Furada Cultural

Começa hoje às dezesseis horas, indo até as vinte e duas, e recomeça amanhã em mesmo horário de início e término, a primeira Virada (com break) Cultural de Uberlândia (e do Brasil). A primeira, também, a contar em sua programação com um espetáculo “pago” – um globesteirol com preço promocional (de primeiro lote) a vinte e cinco reais a meia entrada –. Embora a organizadora do evento tenha publicado no Caderno Revista do Jornal Correio o real nome do projeto, Cultura em Movimento, fica patente, principalmente em redes sociais, o uso do termo Virada Cultural com nítida intenção promocional.

Mas não é apenas essa inadequação que me incomoda.  Preciso esclarecer que a expressão que dá título a este artigo não foi criada por mim, e sim de um sentimento que perambula por toda comunidade artística engajada. Um evento que só acontece pelo mecenato de uma Lei de Incentivo, que recebe centenas de milhares de reais em dinheiro público, com envolvimento das várias esferas de governo, inclusive com apoio estrutural, e de outras dezenas de apoiadores, simplesmente não reconhece o artista, a mão-de-obra necessária para efetivação de toda essa mise-en-scène, como um profissional a exercer sua função.

Para exemplificar, e não vou citar nomes, uma grande companhia de dança foi convidada para participar de tal evento e como pró-labore receberia uma importância que, dividida, não chegaria a quarenta reais por integrante do corpo de baile – uma companhia que já rodou o mundo com seus belíssimos espetáculos… Declinaram, óbvio. Em menor grau de importância, eu mesmo fui convidado a executar performance literária e realizar palestra dentro da programação do evento, questionei sobre o pró-labore tendo como resposta: “Iremos divulgar o seu trabalho…” – Não. Obrigado. Foram muitos os anos de estudos, trabalhos, realizações, escolhas que me trouxeram até aqui.

A última reunião do Conselho Municipal de Políticas Culturais (CMPC) contou com a presença dos pareceristas da CAS – Comissão de Avaliação e Seleção dos projetos a ser enviados ao PMIC – Programa Municipal de Incentivo à Cultura, quando, em deferência ao Eixo da Sustentabilidade, presente no Plano Nacional de Cultura, solicitou-se que nas avaliações de projeto observe-se se o mesmo reserva vencimentos aos artistas e técnicos que darão sustentação ao trabalho. Sustentabilidade é reconhecer a Arte como um Ofício. Sustentabilidade é reconhecer o Artista como um promotor deste Ofício, como um Artesão – da pedra, do corpo, da palavra, do movimento, da sonoridade, da textura – da Subjetividade. Sustentabilidade é reconhecer o Artista como Cidadão. Que paga luz e água, internet e telefone, arroz e fraldas.

Assino este Artigo como Guimarães Lobo: Poeta, Escritor, Roteirista, Ator, Produtor Cultural e Presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais – CMPC.

Guimarães Lobo

Guimarães Lobo

Guimarães Lobo é mineiro de Uberlândia - do Cerrado Brasileiro. Escritor (autor de PELE CRUA - contos), Poeta, Roteirista, produtor cultural, Professor licenciado pela UFU e Colunista no sítio Página Cultural.

4 Comentários
  1. Parabéns Senhor Guimarães Lobo, o responsável pela produção da Virada ou Furada Cultural é um produtor ganancioso, Só que saber de venha a nós, vosso reino nada.

  2. Onde coloco meu aplauso? Parabéns pelo artigo lobo. Nos conhecemos uma vez em que eu estava tocando no armazén literário. Fiquei satisfeito quando liguei a pessoa ao autor desse artigo! Parabéns.

  3. Grande Lobo

    Estava, ainda esses dias, comentando exatamente essa questão com um amigo.

    Assino embaixo tudo o q você escreveu.

    Abraços

    Antonio

  4. Fui convidado para trabalhar de graça nesse evento que tem o apoio de uma dezena de empresas e do Governo de Minas. #furadacultural #eudigonão

Seu comentário é importante!

Your email address will not be published.

Você pode usaratributos e tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>