Epicuro em meu jardim (do desejo)

A poesia deveria vir até mim como num ímpeto. Deveria vir inominada, como no gozo. Apenas o estado em que o corpo se concentra em um único sentido, o tato. Mas a poesia vem até mim dilacerando toda a minha estrutura. Costura-se em minhas artérias e vaza pelos meus olhos, pela minha boca, pelos meus dedos. Todos os sentidos se perdem e se reencontram. A poesia me toma, me assalta, antecede o meu desejo. Eu só tenho desejo no poema.

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância…

Ele havia tomado o meu corpo. Montado sobre mim como monta o cavaleiro a besta, como vence o dragão, o santo. Tocou-me o seio, mordeu-me o bico do mesmo, como se buscasse o leite materno que nunca havia ofertado a criança alguma. Seu queixo quadrado percorria as alamedas da minha carne. Suas mãos enormes mediam os espaços métricos do meu corpo. Em cada canto uma fruta para ser auspiciosamente devorada. Eu estava entregue a sua vontade. Buscava o prazer que adivinha do seu balouçar dentro de mim, a sua entrada, e a sua saída. O seu domínio dos meus espaços mais recônditos. Ele vinha para dentro de mim como vinha à praia as ondas. Maré alta. Eu sentia o cheiro dos peixes, a maresia. Todas as naus que partiam e voltavam. Então me viera à mente aqueles olhos, aqueles dois grandes olhos de onda. E ele dentro de mim, perfurando a minha caverna de mádidas frescuras, tomado por certo langor, desabou sobre o meu corpo, quando o líquido viscoso e branco havia sido expelido do seu órgão. Eu havia perdido o momento do gozo quando lembrara daqueles dois olhos. O prazer me fora negado mais uma vez. Eu estava morta.

Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.

A poesia deveria vir assim, como no gozo, um momento de luxuria e morbidez, mas não deveria conter no ato a solidão que precede o gozo. Não deveria conter a melancolia que nos afasta do outro quando os corpos já exauridos desmoronam como montanhas sobre os lençóis e todas as forças se esvaem, todas as forças viram lembranças do que fora antes. Da pica rija, da buceta molhada. Dos gemidos, dos gritos, dos tapas, dos arranhões.

– Eu não sei o seu nome. – olhava-me de soslaio ao meu lado na cama. Eu estava fitando o telhado luxuoso do motel enquanto fumava um cigarro de maconha.

– Hedonê. – disse-lhe entediada.

– Hedonê? – indagou-me como se esperasse de mim a afirmação de que meu nome era mesmo aquele. Eu continuei calada fumando o cigarro e olhando para o teto. – Hedonê como a filha de Eros e Psiquê? – reforçou a pergunta utilizando novos argumentos.

– Sim. – a palavra deixou os meus lábios com um intenso gosto de sangue. Eu deveria estar sangrando por dentro. Sangrando por dentro da alma. Eu deveria estar mesmo morta, o prazer me fora negado mais uma vez. Eu havia lembrado daqueles olhos, não deveria ter lembrado daqueles olhos.

Ele se foi e levou consigo a minha poesia, a minha dialética lírica. Um poeta sem musa é um poeta morto. Eu estava morta.

– Você estava pronunciando algumas palavras enquanto fodiamos. Eram frases como versos de algum poema. – disse-me fazendo com que eu me lembrasse do poema que tentava recitar enquanto ele me penetrava.
– Sim, é um poema. – eu estava morta. A minha voz custava em sair da minha boca.
– Qual poema é? – perguntou-me.

 Oh deus!… quanta inconveniência. Ele não poderia calar aquela boca suja que há minutos atrás havia usado para beijar os meus grandes lábios. Oh, deus, o que ele queria de mim?

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo

Ao invés de ganir diante do Nada.

– Nossa, fantástico. Não sou muito de ler poesia. Eu não entendo muito bem o que um poeta quer dizer, quase sempre eles usam palavras difíceis. Não sei, eu não sou muito chegado a esse tipo de leitura.

Céus, será que ele ao menos lia?

– A poesia é um estado de alma, é um momento fotografado pela sensibilidade do poeta, quem não consegue encontrar essa tal sensibilidade como leitor, não consegue alcançar o poema, mesmo que esse alcance não se dê como se dá ao poeta.

– É por isso que dizem que só os poetas leem os outros poetas. As pessoas preferem romances, contos. Eu por exemplo, gosto de romances eróticos. Não leio muito, mas quando leio, só leio os eróticos.

– Você lê Sade?

– Não, nunca ouvi falar. Mas, me explica, por que os poemas são tão difíceis de serem entendidos? O poeta não deveria ser mais conciso, não deveria usar palavras mais conhecidas? Isso talvez atrairia mais leitores para ele.

– Cada um escreve como bem entende. Há os poetas que estão preocupados com o número de leitores. E há os poetas que escrevem por necessidade. Uma necessidade que vem de dentro. Eu sou dos poetas que escrevem por que sem a poesia eu não seria nada, o fato da minha existência não seria o suficiente para mim.

– Então você escreve?

– Escrevo. – escrevia. Desde que ele se foi, não sei mais o que é pegar um lápis ou uma caneta e escrever na folhe de papel algumas palavras. Perdi a minha sensibilidade na sua partida. Ele se fora e levara consigo o que eu tinha de melhor, a minha poética, o motivo da minha existência. O que eu era agora? Algo que se movia pelas esquinas da vida sem saber para onde ir, o que buscar.

Buscar? Há muito eu estava buscando o prazer que me afastava da dor, o prazer que vim a perder quando lembrei aqueles olhos. O ato sexual me afastava da minha condição de ser. Eu estava há dias fodendo com o primeiro que achava nas ruas. Às vezes me aparecia um tipo bonito e inteligente, outras vezes me aparecia um tipo como esse inconveniente, mas gostoso.

Ao chegar a minha casa, fui até o som e liguei-o. A música entrou levemente pelo meu ouvido. In the day, in the night say it right, say it all. Ela me trouxe aquilo que o homem há horas atrás não conseguira me dar ao me penetrar. Ele não conseguira atingir a minha alma com a sua carne. Eu estava buscando aquilo, um prazer que me levasse de encontro à saúde do que eu chamava de alma. Duvidei da existência dessa coisa que estava atrelada aos sentimentos por muito tempo, mas depois que o tive, depois que ele viveu comigo e ocupou meu coração, eu tive a certeza que dentro de nós existia qualquer coisa que nos movia em direção aos instantes de felicidade da vida, não como uma força motora que move o corpo, mas como uma coisa que vai de encontro à outra coisa que a supere, que a transborde. Alma para mim era um mistério ainda, eu sabia da sua existência, sabia que estava ligada as coisas mais doces que a vida podia nos oferecer quando não estava a nos impor condições em circunstâncias diversas. No momento da música eu era qualquer coisa que se movia no nada em busca desse reencontro, desse manifestar-se dentro de si mesmo.

Alma é um campo florido como um jardim. Em cada alma estão plantados os mais diversos sentimentos e sensações. Era assim que eu sentia dentro de mim, um jardim florido, repleto de emoções e desejo, o desejo que me movia onde havia prazer e que repelia todo e qualquer manifesto de dor. Sentimento equivocado para um poeta, que ao buscar sentir, sentia não só a própria dor, como também a dor do outro. Mas isso não impedia a minha calmaria e felicidade, pois no ato da escrita toda a dor era dispersada e transformada em palavras, em um poema firme, forte como um vendaval. O poeta é um ser que carrega tempestades nos olhos, mas que mesmo taciturno e voltado para si mesmo, sente as coisas da vida com mais intensidade, dor e prazer, as coisas que lhe trazem prazer o atraem, as que aproximam-no da dor também, mas nada disso impede a sua felicidade quando ele tem o poema. Mas perdido o poema, só o prazer pode salvar um poeta. Era isso que eu estava buscando: O prazer.

Levantei vagarosamente os braços para sentir o som da música que alcançava meus ouvidos. Há, que prazer eu via naquele movimento. Senti o absoluto dar voltas por sobre a minha cabeça, e aquilo me arrancou do momento que antes eu havia perdido para eu reencontrá-lo. Talvez aquele fosse o meu momento de transcender, e foi. Quando eu deixei que a minha fraqueza fosse nada mais que uma das minhas virtudes, a poesia me veio como num sopro de vida. Antes que a música pudesse terminar, e que eu perdesse aquele momento. Corri para o quarto e peguei uma folha e um papel. As letras escorriam das minhas mãos como se eu sangrasse. As lágrimas também espocavam dos meus olhos, queimavam a minha face como lava. Meu deus, eu estava dando vida a um…

Isto de ser eu mesmo
Quando rios de lava serpenteiam em minha carne
E o faro descontente, busca fomes de amavisse. 

Isto de rutilar,
E deixar o sangue escorrer das feridas abertas,
Vociferar Nomes outrora impudicos.

Isto de ser e rutilar
Quando não obstante a carne, a alma
Se revela um arco-íris sonoro sob águas forjadas.
Pedra. Planta. Palavras líquidas! 

Poema. Eu havia escrito um poema desde quando ele se foi. Já fazia um ano que ele havia partido, e só depois de uma noite de sexo mal feito e uma música que tocou no rádio eu escrevi um poema. A felicidade me assaltou, e por um momento eu tive a certeza de que havia retomado no instante, a minha dialética lírica. Eu estava ressuscitando aos poucos. Eu só precisava buscar qualquer coisa que não me desligasse daquilo…

Marcos Welinton Freitas

Marcos Welinton Freitas

Baiano do Bravo/Serra Preta. Graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Escritor: poeta e contista.

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