetivo da educação que é ensinar…desconfio que encontrei-a: O sentido e a determinação da tarefa pedagógica é, necessariamente, a inserção na Cultura naquilo que se contrapõe à Semicultura. Grato por sua intervenção!

  5. Oi Fernanda,

    agradeço imensamente pelo seu comentário.
    É muito bem vinda a sua contribuição, com a qual concordo plenamente.
    Sucesso e grande abraço.

  6. Olá Paulo Irineu,
    De muito valor o tema de sua publicação. Muito Obrigada por compartilhar o link.
    Depois de passar um período lecionando na rede estadual de São Paulo, observei que são muito poucos os profissionais do ensino, em todas as diferentes atribuições e nos diferentes níveis hierárquicos, que se encontram de fato preparados para desenvolver o ensino de qualidade, e não de quantidade. Dito isto, proponho humildemente acrescentar à sua colocação “os alunos não compreendem os motivos para estudarem”, a seguinte assertiva: “os educadores não compreendem os motivos para ensinar”.
    Sucesso em sua jornada.

  7. Olá, Paulo!

    Disse TUDO sobre a diferença entre QUALIDADE e QUANTIDADE e, isso deve ser levado em conta principalmente pelos nossos gestores ao elaborar ou aprovar os projetos pedagógicos dos nossos cursos.

    Parabéns pelo discernimento e crítica a cerca do nosso sistema de ensino e agradeço mais uma vez pela oportunidade de ler mais um texto de sua autoria.

    Um abraço.

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