Fragmentos

“                                                 ” . Quando tentou escrever das passagens da semana e metrificar o compêndio de si percebeu estar diante de um resoluto incabível de incertezas e pertinências perdidas. Fadado ao simplório, ao inútil, ao ser carrascante de si, oprimido pelas lembranças pútridas de seus sonhos dormidos e pensamentos opiados pelo mundo, sentia-se preso às amarras divergentes do que era e tentava encontrar o que perdeu de si para quem sabe um dia poder sorrir daquela forma despreocupada novamente. Ora, olha aqui, pois esse aqui é um caso de estarmos diante do que todos passamos (ou ao menos passaremos numa vez nesse bocado de vida) de negarmos nossa própria existência e perquirir pelo caminho do descobrimento de nós mesmos. Tantas coisas passadas, tantos ritos de inssucedidos, desídias incompletas e formas obtusas da vida nos dizer ‘não’, que se para um miudinho de segundos para folegar em perscrutar pela própri’alma. Fungiu-se por tinta, outra vez, empunhado pela caneta, soldado pela vontade de extirpar de si aquelas emoções, olhando para cada segundo do relógio e contabilizando quanto tempo temporizava seus pensamentos. E sábio dedicado irrespondível. Eu descrevi o momento nesse paradoxo de adjetivos e substantivos. Quanto mais sabia e buscava, menos se encontrava. O telefone toca. Maldita hora, raios de inferno de barulho. Causou assim burbúrio em sua mente que tentava assentar seus próprios sentimentos numa única pessoa, mas impossível quando fervilhava mais de um fio de personalidade em si. Caixa de mensagens:

            Oi. Não se esqueça da reunião de amanhã as 20h. E traga champanhe.

            Mergulhou tão fundo em si que se esquecera completamente que o mundo real possuía as amarras de uma agenda que edificava nosso cotidiano como seu prazer masoquista melhor lhe parecesse. Assim era a realidade diuturna dos fatos repetitivos da existência. Por fim, sabe de uma coisa? Concluo que sua perdência de si vem mesmo de longínqua época, desde os remontes de mocidade. Digo-lhes que o pensamento de um narrador talvez nunca estivesse tão ligado com o de um personagem. Eis que vale mais uma narrada interna que uma narrada externa. Meus olhos, que veem a superfície global anunciam as formas expressas e do tátil. Ali, de dentro, do fundo miúdo do certezar conscientemente que só quem a porta incumbe de melhor falar. Trabalhava em coisas bussiness sem sentido, foi assim que definiu por toda vida seu trabalho. Insossa forma vívidica contemplava-o, por isso o sem sabor não permitia identificar seu prazer. Levantou-se e caminhou até a varanda para revirar em seus antiquários como estava revirando si mesmo, procurando quinquilharias antigas que o consolassem e explicassem porque as coisas são como são e nossos sonhos tornam-se todos em vão.

            No fundo daquele armário havia uma murcha bola, revestida por uma poeira secular, antiga tanto quanto ele próprio, porque retratava como brasão do que foi sua infância. Olhou aquilo em suas mãos, com sua palma, numa olhadeira de sentir para poder ver. Uma lembrança retoma seu corpo no momento. Ah, e essas lembranças, concordam comigo serem as formas vivas de viverem outra vez o passado? Hum, peço que fale pouco mais alto, assim não lhe escuto. Ah, deixa, eu entendo. Tanto dói no peito da maioria que é preferível calar-se do que foi para olhar apenas no que será, pois o hoje já não importa. Um dia, verdejava um campo ruralesco interiorano e um garotinho brincava na forma simples da simplicidade com sua pequenina bola de futebol. Levantava no ar, encontrando-se com seus bonecos imaginativos e endireitando-se a cada queda desatenciosa com um riso de prazer por estar vivendo aquele momento. Olhando para o céu deitado contava as nuvens e as formas do impossível escondidas sobre elas que só ele enxergava. Via de longe que os que cresciam tinham uma forma apática e cinza e terminavam por gozar das displicências e desistências. Assim, formou uma convicção naquele dia de que longevaria diferentemente dos que ali estavam e que contaria ainda as estrelas no céu como se cada uma fosse um mitológico herói de seu ontológico. Ele percebeu ser impossível. ─ “Mamãezinha, porque é que os que crescem são tão tristes?” ─. E então ele lembrava que sua mãe, compondo os braços diante de si numa forma de lhe proteger se seus próprios ensinamentos, disse que as coisas eram assim porque as pessoas tinham fim na realidade. Voltou para saleta e diante da folha em branco, continuava apenas o alvo resplandecer do brilho vazio.

Aqueles olhos emportaretratados naquela escrivaninha ainda fitavam-lhe incessantemente. Seria Ele fitador, contrário? Quiçá, empodero-me de dizer que sim, ainda amava aquele olhar desconhecido que supranecessitava nas horas de melancolia. Dos dizeres metafóricos não há melhor que entremeie aquela garota, porque ele nunca soube, e de minha atual distância, nunca saberei ao certo aquele sentir. Desgostar de um ser vislumbra argumento difícil de dizer, diferente das fáceis montagens prosaicas que arcabouço em minha prosa fluídica. Fosse parte de uma reconstrução de si, um fragmento que procurava no meio de tantos cacos perdidos pelas feridas desiludíveis daquelas lembranças secas dos entredias. Ali jazia um corpo fundido de espaços que deveria se tornar brancos (melhores nulos) para que os passos seguissem nas passarelas do esquecimento. D’amar, essas mazelas vivíveis que sujeitamos num cárcere facultativo ele não queria queixar-se na entrega definitiva das lembranças. Por isso aqueles olhos cercados de um misteriar tipicamente único tornava-se significado importante para ele de que ainda resistia contra um suspiro de desejo. Hein, percebeu, escuta, olha para cá antes de desviar a atenção. Quando se fala de nosso coração, os dizeres tem de ser ternos e a ternura sente-se apenas com atenção. Ela era de uma ingenuidade diferente da minha: sabe, presta atenção, opostamente oposta. Aplico-me da redundância aqui para frisar um ponto incógnito: fosse mesmo esse não ser aquele gostar. Sentou-se em porta varândica para os lírios do jardim. Era hora de um crepúsculo e seu momento fixava em recostar a cabeça na cadeira e olhar para o vazio. Cansado de destrinchar-se e descobrir que assim era porque perdeu-se na vida de escolhas pré-formadas e de amores impossíveis, tentando dizer que não havia mais esperança para se seguir, vibra o telefone móvel em seu bolso, e percebi mesmo que de longe um sorriso lateral em seu rosto. Abriu e viu que fora nada mais que um lembrete de “Reunião. 20h. Amanhã.”. É assim que nossos sonhos morrem.

Diante daquela imensidão, o infinito era do tamanho daquele espaço para dizer que o olhar vazio era simplesmente de saudade.

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

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