Anúncios espontâneos
Em Uberlândia não é necessário ir a um museu para apreciar uma produção visual significante. Uma caminhada, ou um passeio de bicicleta, pelos bairros Brasil, Morumbi ou Aparecida é suficiente para nos proporcionar uma experiência estética diante dos mais variados anúncios espontâneos pintados nos muros e placas.
Elaborados com grafias estranhas e desenhos instigantes, as placas e os muros pintados, expressam um elaborado modo de operar com os elementos visuais. Se analisados, sem o preconceito da idealizada erudição, podemos notar que tais anúncios informais foram produzidos a partir de escolhas que são de ordem estética: uma cor brilhante , uma letra caprichada para causar boa impressão, um desenho elaborado.
Mas, o melhor de tais pinturas está justamente no seu amadorismo que não permite automatismo algum: cada traço, cada forma, é fruto de muito, muito esforço.
E também a ortografia dá inveja aos amantes da poesia visual. Outro dia, do ônibus, pude ler em um muro: SOLDA A DOR. Escrito assim com o -A- repetido no meio . Sim. Um soldador , anunciando seu oficio, de modo poeticamente intenso.
Claro que para desfrutar de tais “obras” precisamos estender nossa concepção sobre o que pode ser definido como artístico. E assim, ao ampliar nossa percepção, estaremos aptos a apreciar imagens que estão para além da oficialidade dos museus de arte. Uma forma de desfrutar a visualidade em muitas regiões do Brasil , onde a manualidade de pintores e suas ações estéticas estão incorporadas nas mais variadas ações do cotidiano.
As fotografias aqui apresentadas são de minha autoria e mostram algumas dessas imagens espontâneas urbanas. O mambembe display “estofados” foi construído por um tapeceiro do bairro Fundinho e lembra muitas obras do artista Marepe . Já a pintura “luzes”, de um salão de cabeleireiro mais distante, é bem descritiva: observem que idéias, quando se adensam, pululam da cabeça .
Luciana Arslan - Artista e pesquisadora, reside em Uberlândia, onde é professora do Departamento de Artes Visuais da UFU e responsável pelas ações educativas do Museu Universitário de Arte de Uberlândia-MUnA.
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Gostei demais, vou buscar este olhar.
Realmente essa visão artística de uma cidade tão ínsípida só poderia ser focado por ema expert.
Você é.
Bacana mesmo. Já conhecia esse seu apreço pela arte não-normatizada, e apoio. Se me permite uma sugestão de pauta, eu queria muito – mas muito, mesmo – que, à exemplo da sua São Paulo, proibissem aquelas faixadas de lona com fotografias e cores berrantes no comércio do centro da cidade. Tem uma, em um self service em frente à Cafeteria da Praça da Bicota, que ostenta uma feijoada e um pedaço de carne, gigantes e coloridos, à qualquer hora do dia ou da noite.
Lembro do desgosto que senti ao sentar numa daquelas mesinhas externas da discreta e charmosa Cafeteria para tomar um café, às 20h num sábado, e me deparar com essa imagem completamente deslocada do momento. Experimente tomar um macchiato olhando para um cupim assado, depois me diga o que acha.
Um abraço.
Muito bom! Tomando emprestado do Antunes – outros olhares melhoram o seu, o seu olhar melhora meu, o meu olhar melhora os outros, outros melhoram o meu …………………………………………………………………
Continue nos presenteando!
bjos
Errata: FACHADAS. Credo.