Poética e política no cinema – Graduação (Bacalaureat)

Graduação(Bacalaureat), filme do romeno Cristian Mungiu, dividiu a palma de ouro de melhor diretor, em 2016, com Personal shopper, de Olivier Assayas. A seleção oficial também incluía o excelente Aquarius, do brasileiro Kleber Mendonça Filho. Com efeito, o festival de Cannes do ano passado foi muito competitivo, tanto do ponto de vista poético quanto político.

E são essas duas as qualidades que fazem de Graduação um filme indispensável. A trama se passa na Romênia, mas serviria à justa medida para o Brasil. Aliás,infelizmente, serviria a toda humanidade. Como o filme nos dá a ver, o homem é corrompível.

Ramificações de favorecimentos

Às vésperas dos exames finais do colégio, a filha do dr. Romeu (alusão ao nome do país), excelente aluna, já foi aceita em Cambridge para o curso de Psicologia. Mas, para isso, ela precisa repetir seu elevado desempenho nesses exames. Ocorre que, um dia antes da primeira prova, em circunstâncias misteriosas (que envolve seu namorado inclusive), ela sofre uma tentativa de estupro. Um pouco antes, nesse mesmo dia, alguém quebra a janela da casa deles.

No dia da prova, Romeu, com a ajuda de uma professora (de quem é amante), consegue entrar na escola e pedir para o diretor autorizar a aluna a fazer a prova com braço engessado. Consegue. Mas a filha, com problemas para se concentrar, não responde todas as questões. Romeu, mais do que a esposa, quer a todo custo que a filha saia da Romênia, como se isso reparasse seu erro –ele deixou o país, mas retornou em 1991, após a queda e execução do ditador Nicolae Ceausescu.

Enquanto conversa com as autoridades – seus colegas entre eles – sobre o ataque sofrido pela filha, recebe o pedido para favorecer um senhor que necessita transplantar o fígado, fazendo-o furar a fila do transplante. Este senhor tem um contato que pode ajudar a filha de Romeu com as notas nos exames finais. Pronto. A ramificação de favorecimentos e prestações de favores, que havia começado com a permissão de Romeu para conversar com o diretor da escola, está posta – ramificação perversa, uma vez que há o reconhecimento da lei e, simultaneamente, sua recusa.

É esta cadeia interminável e em certa medida circular que o filme (a câmera) irá percorrer, sempre da perspectiva de Romeu. É ele quem liga uma instituição a outra, da mais privada à mais pública, todas marcadas pela lógica do favorecimento próprio em detrimento do coletivo – a corrupção que acomete todo um país está diretamente relacionada, por conseguinte, àquela que se pratica em casa.

Por meio da câmera subjetiva, dos deslocamentos no carro e das relações intrincadas que Romeu estabelece, o filme se desenrolade dentro do protagonista para fora e, em um ciclo vicioso, para dentro novamente. Isso mostra que o corrupto nunca se contenta – seu gozo imediato e sem culpa não traz realizações, não funda projeto, além de lesar o coletivo – a sociedade de que se é parte, portanto.

Engastados à perspectiva política, alguns elementos do roteiro dizem sem dizer, mostram sem mostrar. Ao mesmo tempo em que extorque, Romeu se sente extorquido – há um clima de ameaça iminente. Ninguém é confiável. Nesse aspecto, o filme lembra Caché, de Michel Haneke.

Assim, Graduação, um filme-denúncia, não deixa de ser poético: convoca o espectador a se implicar em suas atitudes e nas consequências que elas provocam e deixa claro que não há melhor forma de realizar esse exercício que resgatar a dimensão poética contida na política.

Graduação(Bacalaureat), filme do romeno Cristian Mungiu
Graduação(Bacalaureat), filme do romeno Cristian Mungiu

Renato Tardivo

Renato Tardivo

Psicanalista, escritor, doutor em Psicologia pela USP.

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