Do Ensinar à Ensinagem

PIMENTA, S.G. & ANASTASIOU, L.G.C. Do ensinar à ensinagem. In: Docência no ensino superior. São Paulo: Cortez, 2002.

O texto em discussão traz em sua introdução uma perspectiva histórica sobre a didática comeniana e a predominância do ensinar sobre o aprender. Em tempos mais recentes, esta predominância e centralidade foi transferida ao ser que aprende, perspectiva fortemente influenciada pelo pensamento de Rousseau e desenvolvida pela Escola Nova. Nessa abordagem, leva-se em consideração a criança como sujeito que aprende, valorizando desta forma os interesses e motivações da mesma.

A partir desse contexto, a autora apresenta-nos a importância de adquirirmos o entendimento da natureza do ensinar, para a superação do falso dilema que se estabelece entre ensinar ou aprender. Portanto, apresenta-nos a ensinagem que, para a mesma, comporta em si a superação dessa falsa dicotomia. Ao discutirmos a docência universitária, a autora coloca como ponto importante “a necessidade de compreender o funcionamento do ensino, fenômeno complexo e em situação, suas funções sociais, suas implicações estruturais, e do ensinar como prática social”. (PIMENTA, 2002, p. 204)

No contexto da prática social, centraliza-se o olhar sobre o ensino e a aprendizagem, sobretudo, nos processos de ensino em cursos universitários, onde não passam de reproduções, aulas expositivas onde apenas o professor fala. Neste sentido, o conceito de ensinar desconsidera todos os elementos essenciais do processo de aprendizagem em questão.

A docência não pode ser compreendida como sendo apenas um ato de ministrar aulas, visto que tal conceito vai além. A docência no ensino superior requer uma atenção especial às necessidades dos discentes, para nortear a sua “prática” no processo de ensino-aprendizagem, pois o papel do docente é fundamental e não pode ser descartado como elemento facilitador, orientador e incentivador da aprendizagem. Deste modo, na ensinagem, a ação de ensinar é defendida na relação com a ação de aprender, pois, para além da meta que revela a intencionalidade, o ensino desencadeia necessariamente a ação de aprender.

O processo de ensinagem parte do pressuposto de que é, ele, antes de qualquer conceituação, um exercício de compartilhamento, de convívio e de diálogo entre as partes que compõem o jogo educativo, a citar primordialmente o professor e o aluno. Neste entrelaçado, o conhecimento se acerca de buscas em torno de mobilizações, construções e elaborações sintéticas.

Quanto ao que concerne acerca do tópico “mobilização para o conhecimento”, como assim se referiu Vasconcellos (1995), cabe ao professor procurar formas de atrair o seu aluno até a mais próxima face do saber que porventura esteja em destaque. Para que isso ocorra, há de existir vontade e interesse de ambos os lados. A promoção da relação do aluno para com o objeto de estudo é o desafio maior desta etapa.

No que tange à “construção do conheciemento”, a prática analítica do aluno em relação ao objeto de estudo faz-se aqui de alvo máximo. Aqui, o aluno, com apoio total de seu orientador, debruça-se no corpo do saber e alicerça seus tijolos de síntese e de visões de futuro. É o momento do aluno ativo e do professor operante. Para tal relação acontecer de forma harmônica, cumpre observar os passos da Significação, Problematização, da Práxis, da Criticidade, da Continuidade, da Historicidade e da Totalidade, cada qual com suas prerrogativas e dinâmicas.

Sobre a “elaboração da síntese do conhecimento”, último tópico que compõe o processo de ensinagem de acordo com Pimenta (2002), o aluno caminha ao lado do professor e já esboça o que podemos chamar de consolidação de conceitos, sabedor de que tais conceitos devem ser vistos como entidades mutáveis, pelo simples fato de que nunca deixamos de aprender coisas novas e que, por conseguinte, a qualquer momento podemos adentrar por novas mutações de base ideária.

O processo de ensinagem é uma busca mútua, professor e aluno na direção de um só objetivo, as duas figuras marcando territórios e superando obstáculos que podem, com certa facilidade, impedir o livre curso das formações de saber. Ensinagem, pois, é compromisso com o que vai além do necessário dentro dos universos do conhecimento. Destarte, ensinagem é também uma espécie de amor, ou de amar, na acepção mais justa e bonita possível.

* Texto escrito em parceria com Dayse, Denise, Débora, Edjane, Elizabeth, Hugo e Noêmia, colegas de pós-graduação em Ensino de Lingua Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru – FAFICA.

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

Sem comentários; deixe o seu:

Seu comentário é importante!

Your email address will not be published.

Você pode usaratributos e tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>