Hoje enterrei um amigo

Eu, que já enterrei pai e mãe, nunca havia enterrado um amigo. Hoje enterrei o André, amigo de quase 40 anos de amizade. Mais velho do que eu apenas 3 meses, até os 12 anos todos achavam que éramos irmãos. “Depois eu fiquei mais bonito”, eu sempre dizia pra ele. Imperfeito, errante na vida, o André não foi diferente de nenhum de nós, mesmo daquele que se acham mais retos e justos que os outros. E se alguém se levantar para me falar do André, direi como disse Jesus: “Que atire a primeira pedra aquele que não tem pecado!”.

Hoje, durante o velório, enquanto o Sol matinal brilhava lá fora, indiferente à sorte do Homem, fiquei observando as pessoas. Que a vida urge a gente sabe, mas bem que o tempo poderia parar um minuto quando morre um amigo… Mas não. Enquanto um homem morto esfria sobre uma pedra, ao redor já se diz da lida e da vida, essa correnteza que a tudo arrasta. Borges escreveu que nosso destino não é terrível por ser irreal, é terrível porque é irreversível e férreo.

“O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me despedaça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, infelizmente, é real”.

Lembrei-me da realidade desse poema depois de deixar o cemitério na companhia do Léo e de nossas mulheres, depois de ter presenciado a justiça ser feita e meu amigo, pelo menos, ser honrado com as palavras dos seus dois filhos mais velhos, que ergueram a voz voluntariamente sobre sua sepultura e disseram emoções e amores ao finado pai.

Indo embora, fiquei com a sensação que somos mesmo, como disse o Chicó, um rebanho de condenados, e que, bonitos ou feios, ricos ou pobres, pretos ou brancos, é bom que nos mantenhamos humildes de coração no cumprimento de nossa sentença, porque mais tempo menos tempo nos encontraremos com o nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.

E dessa vez foi o André. Terei saudades do meu amigo.

André Whitaker Salles – 20/5/1970 a 15/6/2014

 

Cesar Cruz

Cesar Cruz

É paulista da Capital. Nascido em 1970, escreve contos, crônicas e artigos, além de fazer consultoria e revisão textual sob encomenda. Tem 4 livros publicados: O Homem Suprimido, Scortecci – 2010; A Idade do Vexame & Outras Histórias – 2011, A Invasão dos Horácios – 2013 e Território Conquistado – 2015, todos os três últimos pela Pontes Editores. Blog: Os Causos do Cruz.

2 Comentários
  1. Caro César,
    Recebo com muita tristeza esta notícia. Trabalhei com o André em muitos projetos de tradução técnica. Mande-me mais informações sobre seus ultimos dias de vida, doença, etc.

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