Morre Alberto Guzik

O Teatro se despede de um de seus grandes nomes, o ator, diretor escritor, dramaturgo, crítico teatral e jornalista Alberto Guzik. Aos 66 anos, ele lutava contra um câncer no estômago e permanecia internado desde fevereiro deste ano. Morreu na manhã de sábado, 26 de junho, no Hospital Santa Helena em São Paulo. O Página Cultural tem guardada entrevista feita com Guzik, pelo nosso colaborador à época, Walber Schwartz. Voltamos a publicá-la agora, em homenagem a esse importante homem do teatro.

albertoguzik

Publicado em 30/01/2009

A FERA, ALBERTO GUZIK

Dramaturgo, escritor, crítico de teatro e ator – provavelmente esquecemos alguma coisa – Alberto Guzik, tem 65 anos de idade e 60 de teatro. Desde 2005 integrado à Companhia de Teatro Os Satyros (na Praça Roosevelt, centro de São Paulo), fala com nosso colunista Walber Schwartz, em um momento da carreira em que tem se dedicado mais à sua primeira paixão, o palco, como ator; além de participar da coordenação de uma jornada anual de 78 horas ininterruptas de teatro (é isso mesmo, peças às 3 da tarde ou às 6 da manhã, sem parar), vai estrear um espetáculo em dez dias e confessa: “Acho que nunca mais faço um monólogo na minha vida”.

Uma das coisas que mais me chamam a atenção na carreira de Alberto Guzik é a total ausência de comodismo. Seu espírito dinâmico e capacidade de auto-reinvenção, sempre o mantiveram com os pés no contemporâneo, no agora, renovando, ousando, correndo riscos; uma disposição impressionante para chutar as bordas da zona de conforto, uma inquietação de garoto no melhor estilo “pedra que rola não cria limo”. A primeira pergunta que fiz a ele foi:
“O que você escreveria de essencial em uma suposta ‘carta ao jovem dramaturgo’?”
A resposta? Sinto muito, jovem dramaturgo, tentei facilitar sua vida, mas Guzik, com muito bom humor, me devolveu uma pergunta:
“Você quer um resumo de 60 anos de carreira?!”.
É, eu queria sim. E espaço a gente daria, com prazer. Mas de fato isso é assunto para mais um livro (já tem 5 publicados e 3 inéditos), ou para uma tese de doutorado (títulos não lhe faltam), nada que possa ser feito entre um ensaio e outro, convenhamos. É preciso tempo, concentração e esforço; reconheci e fingi que aceitei. Mas, devagarzinho, mineiramente como estou aprendendo a ser, consegui pinçar algumas mensagens valiosas, acredito que sim. Leiam as linhas e as entrelinhas dessa matéria, jovens dramaturgos & amantes do teatro em geral, trata-se aqui de uma sumidade no assunto; às vezes irônico, às vezes ácido, constantemente simpático, o fino do bom humor – aliás, nos sessenta e cinco minutos de conversa que tivemos (!), e apesar da seriedade com que ele trata o tema da sua vida, não foram poucas as risadas. Guzik às vezes é cético também, mas sempre com uma direção a apontar; não é do tipo que se deixa paralisar pelo caos, ao contrário, faz de uma aparente desesperança na humanidade o combustível para continuar produzindo, como quem dissesse: perdido por perdido, faço o melhor que puder.

Com vocês, a entrevista que tive o prazer de fazer com esse grande contador de histórias, uma das figuras mais queridas e respeitadas do teatro nacional, A FERA: Alberto Guzik.

WALBER SCHWARTZ: Do alto desse mirante privilegiado que você conquistou, pergunto: que teatro brasileiro você vê hoje? Em que grau evoluímos ou nos viciamos? Falo de entraves e conquistas.

ALBERTO GUZIK: Olha, Walber, quantos anos você tem?

SCHWARTZ: 40.

GUZIK: Ah, então você pegou uma excelente fase do teatro brasileiro. Evoluímos, sim, e com qualidade. Veja, há 30 anos tínhamos não mais que 100 espetáculos acontecendo em São Paulo simultaneamente, hoje esse número, no mínimo, triplicou. Acho que até mais se considerarmos todos os eventos com características cênicas; lembrando que as artes cênicas são: o circo, a ópera, a dança e o teatro. Há quem diga que a música tem componentes cênicos, eu entendo, mas a interpretação ou encenação que um músico faça em seu show – e sei que tem muita gente usando recursos cênicos na música – serve para enriquecer, sem dúvida, mas não transforma um show musical em arte cênica, necessariamente. Diferentemente da ópera, onde a representação é essencial. Portanto, excluindo os eventos predominantemente musicais, não cênicos, digo que evoluímos muito, sim, com certeza.

SCHWARTZ: Até porque não há, necessariamente, uma queda da qualidade de uma apresentação musical quando essa é gravada, por vezes ocorre até o contrário, já com o teatro…

GUZIK: Ah! Teatro gravado é uma porcaria.

SCHWARTZ: Não tem jeito, né?

GUZIK: Olha, Walber, vale como registro, como documento, mas isso é outra coisa. Na Europa é costume gravar espetáculos e eu acho ótimo que seja assim, porque pela característica efêmera do teatro, essa é a única forma de você ter acesso a grandes montagens históricas; é material de estudo. Mas não é teatro. O teatro é um grande acordo entre o dramaturgo, o diretor, os atores e a platéia. Ele é instantâneo, cada espetáculo acontece uma única vez, de forma definitiva, e durante uma temporada longa, por exemplo, há grandes variações entre uma apresentação e outra.

SCHWARTZ: Então, apesar de toda a evolução das mídias, TV digital, Mp4, internet banda larga… nem mesmo transmissão online daria jeito?

GUZIK: Não. Teatro só ao vivo.

SCHWARTZ: Bom, aproveito para entrar na segunda parte da pergunta. Conquistas tivemos, sem dúvida. E os entraves para uma expansão maior, quais são? Embora tenha ficado claro que a platéia ao vivo não seja um entrave, propriamente dito, e sim uma condição para a existência do teatro, não há como negar que o acesso do público ao espetáculo é um elemento limitador, a maior parte do que se produz fica nos grandes centros, não viaja, e nem sempre os amantes do teatro podem se deslocar, ou residir, nesses lugares.

GUZIK: É verdade. Nesse caso o maior entrave continua sendo o de sempre: falta de uma política pública séria e consistente para o teatro. Recentemente conseguimos viajar com “Vestido de Noiva” (Nelson Rodrigues) por 5 cidades do interior de São Paulo, via incentivo do governo do estado, mas aí entra outro problema: a falta de infra-estrutura na maioria das cidades do interior. Tivemos que nos apresentar em auditórios e até numa boate adaptada.

SCHWARTZ: É fato. Tivemos aqui em Uberlândia, duas vezes, aquele monólogo fantástico do Gogol, Diário de um Louco, com o…

GUZIK: Diogo Vilela.

SCHWARTZ: Isso. Da primeira vez não tinha ar condicionado. Imagina, ele com aquelas roupas de inverno pesadíssimas, típicas da Rússia, num ambiente fechado, com um ventilador barulhento ao fundo que quase o fazia ter que gritar. Ele não teve dúvidas: mandou desligar o ventilador e transpirou a peça toda. No final, fez um apelo às autoridades locais para providenciar um ar condicionado para o teatro. Foi atendido e convidado para a inauguração. Ou seja, a classe artística tem que fazer pressão.

GUZIK: Sem uma política pública séria, estruturada, o problema vai continuar por muito tempo.  Quase ninguém consegue viajar com uma companhia de teatro, não há recursos, só quando entra um grande patrocínio, e isso é para poucos. Olha, o Paulo Autran viajou com “Liberdade, liberdade” (uns 8 atores), “Édipo Rei” (uns 12 atores), mas produziu do próprio bolso.

SCHWARTZ: Como é que é?

GUZIK: Isso mesmo. Ele tinha uma idéia, uma peça, ia ao gerente do banco dele e pedia um empréstimo.

SCHWARTZ: Pessoal?

GUZIK: Sim.  Bancava a produção, negociava com a bilheteria e pedia apoio de companhias aéreas, hotéis etc.

SCHWARTZ: Inacreditável. E o que mais em termos de entraves?

GUZIK: Ah, tem algumas coisas que eu não entendo. Outro dia comprei um pocket book daqueles da (editora) L&PM : “Literatura Brasileira: Modo de Usar” do Luiz Augusto Fischer. Tem lá algumas páginas onde ele faz questão de expor a visão que tem sobre o teatro brasileiro: absolutamente indigente; fala de alguns dramaturgos e praticamente desqualifica o nosso teatro. Pior, não menciona Jorge Andrade. Daí me pergunto: como é que alguém pode falar (bem ou mal) de teatro brasileiro sem falar de Jorge Andrade?! Muito estranho. Absurdo.

SCHWARTZ: Ah, a crítica…

GUZIK: Teve uma crítica famosa aqui de São Paulo que quando soube da instalação d´Os Satyros na Praça Roosevelt, um lugar então povoado pela prostituição e pelo varejo do tráfico de drogas, disse: “Vocês estão loucos?! Vocês estão abrindo um teatro num lugar onde eu não ponho os pés!”

SCHWARTZ: Isso foi em…

GUZIK: 2000.

SCHWARTZ: Não é exagero dizer que Os Satyros – e depois os Paralapatões – salvaram a praça.

GUZIK: É verdade. O tráfico praticamente desapareceu dali, assim como a prostituição, pois são atividades que não convivem bem com a atividade social mais intensa, que foi naturalmente gerada no local a partir dos teatros e todos os bares e lojas que abriram ao redor. Há até o caso interessante de um pequeno traficante que virou nosso guardador de carros, cooptado pelo Ivam Cabral, um dos fundadores.

SCHWARTZ: Bom exemplo para quem ainda não entendeu o papel social da cultura.

GUZIK: Mas acredite, ainda há morador da vizinhança que reclame;  preferiam o tráfico e a prostituição que, uma vez trancados dentro de casa, não viam nem ouviam.

SCHWARTZ: Impressionante como esses vizinhos lembram a personagem do monólogo que você está ensaiando. Vamos falar um pouco dele?

GUZIK: Vamos. Mas, olha, acho que nunca mais faço um monólogo na minha vida…

schwartz

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3 Comentários

  1. soube da notícia bêbado, acho que o mestre gostaria de ser sabido assim.
    não paseei minha retinas pelas do Guzik, conheci sua voz pelo monitor, na realidade conheci o trampo e adjacências do cabra pelas suas mãos, xuartiz, foi, foi sim… é isso, as pessoas morrem.
    foda!

  2. Sem dúvida alguma foi o Página Cultural o veículo que deu o maior espaço a essa última aventura dA Fera: voltar aos palcos depois de tantas décadas sendo crítico – ou, como ele gostava de dizer: “deixar de ser pedra pra virar vidraça”.
    Aliás, poucos veículos que noticiaram sua morte incluiram o Monólogo da Velha em seu obituário. A Folha deu; Estadão, onde trabalhou por anos, não. Ninguém mais se surpreende com isso, aceitamos como fato consumado que se o 3º colocado do último BBB morresse hoje, a cobertura seria maior e melhor. Que se dane. Fizemos cá a nossa parte. Se bem ou mal que julgue o leitor. Sei que dessa entrevista em diante, Guzik e eu nos conhecemos pessoalmente, assisti seu último trabalho, tivemos algumas conversas e certamente ele gostou muito dela.
    Nesse momento, não consigo lê-la, muito menos avaliá-la. Ao tentar cometi um erro, li a última frase onde ele dizia: “acho que nunca mais faço um monólogo na minha vida…” e isso me entristeceu profunda e sinceramente.
    Agradeço a vocês, Sérgio e Lilian, pela surpresa dessa homenagem ao querido Alberto Guzik. Sei que falo em nome dos admiradores, alunos e amigos todos: muito obrigado.

    Um abraço,

    Walber

  3. Prezado Walber. Você é uma “figura” admirada por nós do Página Cultural e por tantos outros leitores que tiveram o prazer de ler seus textos e suas entrevistas. Agradecemos cada linha sua e reforçamos a importância da sua participação no nosso site.

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