Para nós que inventamos pessoas e livros.
(Essa é uma resposta lírica, sem licença à Renato Cabral)
E se até agora foram tropeços e desacertos, talvez exista um motivo para que tudo tenha dado errado até aqui. Deu errado só para chegar até aqui. Se fosse para trás dessas linhas, talvez, nesse espaço imaginário que traçamos com essa fome de escrever, de fazer essas bobeiras com palavras, talvez não teria valido tanto a pena. Foi só para chegar até aqui. Teve um tempo que vivi, e digo de trás pra frente, pra me fazer entender que o tempo não existe, é imaginação secundária. Teve um tempo que eu vivi numa casa, eu já tinha feridas demais, culpas demais, e fui morar lá pra fugir dessas realidades que as pessoas constróem pra gente. E foi depois que me disseram que eu não sabia amar, que eu não era tão honesta ou gentil com os sentimentos dos outros, aí eu encontrei abrigo e poder de mudança, nessa casa tão grande e ao mesmo tempo tão acolhedora. E não vivi sozinha como precisava ter sido feito, foi com alguém. E eu dizia que eu precisava de remédios, muitos remédios. E ele me dava. E meus olhos brilhavam igual naquele outro tempo, bom, um tempo bem distante. No tempo que você, querido, estava do meu lado, você sabe qual o tempo. E ele não tinha essa casca grossa que eu tinha, e ele não trazia nada demais. Mas era tão familiar e bonito. E aquele bonito não dessa beleza que se vê na TV, era bonito de se olhar e só, não precisava de adjetivos, embora o sorriso fosse o meu reino. Mas eu morei nessa casa por muito tempo, escondida, porque as pessoas de verdade, de carne e osso, não podiam me ver, porque elas me machucavam muito, e ele ali sentado comigo, não. E eu te digo, a respeito dos dragões no paraíso, ele era um, só podia ser o dragão que eu lia sobre e nunca nunca mesmo eu quis encontrar. Não sei se era o meu dragão, ou o dragão de quem descobriu o dragão e escreveu sobre ele, entende? Mas era ele. Palpável e que cuidava das minhas feridas. Aí chegou o dia, tão lindo o dia, deixa eu ver aqui na minha memória se consigo lembrar, se eu nao conseguir vou pedir opinião da imaginação, que ela é mais verossímel que a verdade purinha. Mas bem, então vamos lá. Era um dia cor de anil, daqueles bem azuis, um azul que não existe no vocabulário normal, mas que existe. E foi nesse dia fresco e azulanil que eu me curei. Estou livre, pensei, posso sair correndo e topar de novo toda essa realidade mórbida, que você deixou pra mim, que nada disso vai me fazer mal mais. Mas ali por dentro onde os fios das roupas se entrelaçam e por onde corações ainda batem, ele se despediu, e é muito desconsolador despedir-se de quem nos ajuda, mas ele se despediu, com secura e frieza dos que sabem que não vão existir por muito tempo, não nesse mundo que eu e você conhecemos muito bem, porque vivemos plantados nele a vida inteira. Exceto talvez quando tínhamos treze e o mundo era esse espaço entre o seu braço e o meu, correndo as folhas do livro libertador e libertino, que falava de beijos como as pessoas falam de crimes. E agora me sinto na obrigação de falar a você o que é viver aqui de novo. Porque estou sentida pelo que te aconteceu, e ouvi falar de você por aí, em lugares inventados, por pessoas inventadas, mas preciso dizer que existe algo que liga um tempo no outro, e deixa o espaço mais vivo. Digo então que se existe alguma verdade, essa que nos faz sair debaixo desse manto protetor, quase intrauterino e que atrapalha as vistas, porque você sabe querido, bebês nao enxergam direito. Mas se existe alguma verdade, essa que é um xerox da vontade mórbida de ser verdade, essa que escorrega aos nossos sentidos ainda muito baixos e voláteis, eu te digo agora, na tentativa de te pegar no colo e te levar para esse lugar que você pode ser resguardado de todo mal, exigir rigidez no final, exigir certezas de glória e aqueles sintomas de perda que nos fazem chegar mais perto da morte , fazer isso é se perder da grande beleza de não ser mais. De não ser mais amor. Porque te digo, com mãos maternais, que o não-ser amor é menos livre do que eu imaginava, também dói, e já te disse quando eu lia Cléo e Daniel do seu lado, quando tínhamos treze anos, e nos enfiávamos por dentro das cobertas, e eu lia tão bonito do seu lado, “é o amor o contrário da morte, não a vida, não qualquer vida”, e os meus olhos brilhavam, você se lembra? Porque tínhamos uma certeza fossilizada, um cordão tão forte que ligava a gente, como se você fosse meu filho e eu pudesse dizer coisas doces e você entendia, e como se eu fosse sua irmã, que tentava ser diferente para poder mostrar aos outros quem eu era, mas você se parecia demais comigo. Em algum momento você já não estava ali debaixo das cobertas lendo a vida comigo. E eu nunca mais amei como amei quando tinha 13 anos. E alguém ama?
Rafaella Biasi - Cursou letras e se formou em Design de moda. Escreve apenas para alcançar o alívio, imediato. Conheça também Eu hemorragia.
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