Errática

I

Poesia errática. Caos na cidade do sol.
Os filhos da burguesia são mais brasileiros
Que nós, poetas!
O poeta é um Proteu nu. Oráculo de porcos,
De pobres e esfomeados.

Eu tenho ânsia de devorar a vida num só ato de independência,
Livrar-me do não ser de cada dia,
Jornais blindados, enquanto os paquidermes
E os engenheiros do diabo vão as ruas
Em carros de fogos, alegorias muitas,
Alegorias futurísticas do país dos sonhos.

Quando dou por mim no meu quarto perco a dinâmica
Social, matinal, horrorizado com o mundo.
Caos na cidade do sol. No berço onde dormem andorinhas
(Andorinhas são o mais próximo da poesia viva – mas toda poesia vive, como ostra no fundo do oceano, carregada de pérolas nos lábios. A poesia é uma vênus que brota das profundezas do meu órgão sexual. A poesia excita como se fosse um cu).
O caos, o ser e o mundo. Três coisas que eu gostaria de pontuar antes de ir a rua
Gritar o inconsciente martírio dos que não sofrem.

Vamos assistir a um filme trash. Vermes no porão da minha casa cantam melhor que o coro de idiotas que profanam imbecilidades a impudicícia da vida dos santos pastores evangélicos, cristãos, umbandistas, religiosos, todos os religiosos, algemados e abatidos como cordeiros (são lobos) numa matança de inocentes e coitadistas.
O lobo sai às ruas para gritar a sua injúria.
Mil línguas cortarão o céu,
Talvez esse seja o momento para usar a metáfora
– Metal contra as nuvens.

Poesia errática, tu não deverias ter sido
Homossexual, hippister, preto,
Não deverias dizer cu, pica, boceta,
Nem santificar putas que já levantavam as saias antes que tu tivestes nascido,
Nem glorificar o nome de um viado que só pensa em dar, só pensa em dar,
Só pensa em dar
Lição de moral na sociedade feudal, feudalismo nos dias de hoje
É ir as ruas esbravejar contra nada, nada.
Interesse próprio. Smith poderia salvar o mundo? Não, Keynes poderia salvar o mundo.

Caos na cidade do sol.

Eu queria descer as esquinas e entrar numa catedral. Saber de deus, das minhas intuições. O que eu deveria fazer, sou mais uma bebê chorona. Fêmea-macho das eras que nasceram em meu corpo. Além das montanhas de Hercules. Além do meu intenso erotismo.
Tu poderias me tomar e babujar todo o meu corpo. Orgia verde e amarela. Tomem a minha carne. Devorem-me num prato de ostras, numa cesta de cajus, como cavalos demoníacos, embevecidos, drogados…
A sociedade vai me estuprar quantas vezes for necessário,
E eu nunca deixarei que morra o meu rouxinol.
Sou um Proteu nu, Proteu, oráculo.

Marcos Welinton Freitas

Marcos Welinton Freitas

Baiano do Bravo/Serra Preta. Graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Escritor: poeta e contista.

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