Homoerótico

Ato n º 1

Chamas nos olhos, o corpo langue, eu já não sabia o que tinha se passado na noite anterior. De nada me lembrava. Mas ao por o pé no chão como num momento de clarividência eu pude ver rapidamente as cenas que se descortinavam na minha memória.

“Lá estava eu, ele do meu lado, olhávamos um ao corpo do outro no espelho. Tudo parecia normal, nenhuma palavra era dita, nem um contato era feito. O fluxo de pensamentos era intenso. Eu sentia como se todo o mundo ao meu redor conspirasse para tudo que iria acontecer naquele momento. Eu ainda não sabia sobre o que se tratava. No entanto como é comum de todo poeta inexperiente logo, logo eu haveria de terminar aquilo que nem ao menos eu sabia que estava se passando, para começar um novo poema.”

“Mirava o chão, a cerâmica enegrecida. Muita sujeira. As paredes pintadas de vermelho, as luzes apagadas, uma penumbra nos cobria. Ele parado, atônito não dizia nenhuma palavra sequer. O corpo parecia se comprimir entre um momento de êxtase e de dor. Os movimentos compulsivos de sua mão para com seu órgão sexual. E logo eu pude perceber do que se tratava. Desesperei-me, queria ir embora. Mas todo o pesadelo quando se encontra no seu ápice nunca nos permite escapar. Algo iria acontecer. O rapaz se aproximou de mim. Algo viscoso, branco já escorria das suas mãos. Talvez fosse a coisa, o próprio vrill. Eu não sabia, ou sabia? Era confuso. O corpo suado, os cabelos longos e negros lhe escondiam a face. Foi neste momento em que pude perceber que ele trazia nas mãos a verdade de toda a nossa existência, e tudo estava no princípio. Tudo fazia parte de uma peça teatral já armada nos primórdios da criação. E depois de chegar seu rosto bem perto do meu, ele disse com um sorriso no canto da boca:

– Deus está debochando de todos nós. – eu sorri!”

***

Ato n º 2

Eu não sei se estou fazendo o certo ao revelar assim os meus segredos, talvez eu deva permanecer anônimo e contar apenas aquilo que me convém. Assim como é feito constantemente por aqueles que tem nas mãos o poder. Mas deixando de lado estas discussões e sem medo da demonização os fatos que sucederam a minha vida após um sonho estranho merecem ênfase na história da minha vida. Foram quinze dias de puro desespero. Quinze dias de dor, sexo e muito prazer, e por assim dizer, eu estava constantemente em contato direto com a arvore proibida do jardim do éden, e comia maçãs, e me lambuzava das faustosas frutas. Nossa o insumo fazia-me expandir de hora em hora, a cada instante perfurando a barreira do momento, e fazendo levitar em ondulações do meu eu que se mostrava como realmente era.

Senti-me tão feliz por não precisar de espelhos para ver minha verdadeira face. Meu olhar era tão conhecido de mim mesmo, e eu percebia que cada traça que dava forma ao meu rosto, era mesmo os originais da minha criação.

Tenho um trauma de infância se assim posso dizer, mas não sei se vale a pena ainda contar, não tenho força para reviver momentos do passado da intensidade deste. Então para que tudo não fique tão monótono irei contar o que me sucedeu três dias antes de hoje. E hoje está relacionado com o momento onde eu me encontro, e teus olhos deparam com minhas frases e parágrafos interpretando-os.

Decifra-me.

Eu tenho um quê de esfinge na minha existência, e só quem responde as minhas perguntas, e neste sentido eu não sou modesto, bem formuladas por um momento têm no ato o prazer de sentir o êxtase que o meu corpo pode proporcionar.

Dele eu não tenho muito que falar. Era um homem comum, desses estereótipos de beleza que surgiu a partir do modelo clássico grego, das esculturas de Michelangelo e pinturas de Leonardo da Vince. Usava uma longa jaqueta de couro preta, calça colada no corpo de uma malha de mim desconhecida cor lilás. O cabelo loiro. Tantos músculos e rigidez nos membros, que às vezes faziam-me lembrar da ereção de um órgão sexual. O rosto era de um conjunto de olhos, boca e nariz que combinavam perfeitamente. Os lábios as vezes se moviam de forma sacana e sensualmente, o que me fazia a todo momento querer está em contato direto com ele.

Sentamo-nos em frente à praia em um banquinho de concreto. Estávamos sobre um passeio que tinha uns três metros de altura. Embaixo algumas escadas que davam para a areia e logo em seguida o mar. A brisa volta e meia alisava calidamente nossa pele. Eu sem camisa, só de sunga. Ele com todo aquele estilo Glam retro que a todo o momento faziam-me, mesmo sem querer, lembrar canções de David Bowie.

Não nos olhávamos, nem dizíamos nada um ao outro, apenas aproveitamos aquele instante enquanto tínhamos a nossa presença. Os momentos demoravam a passar, sentia como se meu corpo estivesse sendo preenchido por uma quantidade insuportável de liquido. E isso era o se alimentar da presença de outrem. E doía, doía de forma que eu pedi para que nos dirigíssemos a algum lugar longe dali, onde eu pudesse urinar.

Não havia nenhum banheiro por perto, e eu não tinha lá essa coragem toda para entrar naqueles banheiros dos bares que rodeavam a pequena orla.

Andamos por um longo período e aquela presença já havia se tornado insuportável, algo em mim queria mais que aquilo, mas eu não teria coragem.

– Você tem certeza que está bem – ele me perguntava. Eu relutava em responder, e por fim dizia que sim. – Podemos ir até a casa onde estou hospedado e quem sabe lá você se sinta melhor.

Não sei se fiz o certo ao deixar-me permitir ceder ao seu convite, apenas sei que até a pousada onde ele estava hospedado eu me dirigi. A presença dele me consumia, me preenchia de forma que todo o meu corpo já não aguentava mais o peso, já não conseguia mais se manter de pé.

E foi assim que eu tive que me desfazer das minhas roupas. Foi assim que me mantendo homem, músculos e sentimentos indecifráveis, que deixei que ele me tocasse. Toda sensação advinda do seu corpo me proporcionava prazer. Arrepios que percorriam a minha espinha, e faziam com que todos os meus pelos se levantassem e permanecessem eretos era o sinal do quão bom aquilo estava sendo pra mim.

Lágrimas, vez ou outra me escapuliam dos olhos, e era um misto de bons sentimentos e pessimismos. Foi um tempo bom, e de boas descobertas. Abraços, beijos e caricias eram sempre bem vindas. Assim percebi que tudo aquilo que nos meus sonhos por mim era vivido, aos poucos iria se tornando realidade. Nesta tarde, entre o crepúsculo e o anoitece, alguém me decifrou e descobriu os meus verdadeiros desejos.

***

Ato nº 3

Os dias se passavam como páginas de um livro lido no mês de outubro. O verão era um pretexto para que a felicidade rondasse a minha vida. Tudo bem se tudo estava tomando um rumo certo e se de certa forma aquilo me magoava. Porém as vezes eu achava que tudo era tão sem nexo. Perdia-me por horas em pensamentos que me remetiam a um mundo de infortúnios de auto punição que fora forjado desde sempre na minha mente por membros de uma sociedade secreta que de tão bem organizada, já haviam formulado todos os pressupostos do que seria viver neste mundo.

Vez ou outra eu adentrava em embarcações que me levavam a ilhas distantes do meu âmago, e de lá subtrai a coragem que me fazia querer permanecer do jeito em que me encontrava. E só assim quando de mim mesmo obtinha a força eu passava a pensar de forma diferente como tudo aquilo estava sendo bom para mim. E foi assim que as tardes se passaram tépidas.

Ele com seus olhos cravados em mim. Ora um beijo na face, ora um beijo nos lábios. Todo por do sol era bem vindo, e nós saldávamos a beira mar, tudo aquilo que acontecia da forma mais natural possível.

***

Ato nº 4

Despedir-se é um dos momentos da nossas vidas que mais custam fazer. Fere, dói, cava buracos extremos na superfície emocional do nosso peito. Mas como todo verão passa, é natural.

Lá estávamos nós dois em uma rodoviária. Ele com aquele dois grandes olhos demasiadamente azuis e um semblante que me causava pena. Eu com as malas nas mãos na promessa de sempre manter contato com ele.

As horas não demoravam de passar, e cada momento que ainda tínhamos juntos era sagrado. Eu pensava: “ele domara minha esfinge”. E via nos seus olhos que ele interpretava tudo aquilo que eu dizia no olhar.

O amor é tão mais sagrado que qualquer escritura, quando nasce assim sem pormenores. Sem enredos já descritos. Apenas fragmentos que podem ser vividos a cada instante. E se finda naturalmente, é fácil uma superação. Entretanto despedidas…

Eu não podia mais olhá-lo, senti-lo assim tão perto de mim. E quando eu estivesse em casa, à saudade tornaria meu coração um órgão esclerótico. Meu peito se inflamaria, tomaria proporções infinitamente grandes e eu explodiria num súbito momento para retornar fragilizado como um pobre pombo aleijado.

Amava-o, isso já era certo.

Ele domara a minha esfinge.

Entretanto o relógio esse deixa que seus ponteiros girem rápidos e descontroladamente, quando um momento lhe causa prazer. Eu deixei que uma lágrima me escapasse dos olhos. E o beijo da despedida fora mais doloroso que o pungir da penetração

***

Ato nº 5

Todo amor de verão é duradouro apenas quando este próprio também dura. Mas amores de verão relacionados a descobertas prometem durar durante um longo período da vida. Eu sabia que fora ele quem havia me decifrado. Domara todas as minhas quimeras. Montara a minha esfinge. E eu próprio era a esfinge.

Estávamos longe haviam mais ou menos 5 dias. Nos conhecemos num verão de dourado estio, como o descrito por poetas em sonetos. Amávamos como as reticências que constituem a vida. Parecia eterno, e me consumia a cada momento. Era uma dor que vez ou outra me remetia a um parto de mim para comigo mesmo onde eu morria e ressuscitava numa ode entoada ao nascimento do novo homem. Já não sabia mais o que fazer. Ele me ligava , eu atendia, passávamos horas e horas pendurados no celular conversando sobre nossas vidas. Em alguns momentos ele cantava para mim pedaços de músicas de David Bowie, mas a que mais encantava-me era uma de Shakira que invadia o meu ouvido provocando dentro de mim, arrepios que me levavam a sentir-me em um dos sete infernos e ao mesmo tempo tão perto de Deus.

Amar é um verbo para ser conjugado a qualquer momento, e quando há saudade por mais que você não queria, este se conjuga a toda a hora. Dentro de si, refletindo no semblante a dor de está distante.

Eu não me conhecia muito ainda. Não tinha certeza de onde tudo aquilo iria me levar, e talvez eu enveredasse por caminhos escuros, perdendo-me de mim sem a possibilidade de um dia me encontrar novamente.

Sempre que eu via a lua lembrava-me das noites ao redor de uma fogueira, violão, alguns amigos. Ele sem camisa. O estilo glam deixado de lado. Entoávamos cantigas antigas de rock, outras vezes modinhas espanholas, e aquilo era tão simples, mais ao mesmo tempo tão rico e importante para  minha história de vida.

Os dias se passavam, sentia como se páginas de um livro, tendo como protagonista eu, estivesse sendo lidas a cada quinze minutos. A partir daí eu mesmo comecei a fazer a leitura da minha história, e o mundo se mostrou completamente cruel com meus sentimentos levando-me a perder contato com ele que eu já amava tanto.

***

Ato nº6

Perdemos contato como um barco se perde em meio ao oceano. E a que grandes mares isto me remeteu. Dias e dias chorei inundando minha casa, naufragando em mim mesmo. Um ferida enorme não cicatrizava em meu peito. Aberta em carne viva, fazia-me a todo momento sentir náuseas, e eu podia até colocar sangue pela boca, mas drogas são uteis nos momentos em que mais precisamos. E eu encontrei um refúgio na maconha.

O peso de amar e ser ao mesmo tempo já era pouca coisa comparada a sensação que eu sentia quando aquela fumaça se espalhava pelo meu quarto e um cheiro de erva embriagador me deixava completamente ébrio. Fora assim que resisti aos meus dias sem ele, sobrevive, mesmo ilhado, eu sobrevivi.

***

Ato nº 7

Ela tinha um olhar cansado dissimulado, talvez fosse o efeito da maquiagem pesada. Mas aqueles cabelos loiros enormes e a boca de uma cor vermelha fulgurante, fazia-a parecer-se com uma maçã pronto para ser abocanhada.

Frente a mim no ônibus coletivo, seus olhos volta e meia fixavam-se nos meus. Acho que se apaixonou pelo meu estilo glam. Meu cabelo colorido, minha jaqueta de couro, minha calça largada. As botas que vinham até o meu joelho. A minha maquiagem. O conjunto que me tornavam um estereótipo de movimento.

Eu pensava que talvez alguns dos meus códigos ainda estavam por ser revelados. Volta e meia eu me deparava com aquele rosto feminino angelical, mas tão voluptuoso como a própria beleza demoníaca que há no pecado. Será que nossos corpos se encaixaram de forma perfeita. Eu tinha as ferramentas, ela também. Mas pensar na possibilidade causava-me náuseas. Entretanto era tão bonita. Um retrato de pinup gótica do século XXI. O que fazer? O que pensar? Havia uma confusão dentro de mim. Enigmas novos poderiam ser lançados sobre a mesa a qualquer momento. Isso me assustava, e minha lembrança era levada a um verão passado, a um amor doido e mal resolvido. Precisava da presença dele ali naquele momento. Onde estava? Com quem estava? Por que não me ligava mais? E essas perguntas também eram enigmas, mas não tinham a mesma intensidade dos meus códigos. Quem me decifraria. Decifra-me ou devoro-te. Isso era de mim para comigo mesmo, eu me consumia. Eu me perdia a cada instante em um mar de ânsias desconhecidas onde tantos peixes nadavam contra a maré, e por assim dizer eram suicidas. E se eu nadasse contra a maré, e se eu não aceitasse os fatos? Ela me atraia? Eu não tinha a resposta, mas de certa forma eu a admirava. Talvez se eu fosse mulher, daquele jeito me comportaria.

O ônibus parou, ela desceu. Grandes nadégas. Beleza fugaz. Foi-se para longe, para lugar distante de mim, deixando-me a sós com meus pensamentos.

Continuava meu caminho rumo às veredas que dariam para o meu interior, era tão pesado tentar se sustentar sobre os próprios pés. O peso dos céus caia-me sobre as costas. A paisagem se transfigurava de segundo a segundo, dando a perceber que o ônibus se movimentava. Era o seu dever. E se eu me movimentasse, aonde chegaria? Nas camadas mais profundas do que eu chamava de âmago, e talvez novamente pudesse controlar as oscilações do meu eu. Pausa!

Alguém chamou meu nome, e ao virar para trás. Que surpresa! Lá estava o meu estereótipo amado. E agora? O destino conspirava apara o nosso encontro. No ônibus. Sentou-se ao meu lado. Tocou-me a face. Os olhos do azul que eram características suas. Eu podia sentir que uma lagrima a qualquer momento me escaparia dos olhos. Foi como retornar a o passado e se deparar comigo mesmo sendo decifrado. Ele tinha aquele poder de me revelar as coisas apenas num olhar. Era como um momento de clarividência, quase paranormal. Chamei-o de amor, abracei-o. “não me abandones mais, por favor”.

Dormimos juntos aquela noite, e nossa história voltou a ser escrita nos pilares daquela sociedade.

***

Ato nº 8

Costumávamos a ir a shows de Rock com frequência. Além do sexo, e isso eu pude perceber ouvindo Alice Cooper, que drogas são as portas para o nosso mundo interior sem pensar. Descobri nas ervas um refugio para os meus dilemas. Pude conviver bastante tempo com o rock e seus derivados para que mais dos meus códigos fossem decifrados. E ele decifrava a cada dia uma parte de mim. As oscilações do meu eu já não ocorriam com tanta frequência e meu alter ego original já havia tomado o seu lugar em mim.

Os solos de guitarra eram um apoio para o meu caminhar. E quando o barulho da música suja invadia os nosso ouvidos, deixávamo-nos embriagar com a liturgia proveniente da mesma.

Nosso relacionamento se desenvolvia como um disco sem tema principal. Beijavamo-nos quando era propicio e quando também não o era.

Drogas, vinho e rock and roll, um mundo a parte para quem busca um escape da realidade, eu constantemente buscava. Foi daí que comecei a pensar que talvez amá-lo era apenas um pretexto para que eu próprio fugisse de mim, não do que já havia sido decifrado, mas do que ainda estava por vir. Ele fazia para mim todo o trabalho árduo me desvendando, e assim me poupava de sentir uma dor interior, proporcionando tanto o prazer que vinha do gozo quanto a dor que há na penetração.

Após todo o sexo, minha cabeça repousava em seu peito. E que tabua de músculos este era. Algumas poucas vezes eu chorei nos seus braços quando um sentimento de angustia me invadia após o gozo. Ele acariciava-me de forma que toda a dor era pequena diante da sensação advinda do seu toque.

No palco uma banda cover de Alice in Chais feria nossos ouvidos trazendo uma sensação de dor que era aprazível para nosso sado masoquismo. Trocávamos um olhar ou outro frequentemente, e no final do show nos beijamos em público.

***

Ato nº 9

A compreensão faz de qualquer relacinomento um campo de flores colorido e aromático. Com aqueles olhos de um langue azul, ele demonstrava a compreensão em cada ato. E foi no meio das luzes psicodélicas que eu descobri que ele estaria ao meu lado a todo o momento.

Ao longe um outro rapaz me olhava. Nessa noite a música eletrônica embalava nossos corpos com sons que nos remetiam a um êxtase que se refletia em nossos corpos em movimentos bruscos.

Nossos olhares se encontravam, era um triangulo amoroso que estava por surgir. Eu o olhava com cuidado, o rapaz desconhecido mirava-me constantemente, e o meu amado já havia percebido o que ali se passava. Eu tinha medo. E do medo nasce a autodefesa e foi assim que eu me comprime em um semblante de insatisfação.

Ele me levou ao lado do rapaz. Depois de tanto relutar. Lá estávamos nós. Frente a frente um dos outros, com os corações batendo na mesma intensidade. Olhares sorrateiros. Vergonha alheia pairava no ar. Aproximávamos um do outro pouco a pouco, até que um beijo triplo foi dado.

***

Ato n º 10

Três corpos masculinos nus estirados no chão. Nossos corpos. Eu cheirava a indecência. Muito sêmen fora derramado, ora em mim, ora no chão. Foi assim que eu descobri que sexo a três também era uma realidade e que ele estaria junto de mim até no momento da traição.

***

Ato nº 11

À noite enquanto dormia eu próprio me demonizava, mas ao olhar do meu lado e ver tão bela figura adormecida eu mesmo me santificava. Eu era o único que me punia, e o único que me perdoava. De quando eu quando eu feria a mim mesmo, xingando-me, magoando-me. E ele, ele é quem me acalentava, me embalava com suas canções de ninar. O violão posto em mãos, os lábios cinzelados, denunciavam uma perfeita simetria.

para amarte necessito una razon e ès difil crer que no exista uma mas pra este amor

A voz me penetrava, a música me acalmava. Era mais um código decifrado, realmente eu o amava. Assim vivíamos. Um relacionamento se desenvolvendo entre os parênteses da vida. Um amor à parte. “uma outra forma de amar no verbo amor”.

As vezes eu me deixava levar por pessimismos. “e se um dia tudo entre a gente acabar”. Eu morreria de morte matada, como de saudade eu sempre falecia. Ou Deus, não permita, não permita. E na aflição eu acreditava que uma criatura superior e divina existia, e que me amava, e que me guiava, e que de mim também cuidava. O outro, ele, era meu anjo da guarda.

Passamos meses conjugando o nosso verbo amor. Mas como tudo nessa vida finda, um dia nos deixamos. Mas isso não é caso para ser contado em fim de conto. Eu me apaixonei por outra pessoa. E já não podia permitir que ele fizesse parte de outra relação. Sexo a três era uma realidade, mas era uma ambiguidade da qual eu fugia. E novamente novos códigos surgiram para ser decifrados. E eu me tornei a representação da minha própria esfinge.

***

Ato Final

Não tinha a mesma beleza que o anterior. Eu agora já sabia o que queria, mas apesar de me encontrar na majestade de ser dono de si, novos códigos em mim a cada dia apareciam. Talvez eu nunca conseguisse superar a minha própria esfinge, e assim eu mesmo me devorava. E meu outro homem devorava-me também. Cantava tão bem quanto o outro, tinha os cabelos de um castanho claro beirando o loiro, olhos verde mar. Músculos torneados, um estilo mais grunge. E eu migrei do glam para o sujo. Nos amamos durante meses. Vivemos bons momentos juntos. Entretanto algo de errado sempre acontecia. Ele nunca me surpreendia como o outro. talvez por ser o primeiro o passado ficara marcado em mim. Aliás ele quem havia me decifrado primeiro e mesmo assim eu o havia devorado. Mas este segundo tinha um que de besta que fazia com que eu me encantasse e deixasse-o subir sobre mim. Bastava que ele me tocasse e eu emudecia. E minha boca se abria num pedido que era interrompido pelo beijo. Ele me penetrava e era cruel ao me ferir de forma tão brutal, mas no fim eu sempre gostava.

No entanto este segundo fora o primeiro de muitos segundos, que eram terceiros, quartos e quintos. E eu já não sabia quem mais eu queria. Apenas me entregava, deixava-me invadir. Ninguém nunca me surpreendia. Mas eu em contentava em ter apenas a mim mesmo como amante fiel. O resto eu deixava para depois, o resto era sexo, amor fugaz, trivialidades. Porém eu já era feliz.

É tão natural amar você, anjo azul. Eu cristal não vou te esquecer, olho azul”.

 

Marcos Welinton Freitas

Marcos Welinton Freitas

Baiano do Bravo/Serra Preta. Graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Escritor: poeta e contista.

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