Heroína

As paredes estavam recobertas daqueles recortes ziguizagonais e macabros das inferências daqueles meses. ─ “Como sufoca-me, oh.” ─. Escurecia-se em penumbra da mesma forma que seus pensamentos, distantes de uma solução para a psicótica artimanha que investigava e quedava-se sempre imóvel e um passo atrás das respostas verdadeiras. Seu mundo tornara-se um mundo à parte da realidade da janela que mostrava a rua, encoberta sistematicamente pela cortina e com apenas uma fresta de iluminação. Aquilo fosse talvez seu único elo com o que existe. A jaqueta amarela com um logotipo comum centralizava-se pela foto na parede com seus quase indecifráveis rabiscos de rotas – só ele poderia entender aquilo – e criava mais um emaranhado de perguntas que fincavam em abismos de desrrespostas. Sua vida estava sendo cada dia mais desconstruída. Uma sensação de medo desesperadora foi tomando os pelos de seu corpo, energizando uma frieza no peito de que um infortúnio estaria no porvir. Barulho. A porta cerrada parecia mover-se em força contrafeita para derrubada. Alinhou-se em seu sofá e permanecia quase surdo por perceber que o volume daquela caixa de som começava a aumentar subitamente. Aquilo era o caos tomando conta de seu corpo, era a forma viva de que chegava-se ao ápice de uma tormenta. Então abaixou-se naquele mesmo instante quando vira o vulto aproximar-se com desfecho de morte, e apunhalou as direções do ar, quebrando aquela janela que cerrava o sinistro. Uma brisa calçou seus olhos de realidade, podendo agora enxergar um possível dos dois mundos. Parecia que o vulto se espreitava na escuridão, mas a visão se embaçava junto de uma neblina que tornara impossível categorizar uma afirmação. Talvez ele estivesse perto. Fosse um aviso? A sua consciência nauseabundeava por talvez uma dose excessiva de heroína. Permaneceu inerte naquele sofá diante das seringas ouvindo o som que agora tinha um volume bem mais natural, e um olhar semi-cerrado de cansaço ou tóxicausal. Quando se desiste da realidade, ao cerrar os olhos, escolhemos viver nossos desejos mais ocultos.

Call my name
Throught the dream
And I’ll hear you
Scream again

Aquele sábado vespertino parecia ser um fluxo corriqueiro temporal. Vestiu sua camisa usual, tomou seu café usual, percorreu naquele trânsito usual. O comum enfatiza-se em minha narrada para retratar a forma sem surpresas que o dia movimentava-se. E o pensamento de um homem no linear do comum não se diferencia do limiar entre uma bebida ou um jogo pela tarde. Seus ombros enquadravam-se num cansaço de trabalhar uma madrugada no escritório policial, compensando alguns turnos trocados ou qualquer outra burocracia daquele lugar. O celular toca. Desprende suas mãos do volante para um pequeno toque no painel touch de seu carro para atender. ─ “Duarte, é melhor estar preparado para chegar até sua casa.” ─. A ligação do delegado Afonso fazia-o debruçar no tom de voz distante e interrogativo de sua ligação, feita e finalizada com apenas uma frase. E não precisaria de mais nada para causar uma impressão ansiante e angustiante ao mesmo tempo. Encostou seu carro e desceu naquela caminhada como se tivesse entrando no próprio inferno. Mortos.

Não há como eu descrever minimamente os detalhes da palidez de Carlos Duarte ao ver sua família ceando como num retrato de Boticelli. Mortos em ceia. Logo dois policiais amparavam aquele homem de não regurgitar o café-da-manhã recém-tomado na corporação. Imóvel, estabeleceu um lapso de esquecimento daquele momento e apenas não entendia o porque daquela cena. A esposa e os dois filhos, dispostos em conjunto de refeição para a mesma, com suas faces sorridentes, como se aquela fosse a melhor das últimas refeições estabelecidas. Quanto ao menu, a degustação excêntrica enjeitava ainda mais a curiosidade da cena, na disposição de partes do próprio corpo em cada prato. Os assassinos podem possuir uma brilhante mente para a arte e aquele pequeno aperitivo era uma degustação para os olhos das metáforas e das meta-cenas. ─ “Um homem que embute a si mesmo como alimento. Desde as civilizações mais pretéritas alinhavam-se os guerreiros com a ideia de que essa antropofagia forneceria a força do guerreiro servido de alimento.” ─ Mas aquela expressão exigia uma ciência mais detalhada das razoabilidades que permeavam. Era uma família inteira. A despeito das vítimas, causalidade do destino ou não, aquele era o trabalho de Carlos.

 ─ “Analisamos possíveis vestígios pela casa. Não encontramos nada além das impressões digitais suas e da família. Parece que temos um provável serial killer.” ─ E as improbabilidades eram as que mais atraíam o âmago curioso de Carlos. Extirpara sua vitimologia faraônica para antever aquilo na frieza do investigador policial que era. Não se tratava de percorrer pelo platônico mundo factível das coisas físicas. Precisava selvagerizar-se no psicológico de cada ente morto para entender suas formas propositalmente colocadas. Ao abrir os olhos em sua próxima piscada, ele deveria se tornar o próprio assassino da família. ─ “Dr. Carlos, desculpe-me incomodar o senhor, mas preciso que se atente a algumas perguntas minhas. Coisa de rotina, o senhor já até sabe.” ─ Apressou por desviar sua atenção da colocação prosopopéica de assassino e assentiu com curtas respostas às perguntas do oficial de polícia. ─ “Sim, escritório. Passei a noite. Trabalho. Tem as filmagens. Sim, saída para um café no Boulevard próximo. Obrigado.” ─ Deixou logo em seguida a cena e posou-se de volta ao seu veículo, numa forma de recuperar seus pensamentos para começar a construir aquele quebra-cabeça de seu novo caso. Foi assim que tudo começou.

 Os olhos semicerrados decidiram se abrir por completo. Voltava-se agora para a outra realidade. Daquele dia de sábado marcante uma tempo de alguns dias da semana já havia corrido no calendário. Esperava já ter estado diante do culpado inúmeras vezes, e quem sabe naquela noite não teria voltado para terminar sua Magnum oppus. Alcançou mais uma seringa e venosamente acolchoou-se de uma passagem fluídica para um horizonte longe fervilhado de seus demônios mais ocultos. Aquela heroína desgastava sua alma e deixava-o encarcerado no mundo aprisionado do beco sem respostas. Acontecia diariamente, sempre que usava, naquela fuga do ilusório para o iludido. Mas tinha certeza que fora aquilo que dera algumas forças do inacreditável para que acreditassem nele. Seu único medo era a morte. Um medo clássico que fosse talvez o medo da humanidade. Mas a morte para ele era um sentido inigualavelmente distante de qualquer crença ou religião, não se contentando apenas com um fim ou uma vida do depois. Respondia seu medo como um fim inacabado. Uma vida extremada de anseios não concebidos e medos menores que não o permitiram de completar-se como homem e ser o que realmente havia nascido para ser. Sentia-se sempre mais completo na empunhadura de uma arma. Deduzo que fosse porque estivera, naqueles momentos, sempre com a possibilidade de escolher entre morrer e viver, como um destino próprio de um Deus. Mesmo em sua onírica viagem lisérgica, a foto de baixa resolução do homem de jaqueta amarela            fixava-se em sua mente de forma cada vez mais funda.

 ─ “Caucasiano, cabelos extremamente bagunçados, óculos de grau fundo e uma jaqueta amarela talvez um número maior do que aquele que usualmente vestia. É, isso. Lembro dele exatamente naquele dia em que você estivera aqui. Não sei se chegou antes ou depois, já era tarde da noite, não me faça perguntas tão específicas. Sei que ele saiu por volta das 4h e tenho aqui uma foto que fiz da gravação. Está bem borrada a imagem, mas talvez seja a melhor coisa que encontre.” ─ Passava numa caçada inquisitorial por lugares que geralmente frequentavam esses amantes das extremidades noturnas. Casualmente, era o mesmo café do Boulevard em que estivera na noite anterior ao ocorrido. Sentia uma certa proximidade pela familiaridade do lugar e dali para frente, tinha aquela foto em mãos como uma prova de que existira nas redondezas o assassino de sua família. O bartender era um homem mesquinho e de poucas palavras, que alcançava o cume da cobiça. Seu medo era a ausência da ganância, o empobrecimento fortuito, o apagar do reluzir de suas moedas. E por que estivera com aquilo na cabeça naquele momento? Pensava diuturnamente nos medos alheios e na capacidade que o homem tinha de se imiscuir a um meio, coibir sua verdadeira natureza, e dialogar com um “tornar-se” totalmente diferente do que queria. Dali em diante existiriam duas pessoas diferentes, e quem sabe até três ou quatro a depender de quão intensa for a personalidade da pessoa. Entre cada uma, como elo que ainda sustentava tudo num mesmo ser, uma barreira impeditiva de que um fugisse de seu mundo onde ficava o calabouço dos sonhos e fosse plasmar-se como ser real, estava o medo. Aquele temor de ser o que talvez não seja o que querem que se torne. Aquilo por alguma necessidade era uma forma crucial de desvendar o caso de sua família, porque percebera que ela ceava o medo que cada um tinha. Sua esposa, de comer a própria digestão como o medo da ausência de emprego de sua carreira de modelo e de se ter uma aparência distorcida daquele padrão. E as crianças, de pratos vazios, não porque seriam filhos da coragem, mas que as crianças cultivam ainda uma infante alma de preocupar-se apenas com a imaginação e de iludirem-se com a descoberta de que seus maiores heróis não passavam de ficção.

E agora tinha sua heroína de volta. O vício da juventude retornara naqueles dias de psicoses múltiplas. Queria liberar suas maiores potencialidades e ter uma vertigem além da realidade. Imaginava ser a única possibilidade de resolver o caso. Não se encarceraria no vício outra vez. Aquele seria um uso e companheiro profissionais. O que ele estava atrás? Quem era ele? Por que do medo? As perguntas que inconscientemente fazia para albergar-se da própria vestimenta assassínica acabavam por colimar em dúvidas psicologicamente pessoais. E essa dúvida o corroía, sentindo-se numa intensa busca por duas pessoas num mesmo caso. Todo dia cedo precisava de uma dose para acordar.

Soubera de umas poucas lojas que vendiam modelos de jaquetas similares àquela. O dia fora passado em percorrer pela cidade por entre aquelas lojas. No fim do dia, diante da última, ao adentrar, a vendedora o reconheceu: ─ “Estivéramos procurando por você, mas nunca atendera no número de celular que nos passou. Se quiser devolver a jaqueta que pegara na semana passada, estamos agora com seu número”. ─ Apenas para ter certeza, mostrou a foto para a vendedora, que se impossibilitou em afirmar se era a mesma, pois a qualidade da foto não permitia. Mas afirmou venderem outras de modelos parecidos. Correu. Quis chegar o mais rápido até sua casa e abrir o guarda-roupa. Nada. Revirou suas roupas como se estivesse revirando seus sentimentos, procurando respostas para o que talvez não quisesse responder mesmo já as tendo. No fundo do armário havia um cabide vazio. Ele, com toda impecabilidade e metodicidade nas atitudes e fisionomia, era quase inacreditável ter um cabide vazio centrado no meio da ordem, como quase que a representação do próprio caos. Precisava de mais heroína, seus calafrios aumentavam e sua náusea fosse ora explicada pelo frenesi da resolução, ora por algumas crises de abstinências corriqueiras. “Provada uma vez, sempre freguês”. Era um ditado da década de 30 sobre a cocaína, e que devo aplicar sabiamente nessa nossa droga narrativa. Talvez as horas tivessem absorvidos os segundos e fecundado-se numa nova medida temporal, mas a verdade é que a noite caíra fazia um tempo e ele apagara em seu banheiro com a foto da jaqueta em mãos e a dúvida irresolúvel.

Precisava de um café. A cafeína o despertaria outra vez para o mundo real e voltaria seus pensamentos num fluxo de normalidade para reflexionar. Dirigiu-se ao Boulevard usual, e com um suspiro de preocupação na caminhada de alguns quarteirões após estacionar o carro com o pressentimento de alguém o seguindo. Diversas vezes esgueirou seu olhar para lateral de trás e verificava se encontrava alguém. Nem mesmo uma sombra perdida na negritude noturna. Os calafrios não paravam de denunciar uma outra presença por trás daquele homem e soubera que seu senso instintivo poucas vezes havia errado sobre casos como aquele. Os olhos ardiam, como se fervessem para um pecado que iria cometer, uma visão do próprio inferno que seria o futuro. Já naquele bar, precisava apenas de um energético cafeínico para despertar. Mas sua cafeinização não o preocupava tanto quanto um sinistro estranhamento de outra presença. Percorreu seus olhos pelo lugar. Nada. Parecia não ter ninguém. ─ “Nós já vamos fechar, Carlos. Hoje eu quero dormir mais cedo. Vou encostar a porta para dizer que fechamos. Quando terminar, pode ir embora. Deixe o dinheiro no balcão.” ─ Não, ele não poderia ir embora agora. Pois ouviu a porta do banheiro também entreabrir-se e uma figura caucasiana, dos óculos de graus e da jaqueta amarela surgir. Paralisado sem saber o que fazer, jogou sua xícara diante da porta e a viu quebrar-se em cacos infinitos. Levantou-se para correr em direção do homem e viu apenas um reluzir de uma faca apontada para o ar e seu universo apagar-se.

 ─ “Ei, Carlos, acorde. Você parece que passou por uma situação tremendamente estranha.” ─ Era o oficial de polícia que o acordou depois daquele lúcido momento de fulgor. A corporação quase que inteira estava naquele recinto e percebera que o barman jazia imóvel em uma poça de seu próprio sangue. Estava mumificado com notas de Reais de seu próprio dinheiro. Surrealíssimo aquilo. Para a corporação, claro. Carlos antevisionou algo além. Sim, sua teoria estava certa e apegava-se cada vez mais ao temor humano. Como poderia saber especificamente do medo das pessoas? Teria ele um sentido paranormal ou uma espécie de poder messiânico que o fazia diferente. Aquele compêndio de acontecimentos do caos vestia-o apenas com alpercatas de perguntas com respostas dúbias e estranhas. ─ “Sabe o que é mais estranho? Eu vi que levou uma facada de raspão na barriga. Por sorte não foi pior. A cena demonstra claramente uma luta de três pessoas, mas o lugar está repleto apenas de impressões digitais suas e do barman.” ─ Observou agora mais desperto todo o entorno. A xícara estava quebrada na porta. O café secara e manchara o assoalho próximo do banheiro. Estava no último lugar que lembrara antes de antever o homem da jaqueta. Mas como? Não haveria sentido em ter apenas dois tipos de impressões para aquela cena. Quando percorreu com suas mãos pelo bolso, encontrou uma armação quebrada de óculos de grau. Nunca havia usado qualquer tipo de óculos.  Levantou-se querendo afastar maiores preocupações para aquele corpo policial e quisera ir direto para sua casa. Transformou sua sala de estar numa parede de rabiscos e anotações quase que aforísticas em algumas partes, com centro em tudo naquela singela fotografia. Foi assim que tudo se sucedeu.

Espremeu mais uma seringa pela terceira vez em sua corrente sanguínea e suspirou um alívio de uma dor que sentia no peito em meio às palpitações e sufocos de possíveis convulsões. Ele estava ali. E sentia que aquele quase ataque em sua casa era um aviso. Provável que seu prêmio fosse a vida de Carlos. Sentia que havia uma ligação entre ambos e que não podia o fazer desistir do caso. Mas aqueles acontecimentos de quase três ou quatro dias (perdera por completo a noção do tempo) estavam o levando ao extremo delírio. Mais uma vez embarcava naquela viagem que desejava ser um pouco mais lúcida. E viu o tempo passar como um flash em seus olhos e da meninice à velhice como uma fração de segundos. Risos e ecos pela sala, alguém o chamava. Gritava pelo desespero de estar sendo desacreditado pelo mundo e por estar diante de seu caso mais difícil e improvável. Perdera tudo, e sentira que estivera perdendo a si também. Há de sabermos se o destino queria mesmo que fosse assim? O acaso em circunstâncias tão próximas e singulares dificilmente é fácil de se acreditar. E a intransponível barreira do medo sempre terminava com o auxílio da morte. Qual era seu maior medo? Pois não era contra aquilo que estava lutando? Sabia que o único jeito de acabar com as hipotéticas alucinações era libertar-se diante do cenário mais caótico em que sua vida ficasse no limiar entre ela e a morte, assim desvendaria o mistério por conseguinte. Ele não se lembra da forma como chegara ao carro, era uma vertigem frenética no ápice do efeito da droga. Apenas acelerou pela avenida porque sabia que naquele quarteirão da frente estaria esperando o psicopata perseguido. No meio da rua, viu sorrir a figura do homem como se estivesse despreocupado em ser atropelado e despedaçar-se pela via de asfalto. Gritava. Gritava cada vez mais alto, ensurdecendo-se com a própria voz e loucura porque não parecia que simplesmente iria atropelar um pedaço de ódio, mas que estaria fundindo-se a ele. Os corpos explodiram e assim foi-se o imenso clarão de uma batida. No outro dia, a manchete dos jornais não noticiava outra coisa que não fosse aquilo, da morte de um homem vestido em jaqueta amarela.

INVESTIGADOR É ECONTRADO MORTO EM CASA

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

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