Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte IX)

Meu amigo querido,

Desde a nossa última conversa (Céus, como o tempo corre depressa!), tenho estado a passar pela vida de forma interventiva ou mais contemplativa, alternadamente; as palavras que me trouxeste e as outras que procuras em mim têm estado permanentemente no centro das minhas preocupações. Delas me servirei hoje para quebrar um pouco desta ausência e mitigar a distância que agora se condensa num gesto de aproximação em papel, através da palavra. (desculpa, mas eu vejo sempre uma folha de papel quando escrevo!). Distância aliás fictícia, pois nós estamos sempre a dialogar pelas muitas linhas com que se cruzam os nossos interesses e pela estética que partilhamos, pelos fogos que nos incendeiam, pelas manifestações de arte diversas em que os nossos olhares se prendem num mesmo alvo.

Poetas, cantores, cineastas, filmes, obras literárias e momentos da vida social e política da nossa aldeia cada vez mais global acabam por atrair as nossas atenções e assim nos encontramos à porta das palavras, de um conceito, ou de um(a) artista que ambos admiramos ou procuramos conhecer melhor. O processo criativo é um parto. Um parto sofrido. Acho que já tenho partilhado esta angústia contigo. Não é um parto rápido, daqueles em que as águas rebentam e tudo se resolve em minutos, mas antes daqueles em que as contrações duram mais de 24horas e a pessoa vai sofrendo, acocorada, acordada, esperando o momento da libertação, assobiando e trauteando canções.

Um parto de primípara, no caso da escrita, ainda que se tenha já alguma experiência, cada novo texto, cada linha, é um mundo novo que se abre e as experiências passadas são só memórias irreplicáveis e romanceadas pela distância no tempo. Falo por mim, claro. Coisa curiosa, sabes que eu sou atenta a pormenores: quando escrevia “caso”, inadvertidamente surgiu a palavra “vaso” no ecrã… então fiquei a pensar se a escrita não terá também alguma autonomia e se não seria melhor deixar ficar essas palavras que não escolhemos, vendo que histórias elas nos poderão contar…um dia eu faço isso, vou ousar enviar-te um texto não editado, com todas essas gralhas, para ver que enredos se desenham no meio da inexatidão desse português coxo que se escreve sozinho. Deixar de policiar as palavras e que elas se desnudem despudoradamente diante de um (im)possível leitor (só teria coragem de fazê-lo contigo, creio eu, pois saberias encontrar nessas palavras mancas outras histórias por contar).

Agora, tentando ser mais pragmática, lembro-me sempre daquela frase do meu irmão, que é esta: “semeia-se todos os dias mas só se colhe de vez em quando”. (Se me repetir, avisa, estou a chegar àquela idade interessante em que se contam as mesmas histórias vezes sem conta e parecem sempre novas e divertidas!). Eu ainda estou no tempo de sementeiras que desejo férteis, esperando uma colheita que tarda. Por vezes, o desânimo instala-se, momentaneamente, para logo dar lugar a um novo alento. Também te acontece? Também te questionas se estás no caminho certo?

E aqui chegamos à literatura, ao lugar onde a encontraremos. Diz à tua professora que a procuramos todos os dias e que com ela nos esbarramos seguramente sem mesmo termos consciência disso.

Eu encontro-a no homem que lê o jornal desportivo no café, na mulher que desenha na bula de um medicamento, no casal de idosos que se amparam caminhando devagar pela traiçoeira calçada portuguesa, mãos dadas e olhar cauteloso toldado pelas cataratas e pela humidade dos dias. Encontro-a no imigrante que vive à margem da correção formal das modernas sociedades com o único fito de dar uma educação aos filhos. No velho que finge que gosta daquele programa de televisão sem conteúdo – que lhe impingem diariamente – mas em cujo sorriso, ausente e vitorioso, se lê uma vida cheia de beleza e detalhes exuberantes. Um velho que não tem medo da morte porque ele é já um pouco a própria morte que se diverte com a mediocridade dos que vivem entre sombras. A literatura mora naquele outro casal improvável preso à rigidez das normas (s)em sentido único, que se apercebe que ser feliz é ter consciência do momento presente. Que sabe andar sob a chuva, andar sobre águas, desfazer-se em desculpas sem mágoas. Literatura é ir além do óbvio, descrever a realidade como se fosse mentira, desenhar mundos insuspeitos, dar voz àqueles que não a sabendo usar, têm algo a dizer. Pintar as árvores de roxo e pôr canários a costurar e macacos a fazerem próteses dentárias. E leões ao volante de um BMW e gazelas a dançarem kizomba. E velhas senhoras com sorrisos dóceis de meninas transformarem-se em sereias. E marinheiros nos saraus de poesia, e prostitutas fazendo tapetes de Arraiolos. E literatura é também procurar Penélopes em cada esquina de uma sombria sala de costura, desfazendo o tempo que teima em cobrar decisões inadiáveis.

Talvez seja um pouco este o lugar da literatura, omnipresente nas nossas vidas, longe dos holofotes e dos circuitos meramente formais de distribuição, caminhos quantas vezes enganosos. Perdoa-me se extrapolei…deixei-me levar pelo teu desafio. Apenas.

A tua última carta foi escrita a 10 de Setembro. Que terás vivido deste então? Que pessoas terás influenciado – positivamente, sempre – com a tua boa disposição, coerência, talento e doçura? Por aqui os meus caminhos cruzaram-se com pessoas improváveis; vou dialogando como posso, aprendendo, inteirando-me de outros mundos. Onde a honra tem um lugar cimeiro, onde a sobrevivência dita as regras e as palavras que usamos, tu e eu, fazem pouco sentido. Só os gestos contam, mundos povoados de rituais e de normas práticas autoaceites e amplamente difundidas.

A arte e todas as suas manifestações estão sempre no meu pensamento, nos meus anseios maiores. Tudo o que eu testemunho e vivo é suscetível de transformar-se em arte também. Tenho amigos que já não querem vir tomar café comigo com receio de se transformarem em personagens meus… brincadeirinha. Eu sei desligar o “complicómetro” quando estou entre os meus.

E agora, meu amigo, mando-te essa imensa saudade que advém, não só da distância, mas sobretudo da suave consciência da ausência.

Quero muito ler-te em breve, tão logo a tua vida cheia to permita.

Um beijo muito grande,
Clara.

Lisboa, 20 de Outubro de 2015.

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conversas epistolares 2

Clara,

Incrível saudade é a que sinto, de nossas trocas, de nossos compartilhares. Dias tão mornos de vida passando, nada muito a me surpreender por aqui. Ruim isto, viver sem aquele pulso vital que faz a gente reluzir mesmo imerso na mais tenra escuridão. Porém, vem você assim para salvar de tais agruras, sorrateira, a me enviar seu feixe de luz e tudo se aclara, Clara!

Por cá, tenho me detido a ler, ler cada vez mais. A leitura, esta prática que me faz sentir coisas tão boas desde muito novo. Tenho lido bastante, livros e revistas que há tempos esperavam meus olhos fumegantes, sedentos, esfomeados. Fico feliz quando consigo prosseguir livremente neste ato. Ando revisitando um pouco os autores russos e alguns norte-americanos. Tenho lido bastante poesia também. Nos últimos meses, li livros fantásticos de autores conhecidos meus, de gente próxima ao coração. São como presentes para a alma.

Clara, você, alguma vez, já sentiu uma vontade imensa de fazer todas as coisas ao mesmo tempo e, ao fim do dia, quando as luzes se apagam, percebe que não conseguiu fazer absolutamente nada? Tenho vivenciado isto não raramente. É de causar na gente uma angústia perfurante. Não sei bem explicar a você como tudo acontece. Sensação de vazio. Chega a ser constrangedor. Um rombo na gente. Acontece mais quando estou pensando em escrever algum texto. Tenho vontade de escrever sobre muitas coisas, e nada. Nada acontece. Uma espécie de desânimo movendo a falta de ação… Uma dor nascendo. Você me fala sobre essa coisa da escrita ser um parto, e eu recordando destes meus casos de momento.

Pois faça tal experiência, Clara. Deite o verbo por sobre a “página” e permita que o texto caminhe sozinho, posto que é, ele, deveras um ser-centopéia, com mil pés, e com vontade própria. Quero ver como fica. Queremos. Estes aparelhos nossos diários, celulares e tablets e outros, possuem dispositivos de coleta que, ao menor descuido, fazem-nos reféns de suas conclusões binárias acerca do que está sendo digitado em seus teclados virtuais. Tudo por uma questão de celeridade. Troço-mania. Mundo que não pode estancar. Humanidade movida a turbinas. Haja pressão.

Sempre me questiono, Clara. Sempre penso que estou gastando tempo demais com coisas que no final não farão sentido algum para mim. Sempre paro e reflito: preciso mudar. Mudo, nem sempre o tanto que eu queria. Insisto em outras, dou de cara contra a parede, esbofeteio muros duros. Sangro. Se certo ou errado, o caminho, complicado inferir. Tenho constantes desejos de parar com tudo, de desviar a rota geral e pegar o caminhozinho mais vicinal, aquele de terra batida, andar para dentro dos matagais de nós todos. Descobrir as fontes. Vezes, bate um medo. Fiz isso algumas vezes e me observo no agora. Certo é que somos feitos de escolhas. Algumas, é claro, precisam esperar. Apesar de muitas vezes me sentir triste por tais afetações sensoriais, sou alegre e esperançoso. Consegue entender o que lhe digo?

Já falei a você, Clara, para não tecer este tom de perdão entre nós dois. Perdão, pelo quê?! A descrição que você fez sobre o lugar da literatura no mundo foi fantástica. Motes são para geração de outras estórias. Confesso que li, reli, treli, em consonância com suas palavras tão bem postadas. A literatura habita vários recantos. Habita todos os cantos. A literatura está em tudo. A literatura não está em tudo nem possui um lugar no mundo. Encontra-se, ela, em nossos olhos, retinas. Muito, muito clichê tudo isto, mas não menos verdadeiro.

A solidão me tem sido companheira desde o dia em que nos falamos, Clara. Uma solidão de andar só em muitos momentos, caminhar caminhos escuros, que só você pode trilhar, sem poder contar com o apoio de mais ninguém. Solidão de deixar que coisas sem brilho nos abatam. Amigos me faltam. Outros me suprem. Pouco contato social, alguns alívios ali ou acolá, mas nada muito de alterar rotas dentro de mim. Porém, nada que possa me deixar inútil. Sou castigado pelo tempo que me fiz descobrir ao longo de meus 31 anos de idade. Já sei me aparar em pedras pontiagudas quando esboço uma queda de grande altura. Muitas coisas andam me podando as asas. Todavia, possuo-as. E é bom saber que as possuo. E, depois, os dias passam e tudo muda. A gente sabe.

Meio silencioso na noite descida, despeço-me por hoje.
Amanhã é uma segunda-feira e tudo se renovará. Até a fé.

Beijos agrestinos,
Viana.

Caruaru-PE, 08 de novembro de 2015.

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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.

* Imagens de Cristina Seixas.

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

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