Felicidade Clandestina

Exorto o título lispecteriano porque não há talvez melhor conto que mostre em como a felicidade é feita de forma sublimemente oculta. Embebedo-me com essa xícara de café preto, tão negro quanto a possibilidade nefasta de olhar para essa janela nublada de uma manhã de sábado e encontrar o medo da ausência. Fosse você peregrino das coisas amáveis, das formas conhecíveis de sorrir ou mesmo apenas de um tempo calmo em que olhar para o céu numa manhã nublada é ver que as nuvens escondem um futuro que hoje é sonho e amanhã vai ser realidade? Enquanto eu, o que sou, nada mais que inúmeras formas de fugir de mim mesmo.

Quem sabe se tivessem me ensinado que acordar daquela forma matutina comum e abrir os olhos como o hodierno faz é tão pacato e monótono que ao menos não nos move impelidos por impulsos maiores que dificilmente controlamos de forma racional e é impossível de encontrar realidade. Há dois lados mormente bons e ruins de querer gozar até mesmo das minúcias ocultas da vida: uma hora ou outra, e de qualquer forma ressalto, perder-nos-emos num abismo profundo de uma tremenda incógnita. Talvez assim eu fosse ao menos aparente feliz, as formas que enganam podem ser ludibiriantes açoites e que nos machucam imperceptivelmente, mas querer ser parte do mundo quando o mundo não lhe deixa ser parte é uma dor roedora cancerígena que não se cura. Volte, peço que volte. Quando estou sozinho eu desejo que minha infância retorne, e não como forma de viver criançado para as coisas infantis e alheio ao que importa; desejo tanto mesmo os olhos findos de ternura para deixar de abraçar a realidade fria como ela é e imaginar que a solidão só é companhia dos que não sonharam, porque destes é melhor dizer que a saudade dorme ao lado.

Mas admito que os que escreveram de forma sombria, escreveram de forma solitária. Belas ou não as palavras ao menos tinham um sentido de que a verdade nem sempre é tão bela quanto nossos olhos querem vê-la. Lá no conto a garota com seu livro eram dois amantes de forma que poderiam amar pelo tempo que quisessem. Eu sou assim diante do que sou e do que desejo ter. E que seja infinita, se assim quisermos. Sempre queremos, mas ela nunca é. Roubalmas frouxidões que nos desiludem n’alguns dias. Entre o mundo e o universo existe a possibilidade. O que sou, se nada mais que uma das possibilidades para compor uma história nesse mundo. Contam-me uma história, contam-me um caso qualquer para mostrar que os dias amanhecem diferentes. Mas as manhãs todas são iguais, seja de tempos ensolarados ou brisas nubladas: um imenso cinza apático em que nada se pode no momento que já está cansado. Porque a poesia é tão profunda quanto a distância entre mim e ela.

Entre mim e o que sou há a escuridão.

Mas o que são a isto a terra e o céu?

[…]

O eterno abismo sem fundo,

Crível talvez, mas tenho coração.

Pulsa os corações com aquela vontade intensa e impossivelmente inexigível de causar fulgor de presença, um êxtase ansiante de ser outra parte, um subterfúgio daquela realidade cruel como companhia serena da alma. Pulsa nisso enquanto os olhos redobram olhares no mundo para encontrar n’outro olhar essa profundeza mística e esse desejo de ser a simplicidade sem formalismos e promessas descumpríveis que machucam a gente. Não me ensinaram a buscá-la assim e eu amei-a como a poesia me ensinou, seja assim então um erro quanto a quem fora meus tutores. Mas de qualquer forma não há mais trágica paixão que esta.

Em terra da Felicidade, o que acontece, é que o clandestino sou eu.

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

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