Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (I)

Viana?

Sei que ficarás surpreendido com este primeiro recado. Nem ouso chamar-lhe carta. Sabes, a bem dizer, não escrevo uma desde os anos 80. Apenas notas, palavras dispersas, ideias caóticas amarradas à força umas às outras, letras ao vento. Mas não uma carta no sentido de relatar minudências, trivialidades, falar de coisas que só para mim têm algum relevo e que talvez te despertem também a atenção. Tu tens olhos de ver e não te ficas pela superfície. Ontem, por exemplo, surgiu aquele menino, do nada, quando eu voltava para casa. Ele teria quê, uns 6, 7 anos, chegou a correr, esbaforido, e perguntou: “Como é que te chamas?”. E eu disse. Ele respondeu então: “Eu te conheço”. O menino disse depois que se chamava Evandro (ele tem uns olhos castanhos fantásticos, curiosos e espantados, Viana). Perguntei pela mãe, pelo pai. “A mãe está ali”, e o menino apontou com o braço esticado para uma direcção improvável no meio da multidão, dos carros, das pessoas que passavam com compras. “Mas não tenho pai”. Eu queria saber mais sobre esse pai que ele não tem, queria dizer-lhe que não se afastasse da mãe. Entretanto tocou o meu telefone e afastei-me, dizendo-lhe apenas para estudar, estudar muito, estudar sempre, para se portar bem. Quase como se isso substituísse esse pai que não tem e que não o tem a ele. E que não sabe certamente o que perde: um menino meigo de olhos castanhos e um tempo irrecuperável, pois como dizia o Vinicius, “O tempo do amor é irrecuperável”.

Eu voltei para casa pensando que um dia destes encontro por aí o Evandro, já formado, carregando responsabilidade nos gestos. E ele nem se vai lembrar de mim, mas eu vou ficar contente por ele.

Que mais te posso dizer? Voltei a estudar, num registo paralelo e horizontal, carregado de espontaneidade. Estou a aprender outra língua. As que tenho já não me chegam para te falar e te contar estas coisinhas miúdas que tornam os dias importantes. Chegam para o discurso formal, académico, para os relatórios, mas serão suficientes para comunicar? Estou sempre à procura de novas ferramentas. Nestas aulas encontrei um povo feito de muitos outros numa terra que incendeia e onde as canções pedem chuva. São uns pontinhos no mapa, no meio do oceano. Dizem que é um país e eu acredito. Por ora quero apropriar-me da língua e fazer dela minha também. Quando descobrir mais sobre o assunto eu digo de que língua se trata, ainda estou a sentir-lhe o gosto.

E tu, caro Viana? O que me contas? Amanhã é o dia 25 de Abril. Lembro-me daquela canção do Chico, Tanto Mar, em que ele canta aquela estrofe: Lá faz primavera pá/ cá estou carente/ manda urgentemente/ algum cheirinho de alecrim. Conheces? Eu mandava-te um cheirinho de alecrim, se pudesse, agora mesmo. E tu mandavas-me um bocado de esperança e dessa maneira de olhar a vida com olhos da cor do sol. Será que é mesmo assim ou é ilusão nossa?

Eu quero saber de ti, dos teus dias. Como são, mas sobretudo como tu os vês.

Um beijo, por hoje é tudo, embora pareça quase nada, é um pouco do muito que tenho para oferecer. Tenho um monte de factos e afectos para arrumar, engavetar, etiquetar, reciclar. Trabalho, compras, família, mais trabalho, rotinas e algumas divagações pelo meio.

Agora eu vou, mas volto. Fico à espera do correio,

Outro beijo
Clara

Lisboa, 24 de Abril de 2015

Conversas-Epistolares 1
Clara,

Bonito isto de escrevermos a vida, à vida. Cartas, assim no mesmo-delas, são realmente difícéis artefatos nos dias de nós-agora. Mundo tão de produzir-resultados-para-já, não é? Por minhas mãos, também elas, recordo apenas nos meus anos de menos idade. Somos, pois, assim nos sendo em cima das recriações cotidianas, criadores de uma órbita particular de observação incomum do mundo.

Ainda hoje lia algo sobre o que é ou não ficção, e a autora Ivete Lara Camargos Walty nos diz que “criar é propor novas ordens, novos sistemas de pensamento, novas maneiras de ver o mundo; logo, a criação ameaça a ordem instituída, as bases em que a sociedade se apóia”. Somos a partir desta primeira troca, criadores, criamo-nos. É bem o que ela frisa, concorda?

Portanto, por sermos e pensarmos como pensamos, isso de poesia quase-sempre, somos também perigosos, pois andamos raspando a margem dos padrões do viver impresso a todos e não nos subordinamos facilmente às ordens da produção pela produção. Sei que pensas assim, mesmo sem saber se de verdade, mas seremos sempre de admitir as belezuras da fantasia, até porque nem só a realidade existe.

Ultimamente, estamos tão perplexos com o cotidiano amórfico em que vive a maioria de nós, que acabamos sendo parte do todo também, até mesmo quando fugimos em disparada. Como escapar daquilo que nos açoita e que, ao mesmo instante, apresenta-nos invisível e onipresente? O tempo… do amor, da alegria, da felicidade clandestina, do coração selvagem, o tempo ponteia tão esparsadamente os nossos dias velozes. Sem tais tempos, o que somos?

O pequeno Evandro irá crescer e o que a vida lhe dirá, e o que a vida lhe fará? E saberá ele viver com sabedoria o tempo disponível? E nós dois, Clara, o que estamos fazendo de nossos tempos de rebeldia, de liberdade, de bondade, de significados? Irrecuperável é a dor de ser feliz pela metade, a mágoa do ir com medo para o lugar desejado, o desgosto do passo lento, o amarelo dos sorrisos tristes. Toda mancha altera o ponto onde ela se instala. Para eliminá-la, mobiliza-se o ponto de amparo. Enfim, Evandro irá crescer e escolherá entre viver a ficção ou a realidade – e será mesmo que temos a capacidade ou a faculdade de fazer tal escolha? Deixo a questão em aberto…

Aqui está tudo em paz. Ou talvez a paz simplesmente tenha dado uma trégua a ela mesma, deixando-me num estado de incerteza copiosamente intransponível. Choveu bem durante a madrugada. Amanhã deverá continuar assim, úmido. Já te falei que adoro chuva, nuvens carregadas, trovões, dias frios e afins?

Já até imagino sobre quais objetos de língua debruçam seus olhos ardentes pelo saber, Clara. Acho incrível e quero suspeitar mais destas suas paragens de observância-vivência. Ao passo que se forem dando as novidades, deixe-me a par. Sobre os Cravos, sei quase nada, só em parcas leituras, tinta de uma demão apenas. Conte-me mais sobre este episódio, por favor. No olhar do ser-autóctone a coisa sempre ganha outros tons. Interessa-me tanto.

Ademais, entre meus medos, examino meu dicionário atroz. Volto ao começo desta missiva. Faço: o que é mais ficção por aí, Clara? O que é mais realidade? O que faz de você mais rígida? O que permite a você ser fluidez em auroras tão insípidas? O que fazes de melhor para fugir das gaiolas?

A gente volta. Vai daqui meu carinho.
Viana
Planeta Pernambuco, País de Caruaru, 03 de maio de 2015.

***

Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

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