Escrever é um parto

Sento-me aqui para escrever, na ânsia de descobrir o que eu ainda não sei. Uma sensação de desespero misturada com a exaltação do novo. Eu de fato não sei nada, além dessa vontade, talvez necessidade, que as vezes soa como um instinto. É algo querendo sair, existir, além de mim. É o parto das palavras. É o nascimento das histórias. É o encantamento da vida, que transborda.

Fecho os olhos, a procurar o alvoroço que desinquieta meu sentir. Lá do fundo, parece vir correndo e gritando: “Sou eu! Sou eu!” – e então, as primeiras contrações. É o aviso da existência mais generosa, a dor. As palavras doem! E comigo, o sofrimento de dar à luz. Iluminar o que vem de mim, mas que não é só meu, tem o direito de viver e existir em outros âmagos. Como, uma mãe amorosa, a ansiedade de conhecer seu filho supera a dor de concebê-lo. E assim, passa a ser, da dor, a alegria.

Quando olho, começo a reconhecer os traços. Tem algo a ver com o tempo! Ah, meu filho já nasce sendo senhor! Começo a sentir as responsabilidades da criação. O medo de não saber contribuir para o desenvolvimento daquilo que é cheio de potências. Mas, assim como os filhos, os pais não nascem sabendo de tudo. É o tempo que nos presenteia em conhecimento. Por isso, depois de um tempo, escrever se torna mais brando. A mãe que nasceu no primeiro, já era mãe quando teve o segundo, e o terceiro, e o…

A experiência se dá no olhar daquilo que se vive, é como você sente a experiência de viver. Experienciando a escrita, você descobre que nas palavras estão contidas tantas coisas, que as vezes não são necessários textos enormes para dizermos o que queremos e o que sentimos. Se nessas várias ou poucas palavras escolhidas, refletir de fato o que se é verdadeiro em nós, não importa o refinamento ou o tanto de linhas, elas dirão o que é preciso contar para o mundo. Por isso, penso que um escritor não se faz encantar pela sua ortografia, mas por aquilo que é sentido. Então, assim como escrever é um parto, eu parto das palavras.

Camila Reffatti

Camila Reffatti

Sei que quando sinto, eu sou. Então vou sendo agora, depois agora no futuro, mas nunca esquecendo do agora que já foi. Vou sendo, até que não cabe mais ser agora.

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