Uma banda do outro mundo (ou porque Syd Barrett enlouqueceu)

Jim tentou abrir os olhos, mas a claridade era muito intensa e ele não conseguiu fixar o olhar por muito tempo. Com os olhos fechados, percebia que algo estava diferente. Não ouvia som algum. Tudo estava muito quieto e ele sabia que Paris não era um lugar tão silencioso assim. Tentou abrir os olhos novamente e, desta vez, conseguiu enxergar, pois a luz já não era tão intensa.
            “Que lugar é este? Onde estou?” – Perguntou a si mesmo.
            Agora podia ver bem melhor e percebeu que estava em um corredor, diante de um portal, sobre o qual havia uma pedra em que estava gravada a seguinte frase:

            “Salão dos músicos mortos precocemente”

            Atendendo a um impulso interno, Jim entrou no salão. O que viu lá dentro o assombrou: pode reconhecer, um a um, os músicos de sua geração, e das gerações passadas, que já não viviam mais no nosso mundo. Janis Joplin foi a primeira que ele viu, estava sentada ao lado de alguns vasos de flores amarelas. Num dos cantos do salão ele viu Jimi Hendrix, que estava em pé, com os olhos fechados, como se estivesse dormindo. Próximo a uma escada, ele viu Brian Jones, que o fitou com um olhar de alegria e tristeza, ao mesmo tempo. Brian foi o único que percebeu a sua chegada.
            Jim podia ver outros músicos que ele conhecera, mas o olhar de Brian chamou a sua atenção, por isso, caminhou até ele e perguntou:
            _ Que lugar é este? Eu também estou morto?

            Ao falar, foi surpreendido pelo fato de ouvir a sua voz como se ela viesse de todos os cantos do salão e não apenas de seus lábios. E foi também assim que ele ouviu a resposta de Brian:
            _ Não! Estamos vivos. Antes é que estávamos mortos! Embora parecêssemos vivos, a maioria de nós estava morta em vida.
            _ Que lugar é este? Insistiu Jim.
            _ Você não leu a placa? Não reconhece todos os que estão aqui?
            _ Mas este é um lugar bom ou ruim?
            _ Não é bom, nem ruim. – Respondeu Brian.
            _ O que se faz aqui?
            _ Nada. Só esperamos o nosso destino.
            Naquele momento, uma voz ressoou pelos quatro cantos da sala:
            _ Jim Morrison?! É você?

            Era Jack Kerouac, que correu em direção a Jim e o abraçou, dizendo:
            _ Agora que você chegou, por que não montamos uma banda? Eu posso escrever tudo o que fizerem.
            _ Podemos fazer isto? – Perguntou Jim.
            _ É claro. – Respondeu Brian, que continuou – Venha até aqui.
            Brian conduziu Jim até uma porta pequena num dos lados do salão, abriu a porta e o convidou para entrar. Ao entrar na sala, Jim viu que era maravilhosa, parecia um conto de fadas. Viu luzes com cores que ele nunca tinha visto antes. Eram cores novas, que não se assemelhavam às que ele conhecia. Naquela sala havia todos os tipos de instrumentos musicais, desde as mais simples e rudimentares flautas de madeira, até os mais sofisticados teclados e sintetizadores.

            Jim, maravilhado, aproximou-se de Jack e perguntou:
            _ Podemos mesmo montar uma banda?
            _ É claro! De acordo com o que nos foi dito, todos que chegam aqui continuam, por um tempo, fazendo a mesma coisa que faziam do outro lado. Alguns nem sequer sabem em que lugar estão agora.
            Jim perguntou a Brian se ele gostava da idéia de montar uma banda. Brian disse que sim e se apressou em convidar Janis e Jimi Hendrix, que concordaram imediatamente. Para o piano eles chamaram Buddy Holly, que estava ali a mais tempo do que eles, embora o tempo ali passasse de maneira muito diferente da que conhecemos. Por sugestão de Jack, convidaram Charlie Parker para tocar o sax alto, ele aceitou. Também chamaram Stu Stucliff para o baixo, ele aceitou, com relutância, pois nunca se sentira realmente um músico. A banda já estava quase pronta: Jim Morrison e Janis Joplin nos vocais, Jimi Hendrix e Brian Jones nas guitarras, Stu no baixo, Buddy Holly no piano e Charlie Parker no sax. Faltava o baterista. Brian Jones sugeriu Carlo Little, mas Jim objetou:
            _ Carlo Little não está entre nós.
            Jack Kerouac interferiu dizendo:
            _ Existem meios para trazê-lo para tocar na banda. Tudo vai parecer um sonho para ele. Lembrem-se de que aquilo que é sonho para nós é a realidade para eles e o que é sonho para eles, é real para nós. Ele vai acordar e dizer: “Tive um sonho no qual toquei com Hendrix, Brian Jones, Jim Morrison, Janis Joplin, Stu, Charlie Parker e Buddy Holly”, nada mal para quem já tocou com Ritchie Blackmore, Mathew Fischer, Jimmy Page, Jeff Beck e tantos outros. Além disso, Carlo Little influenciou e inspirou muitos bateristas britânicos de sucesso, como Ringo Starr, Keith Moon e John Bonham. É só marcar o show que ele vai aparecer.

            Nesse momento, Janis, que ainda não havia dito nada, sugeriu:
            _ Precisamos compor uma canção, um blues, para o show. Quem vai compor?
            _ Podemos trazer o Syd Barrett para compor, ele não está satisfeito mesmo, sei disso desde que tocamos na turnê da Inglaterra. – Disse Jimi Hendrix.
            _ Ele não está mais em condições de compor. Está perdendo a inspiração e, além disso, ele não está aqui. – Objetou Jim Morrison.
            _ Não precisamos trazê-lo do agora dele, podemos trazê-lo de três anos atrás, quando ainda estava em plena produção.
            Assim foi feito! Eles voltaram ao final do ano de 1967 e capturaram o poder criativo de Syd. O que deixaram foi apenas uma sombra incapaz de compor, mas capaz de pintar quadros. Por isso Syd, o melhor e mais inspirado compositor de rock de todos os tempos, nunca mais foi o mesmo e foi considerado louco.
            E, do outro lado, a mente de Syd Barrett compôs o lindo Blues que segue abaixo, com o qual a banda abriu e fechou o show.

NoDrug’s Blues

Peguei minha guitarra e comecei a compor umas linhas
De repente! Tudo ficou escuro e silencioso
Como se algo invadisse a minha mente

Tentei abrir os olhos, mas não consegui.
Cara! Eles querem roubar a minha mente!
Eles querem levar a minh’alma!

Hei Garoto! Não deixe a droga roubar os seus sonhos!
Não morra em um acidente de carro!
Não atravesse a rua descalço!
Eles querem roubar a sua alma!

Hei Garoto! A vida é agora!
Toque a sua guitarra! Faça uma canção!
Seja feliz numa boa, mas…

Não deixe a droga roubar os seus sonhos!
Não morra em um acidente de carro!
Não atravesse a rua descalço!
Eles querem roubar a sua alma!

É isso aí!
Eles querem roubar a sua alma!
Eles querem roubar a sua alma!

No final do show, antes do último solo de guitarra, Mozart e Paganini, que estavam na platéia, subiram ao palco, pegaram as guitarras de Hendrix e Jones, com quem deixaram os violinos, e fizeram o mais belo solo já feito até hoje.

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto - Mestre em Filosofia (Política e Social) pela Universidade Federal de Uberlândia. É autor de “Ensaio Sobre The Dark Side of the Moon e a Filosofia: uma interpretação filosófica da obra-prima do Pink Floyd”.

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3 Comentários

  1. É, ninguém mais digno de receber uma visita dessa em seus sonhos, Syd Barrett foi um do ícones do progressivo. Além de compositor ele ainda era ótimo cantor e guitarrista.
    Apesar de ele nao ter participado de alguns albuns que eu mais admiro do Pink Floyd eu acredito que ele foi um cara extremamente importante para que a banda tenha se tornado o que foi.
    Uma pena ele ter vivido recluso quase metade da vida dele, privando a humanidade de poder conhecer mais algumas de suas composições, ou quadros, quem sabe.

  2. É isso aí Renato! Eu também gosto muito da fase “Syd Barrett” do Pink Floyd e me pergunto o que a banda poderia ter produzido com ele, se ele tivesse suportado a pressão. Mas são apenas conjecturas…

  3. Link para a música Tempo Perdido, do Legião Urbana. Homenagem aos grandes ídolos do Renato Russo, da banda e de várias gerações!

    http://www.youtube.com/watch?v=059HEaYRve0

    Bom demais!

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