Existencialismo, alteridade e o “drama”…

Existencialismo, alteridade e o “drama” da mulher, por Simone de Beauvoir

É dentro de um mundo dado que cabe ao humano fazer triunfar o reino da liberdade; para alcançar essa suprema vitória, é, entre outras coisas, necessário que, para além de suas diferenciações naturais, homens e mulheres afirmem sem equívoco sua fraternidade.

Simone de Beauvoir

O núcleo central das ideias existencialistas está na distinção entre “essência” e “existência”. Contrariando as afirmações dos filósofos que poderiam ser chamados de “essencialistas”, o existencialismo(1) afirma que, no ser humano, a existência precede a essência, pois primeiro o homem existe, e só depois se define, não havendo nenhuma determinação a priori, seja essa de ordem natural ou sobrenatural (metafísica). O dado inicial da realidade humana é o fato de existirmos no mundo e, a partir daí, na falta de um sentido pré-definido, podermos dar um sentido à nossa própria existência. Trata-se, portanto, de uma filosofia da subjetividade que não busca o sentido da existência humana fora da mesma. A vida humana não tem um sentido em si mesma, a não ser aquele dado por nós.

A partir da obra de Sartre, o existencialismo se transformou em uma “filosofia de vida” que influenciou enormemente a mentalidade e o comportamento social no período posterior à Segunda Guerra Mundial, sobretudo nos jovens, como evidencia a citação abaixo:

Declarar-se existencialista implicava um não-sei-quê de provocação, de escândalo. Um pouco como uma rebeldia, uma indisciplina. Sartre narra o episódio em que uma senhora, tendo deixado escapar, por nervosismo, uma palavra vulgar, se desculpou dizendo: “Acho que estou ficando existencialista…”. Não é, pois, sem razão que essa atitude foi adotada principalmente por pessoas jovens, quase que indicando com isso uma diferença de geração. Também não é à toa que, ainda hoje, a mídia costuma associar o existencialismo aos movimentos de mudança de comportamento que então se seguiram, como o beat nos anos 50, o hippie nos anos 60, entre outros.(2)

As críticas feitas à filosofia existencialista de Sartre, especialmente ao seu ateísmo, geraram no pensador um “mal estar” que o levou a escrever textos em defesa do existencialismo. Um desses é o célebre “O existencialismo é um humanismo”, no qual Sartre escreve: “Assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo o homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade de sua existência”. Afirmações como essa acabaram por dar um conteúdo ético e moral à filosofia de Sartre. Ele, porém, evitou a tarefa de escrever uma obra eminentemente ética ou moral. Quem o fez foi sua companheira de toda a vida, Simone de Beauvoir, no livro Moral da ambiguidade. No entanto, é a análise de outro texto de Simone que fundamenta esta reflexão. Trata-se de um dos mais belos textos já escritos sobre a alteridade(3). Simone avalia a categoria do “outro”, sob o ponto de vista da dicotomia homem-mulher, masculino-feminino, que é uma das oposições que marcaram o século XX. O texto começa assim:

A categoria do Outro é tão original quanto a própria consciência. Nas mais primitivas sociedades, nas mais antigas mitologias, encontra-se sempre uma dualidade que é a do Mesmo e a do Outro. A divisão não foi estabelecida inicialmente sob o signo da divisão de sexos, não depende de nenhum dado empírico. (…) Nos pares Varuna-Mitra, Urano-Zeus, Sol-Lua, Dia-Noite, nenhum elemento feminino se acha implicado a princípio; nem tampouco na oposição do Bem ao Mal, dos princípios fastos e neofastos, da direita e da esquerda, de Deus e Lúcifer; a alteridade é uma categoria fundamental do pensamento humano. Nenhuma coletividade se define nunca como Uma sem colocar imediatamente a Outra diante de si. Bastam três viajantes reunidos por acaso num mesmo compartimento para que todos os demais viajantes se tornem “os outros” vagamente hostis. Para os habitantes de uma aldeia, todas as pessoas que não pertencem ao mesmo lugarejo são “outros” e suspeitos; para os habitantes de um país, os habitantes de outro país são considerados “estrangeiros”.(4)

Tomando como base os escritos de Hegel, Heidegger e Lévi-Strauss, Simone prossegue o texto com a análise da alteridade, afirmando a existência, na consciência, de uma “hostilidade fundamental” em relação a qualquer outra consciência. É como se o sujeito só pudesse se afirmar na medida em que negasse os demais. O eu é o essencial, o outro, o inessencial. O “outro”, no entanto, opõe a essa oposição, uma oposição recíproca e o fato é que nenhum sujeito põe a si mesmo como o inessencial. Na dicotomia homem-mulher, o essencial foi deslocado, historicamente, para o homem, passando a mulher a ser o inessencial. Por que as mulheres não contestam a soberania do macho? De onde vem a submissão da mulher? Questiona Simone(5).

Tentando responder a essas questões, Simone de Beauvoir compara a dicotomia homem-mulher a outras oposições, tais como: escravo e senhor, brancos e negros, burguês e proletário, judeus e não judeus e afirma que elas não se dão na mesma ordem, pois as mulheres não estão em desvantagem numérica, como as minorias, nem houve um dia em que tenham constituído uma coletividade separada, sempre estiveram subordinadas aos homens. Além disso, nem sempre houve proletários, mas sempre existiram mulheres e a sua submissão não é consequência de um evento ou de uma evolução, que não aconteceu. Para Simone, a mulher passou a se ver como o inessencial, como objeto. A mulher “é o outro dentro de uma totalidade cujos dois termos são necessários um ao outro”. Nem mesmo, de acordo com Beauvoir, a necessidade biológica, que coloca o macho sob a dependência da fêmea, foi capaz de libertar socialmente a mulher e “em quase nenhum país seu estatuto legal é idêntico ao do homem, e muitas vezes este último a prejudica consideravelmente”. E negar o lugar do outro, para a mulher, pode ser, numa sociedade patriarcal, ainda pior do que aceitá-lo. Longe de querer contribuir para a “guerra dos sexos”, é necessário reconhecer que a atitude de Simone, assim como a de outros expoentes do movimento feminista, foi fundamental para que essa situação, tão deplorável, pudesse ser modificada. Ainda vivemos em um mundo no qual as mulheres são submetidas às mais diversas formas de violência, sofrimento e humilhação, mas é inegável que muitos avanços foram alcançados. Se na lei romana a mulher era considerada “imbecil e frágil”, e na Idade Média, “um animal que não é firme nem estável”(6), hoje, pelo menos, existem leis que garantem muitos direitos antes negados. O melhor seria que vivêssemos sem esse tipo de preocupação, num mundo em que homens e mulheres se harmonizassem, mas, como essa ainda não é a nossa realidade, não podemos ser hipócritas a ponto de ignorar a questão. Concluo este texto com uma breve e profunda citação de Simone de Beauvoir(7), sobre a situação feminina que, no entanto, aplica-se a toda a extensão do termo “alteridade”:

Ora, o que define de maneira singular a situação da mulher é que, sendo, como todo ser humano, uma liberdade autônoma, descobre-se e escolhe-se num mundo em que os homens lhe impõem a condição do outro. Pretende-se torná-la objeto, votá-la à imanência, porquanto sua transcendência será perpetuamente transcendida por outra consciência essencial e soberana. O drama da mulher é esse conflito entre a reivindicação fundamental de todo sujeito que se põe sempre como o essencial e as exigências de uma situação que a constitui como inessencial. (8)

Notas:

1) Existem múltiplas concepções do existencialismo, inclusive o denominado “existencialismo cristão”, mas todas concordam com esses “fundamentos”.
2) MOUTINHO, L. D. S. Sartre, existencialismo e liberdade, p. 11.
3) BEAUVOIR, S. A mulher independente. pp. 26-45.
4) BEAUVOIR, S. A mulher independente. p. 26.
5) Lembremo-nos de que o texto foi escrito no final de década de 1940, quando a mulher ainda não havia conquistado o status social que já conquistou nos dias atuais.
6) Conforme: BEAUVOIR, S. A mulher independente. p. 35.
7) Aos que quiserem aprofundar a leitura de Simone de Beauvoir, a respeito do que foi tratado neste texto, recomenda-se a leitura de “O segundo sexo”.
8) BEAUVOIR, S. A mulher independente. p. 44.

Obs. Trecho (adaptado) do livro: Ensaio sobre The Dark Side of the Moon e a Filosofia: uma interpretação filosófica da obra-prima do Pink Floyd, de Paulo Irineu Barreto Fernandes.

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

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