Homem Zé

Embuscada e um caminhante escuro, nebuloso, um universo redomado por fantasiosa mente. Mas têmpora enxaqueca o deixava nauseado para continuar a caminhar, aquele. Foi surrupiando o ar aquela respirada respirante cortada, frenética, induzida por um medo que estava seguindo o homem feito sucuri predadora de animalescas presas fugidias. —“Sai, arreta, sai!”—. Algibeira forrada de munição, prontificada para tiro certo, vespeiro. Frio suorento umedecia as vestes, ensopadas já. Correu. Correu tão veloz como os voos dos albatrozes que nem naquela terra faziam presença simples. Ia olhando para trás. Traiçoeiro. Esperava que imundice perseguidora surpresasse e então – pimba – tiro forte, certeiro, matadeiro. Mas coração coraçoava meio deslocado em tumba já, pronto para morrer. Condição ainda não perfazida pela certeza. —“Ceús, eu vou vomitar aqui mesmo!”—. A fala agora ia transladando entre duas realidades, num entremeio d’olhos abertos, d’outro lado daquela realidade da fuga fugaz. Aí o homem percebeu que era um sonho arretado de estranho, que era um subterfúgio de divagação profunda, inquisitória do consciente. Tão real, ainda assim! A cama do caboclo estava encharcada com uma poça não só das bicas suoríficas daquele que um dia passou medo, mas de sangue oculto de significado.

José Joaquim Severino Silvério do Mato Virgem. Nome era tão grandiloquente que era melhor chamar de José só, ou mesmo Zé para as intimidades duns. Acordou azedo, com gosto amargante de que perdera um pedaço d’alma na noite anterior. Nome, só aquele, era a única coisa que tinha certeza de sua vida. Por entre as fecundas frestas daquele casebre o dia solar inundava com claridade. Não, não tinha os monstros noturnos, os vagantes idílios do pesadelo da noite passada. Ainda assim procurava um objeto oculto, algo que vidalheia. Como se tivessem ontem vindo buscar sua alma. Não fazia sentido estar ali, mas não fazia sentido estar vivo ali. O sentido perceptivo, sensorial, sentimento de pertenção jazia num lugar longe dos tocos e restos de carcaças animalescas dentro daquele lugar.

Adentrando num bar de virada d’esquina, pediu cachaça para esquentar ventriloquamente a inconsciência. Meio de puxar as cordinhas e amordaças que controlavam a ideia do que se passava naquele momento. —Ô, sinhô, me vê rabo de galo para quentura!”—. Nosso Zé ainda estava deslocado do mundo, perplexo consigo mesmo. Não tinha a mínima, a ínfima, a irrisória e irresoluta certeza do que se podia certezar sobre si próprio. Nessas horas, temo que eu seria um pouco agressivo com minha própria condição, um pouco psicopata ansiante, em que eu me mataria sufocada com minhas ânsias de querer abraçar o mundo das respostas. Eu tanjo nas beiradas do nexorável, do palpável, e pouco desloco-me no amplo idílico fantasiador. Se eu fosse esquecido do mundo, deixaria de ser uma poesia para tornar-me epitáfio seco, reto e com único sentido: o das deixâncias e indiferenças. A cachaça alcoolizava estômago vazio dele e o embrulho nauseante causava espasmos involuntários naquele balcão. O entorno escureceu, enegreceu num fim-mundo de breu. —“Arrê, as coisas giram e as tonteiras estão me matando!”—. E o homem foi se contorcendo feito bicho depois de varar flecha. O veneno corroía-o por dentro. Dois homens se aproximavam e gritavam que hoje era dia de caboclo morrer, de homem que devia pagar seus débitos. E as carabinas estavam empunhadas, carregadass como se fosse a mando da própria ação de morrer. —“Não, não! Qué que eu fiz? Sinhô, piedade. Ai de mim, pobre de mim. Não queria definhar e morrer assim.” —. Estava encurralado feito as capivaras que caçam nos ranchos mais ao sul. E seu olhos estavam inundados do medo como o das capivaras. Olhinhos arregalados, assustados, frisados e fotografados em última instância de clemência, pedição para poder viver mais. Tluf, tluf tluf. As botas batiam fundo numa onomatopeia imprecisa ao longo do barro. Um grito alto, surdo, como mãe que pari filho e depois morre sem ver vida que deu cria. E agora era o bar de volta.

— Cumpâde, passa bem?

Huf.. huf… Era só um pesadelo, mas daqueles que te pegam e sugam sem volta. — O ar entrava e saía sem ritmo de normalidade e José Joaquim recompunha-se gradativamente, porque a cada segundo que se passava daquele dia, a tênue linha entre um insólito devaneio onírico e a realidade concreta sob nossos olhos ficava cada vez mais indistante e indiferente. —“Desculpa os modos aqui. Nem apresentei nome meu. Aqui é João dos Santos Estevão do Fogo Morto. Quiçá Jão é mais fácil.”—. E esse outro homem, das barbas longas enegrecidas, com verve de experiência com a vida, parecia acalmar as vísceras d’outro como se soubesse um pouco das respostas que ele acordara buscando naquele dia. Balcãoado. Copos virados para baixo, para cima, caídos na tabuleta do balcão depois que umas pinguinhas foram sendo tomadas pelos que vieram antes do nossos homem. Esse ‘Jão’ era de trabalhabar. Uns picos oníricos incutiam na mente do protagonista. Nem era ainda mentébria ou ziguezague de corpo embriagado que quica nas paredes para coisar apoio ante as quedas do equilíbrio. Ali vinha sonho lúcido, de uma realidade impalpável para as mãos que seguravam forte o copo de cachaça. Longar esse respirar entrante desejante de uma resposta concreta. —“Ô, nem vai querer saber, é coisa que parece advir mesmo é do demo, dá vontade de botar para fora até meu estômago.” — Risar, eis que a fé dos homens já não se curvavam para rezar. Perdida oração dum dia antevieiro, foi o que aconteceu nas passadâncias temporais. Da cidadezinha, da regiãozinha, da humanidade.

— Parece aí que a vida tá meio sem capixaba, um roceiro sem milho bom brotado. Que é, você não quer contar prosa inteira não? Bar não vai afechar não.

— Eita me vou contar. Só que vai ter tendência resumeira na minha fala. Olha, só acordei nessa cabeçador. Enxaqueca das brabas viu! Como é que eu posso dar explicância mais profunda? Ora pois, é como se vida vaga. Não, não, é vaga vida. Um vazião dentro de mim que não consigo nem me alembrar de quem eu sou. Ou, sinhô, me ouve! Larga um pouco do balcão. Tá me ouvindo. Hum, hum. Vamos lá. Dae só tinha toco de pau num casebre que acordei. Então como é que eu vou ficar aqui longando e longando mais minha explicação? É, é. Não me alembro mesmo de como cheguei lá. Uns trem mais nevoado, meio obscuro, tem essas lembranças sim. Mas aí – ou, ou, me ouve sinhô, não quero fazer prosa atoa não – a gente fica arrespostado numa dúvida: se era real ou se era sonho.

Água de barulho. Escoando da pia do balcão e o homem de bar estava em um estado de extrema obtusância que não se podia saber com precisão se ele havia de ter prestado atenção em toda a confusa prosa d’outro ou se fingiu complacência só de aparência e continuou a fazer umas contas erradas de quanto custava vender aquele bar e viver errante nos agrestes buscando o sentimento que a vida tem para nos dar, e nunca conseguimos achar. Calculo. Minhas habilidades de narradorchim permitem-me ingressar em lados não mostrados pela resposta. Sei. O caboclo de trás do balcão apenas sorriu e das suas palavras soaram algo de significado parecido com ‘quantas dúvidas tivermos, menos respostas vamos encontrar’. Zé pagou conta e saiu para buscar o que nem ao menos sabia onde encontrar.

—“Secura, terra está tão seca como meu coração sem cura.”—. Amásio de uma realidade que perfazia o desconhecido de si. Terra deschovida. Gota d’água não caía naquele sertão num tempo bem grande. Para sentir-se vivo não se faz necessário mais que corpo e alma. Daí, leitor, não dá para encontrar alma nos alambiques viu. Não da para beberalma em dose. José era o próprio Mato Virgem. É que quanto mais caminhava na batida árdua, seca, ele mais percebia margeado pela vida. Era como se mundo, finito mundo, esqueceste dos seus próprios macetes. Os homens são macetes da vida. A gente pensa estar cruzando uma trilha indisponível para outrem. Ai, enganoso! Naquela tarde sentado num banco de praça isolada no meio do nada ele olhou para o céu. Zé severinado de conclusão. O sol queimava seus olhos, mas nunca podia deixá-lo cego. Cegados somos desde que nascemos. E vemos o tanto de gente que só vaga. Vaga de forma vaga, mesmo. Nunca acordamos para onde estamos. Caminhamos, e eis que o que ele estava fazendo agora, caminhar como todos os outros no mundo faziam desde que nasciam. Os retirantes passavam ao longe. Enfome. —“Secura, terra está seca em meu coração cheio de amargura.”—. Lembranças faltavam-lhe dos meandros da consciência. Secamente, sem modo de advérbio de ser. Naquela tarde se pôde perceber como é não existir. Precisado de forma dos pensamentos? Abro o leque das interpretações e convido-o a adentrar em uma própria formação de filosofia. O sol terracha. Mas rachaduras da terra que fazem os fluídos sair nem são tão diferentes das fissuras do peito. Não chove mais e eu não sinto mais sair do meu coração gotas de amor.

Das mãos escorriam o suor do calor. Era quente aqui fora. A quentura queimava em fornalto, um fogo senfim. Só que agora parecia estar sendo chacoalhado por alguém. —“Ei, ei, socorro”—. Mas voz tapada. Deus esteja, oh sinhô. Bendistou das sombras que pareciam querer-lhe ceifar. Medo. Corre Zé, corre para salvar sua vida. Agora era homem novado. Assim sentia-se depois dos calafrios cessarem. Mas a noite friou. Gelad’alma. Somos todos fugidios. Somos todos presos fugidios. A fuga é dentro do nosso próprio cárcere. Medou. Medamos nós. Sabe, o que seríamos se em vez de fugirmos num labirinto sem saída, voltássemos num regresso de batalha. Homens sempre deixam de assumir interessência. Pois é, nem narrador se isenta disso.  Um campo bucólico, nas clássicas poesias. Um campo bucólico para plantarmos quantos sonhos quisermos. Um agrisonho tentei colher, e lembrei só depois de senescer. Não somos notívagos de forma vaga, eis que a cegueira já vem desde pequena. A hora mais demoníaca é hora de nascer. José estava tonto de olhar para aquele sol e desmaiou ali mesmo. Vertigem de não ter em que se agarrar. Mãos vazias e os suores de um medo das vagâncias da mente de um real onírico. Sabia. Certezava de que as lembranças não tinham que ser fúteis para esquecimento. Um, dois, três. No quarto passo a sombra d’arma aproximou e rugiu estampido.

Salve pai Pedro Baiano
Salve tia Maria Conga
Salve todos os Pretos Velhos

Iemanjá vem nesse candomblé
Todos lhe têm fé

Oxalá vem
Vem baixar também
Tantos filhos tem

 

            Batidum tambor, batidum baduque. Nem era arma. Suspiralívio. As moças e os moços em roda. —“Oê, oê, Saravá!”—. Um preto velho de Oxangô tomava frente dos cantos fortes. Batidum baque, batidum baque outra vez. Aí Zé levantou, sem mais entender nada. Noiteficou. Achou o toco em que estava sentado. Pitou o cigarro que preto velho veio oferecendo e não pensava em mais nada, pois nada era o que tinha. A fumaça pitante tinha gosto estranho. Não era como dos cigarros de palha ou dos palheiros roçados. Esse aí tinha um gosto que não parecia de coisa vinda daqui. —“E que pito é esse diferente?”—. Nêgo velho secou. —“Oxalá que me tenha, mas esse trago é só para os que vendalma.”—. Sentender ficou, mas trago mais fundo pitou. José largava os modos e escorava-se no toco como se estivesse em casa própria, ou ao menos soubesse onde era que ela estava. Sem razão. Mas razoou achando aquela cantiga do candomblé. Sorrisou tramoiando brincadeira de estar fumando o capeta. Vem coisa boa agora.

            — Oxente, mas sinhô é dos adivinhos. Prazer, trago do demo.

            — Que é? Uxe, uxe. Pé-preto, capiroto, capeta, demo, maletraz, maléfico, mau agouro, cancro podre, tinhoso!

            — Ué, feliz não? Ver amigo? Eixa, isso é modo de tratar quem bentefez?

            — Uai, sei de nada não. Fala, fala logo. Se não trago bala na cabeça, viu.

            — Todo dia vem alguém jogar umas oferendas nas encruzilhadas. Todas nem são pra mim, olha. Tem sempre uns desesperados que nem querem entrar no inferno. É medo viu. Aí eu estava deslocando uns moribundos nessas bandas e vi o ser aflito. Estava tão desesperado! É, viu, era você. Aí nós pactuamos. Tinha uns caboclos correndo atrás de você, uns cabra querendo te ceifar. E, olha, você já tinha visto até a morte. Mas você queria viver, era muito importante. Trocou se esconder da morte para perder suas lembranças.

            — Arrê! Mentiragem! Caluniagem! Ora, que que eu vou querer fazer sem nem lembrar de nada. Mas você sabe! Ah, achei homem das respostas. Adianta de que você viver vazio assim, parece que nem tive data de nascidor.

            — Calma, calma. Meus contratos não são dessa ruindade não viu! Dá para fazer recisão aqui. Mas vou avisando que agora qualquer hora você pode morrer. Pita aqui dessa vez.

            Na pitada profunda José tinha nos olhinhos resguardados uma filmagem da vida e viu de pouquinho os acontecidos daquela noite. Sabe o que era, hein, sabe o que era? Vou contar. Uma fuga por causa de uma quantia tão grande, mas tão grande de dinheiro, que Deus me pague, mas nem vou colocar o valor aqui. É de assustar. Queria se ver livre para fugir com o dinheiro. Então escondeu num buraco perto dos tapumes em que acordara naquela noite. Só que na empoleirada com o demo, de virar galinha do capeta com alma vendida, tinha perdido as memórias e o lugar que tinha escondido. Importa mais não! Sabia bem n’onde estava agora. Corrida. Passador de rapidância. Buraco apado. Na cavucagem foi vendo brotar as agriculturas. E o dinheiro saiu como fonte dos riachos, como as nascentes dos rios. Tanta alegria na hora. Socou na mala. Ô virtuosidade. Na cruzada com a morte só tinha que balar certeira na cabeça quando viesse encontro. Agora se completou infinitamente num sentimento vivo. Mas o demo seguiu nosso Zé até lá só para dizer: —“Homem já morre desde o nascimento. E quando descobre como é viver, já chegou hora de morrer”—. Pergunto aos leitores: acha que nosso protagonista deu atenção às palavras do capeta. Saravá que o tenha, mas deudombros.

            As areais do sertão ainda estavam seca. Tão quente o sol queimeidia. —“Secura, terra está tão seca como se não tivesse acabado minha procura.”—. Ventear do vento, jagunçar dos jagunços, palmeirar das palmeiras, buritizar dos buritis. Cada substantivo com um único verbo. Que erro, oh meu senhor. Erro descobrido de que José nem era homem só para homenzar. Chegou outra vez naquele bar do começo. As coisas são fúteis. Somos apenas um produto. Faltam embalagens n’alguns, mas outros têm até rótulos para lhes identificar. Quando um bebê chora, suas lágrimas são de felicidade? Dor, dorviver. Prenúncio de que os homens são textos vagos de significado. Eu queria ser uma poesia e ser minha própria metalinguagem de significados. José curou-se de uma cegueira, e essa foi passageira em toda vida. Seu vazio ainda continuava, como no coração das outras pessoas. Virou para o balcão, alcançou com sua voz aquele mesmo homenbar. —“Eu quero uma cachaça, porque agora vou ter tempo para descobrir o que é viver.”—. O copo encheu-se, beirando derramada. —“Ó pinga está aqui, mas o tempo não existe mais não.”—. Homenbar pegou caderneta preta e abriu com caneta na mão. Olhou Zé para o lado e viu de soslaio o preto velho da macumba sorrindo. Rompeu-se na porta dois jagunços e carabinaram peito d’outro. José Joaquim Severino Silvério do Mato Virgem teve floresta desmatada. Quando embuscada de descobrir essência de ser se completa, temos a morte na achada.

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

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