HYPNOS

É que tudo tinha se dado como uma tentativa de fuga. Só agora eu consigo divisar um pouco do que me aconteceu. Mas é que agora eu estou tão longe de todos aqueles fatos repulsivos… Não, não sei ao certo se posso chamar assim… É que me apareceu novamente, após longos, longos anos de ausência. Apareceu-me tudo de novo e eu não sei o que fazer. Sei que não posso falar com qualquer pessoa sobre isso. Não posso pedir um conselho sabendo que a resposta ao meu pedido será a entrega de um cartão de um psiquiatra ou o e-mail de um terapeuta. Não acredito nesses caras. Não acredito em nada do que façam e falem, a não ser em sua capacidade incansável de nos tirar dinheiro. E por isso busco pelo papel em branco com minha caneta preta segura por uma mão trêmula que passeia no papel enquanto sua. Espero que não te canses de mim assim tão facilmente. Agora, enquanto escrevo na esperança de que alguém um dia leia, tenho-te como o único ser disposto a ouvir o que me aconteceu.

Tinha sido educado muito rigidamente num semi-internato de cinzentas paredes e almas. Tudo isso no intuito de que eu fosse um bom cristão. Eu seria um cristão temente a Deus, que seguiria todas as regras da moral, bons costumes, da ética, do Direito e, com isso, teria a alma tão cinzenta quanto as paredes de meu internato. Todos os dias rezávamos bem cedo, assim que o sol divisava no horizonte aturdido do interior do Estado. Depois líamos, fazíamos nossas lições, jogávamos brincadeiras de roda, almoçávamos, cochilávamos na sesta e depois voltávamos a estudar. Nossa noite inteira eram dois fatos: janta e sono. De toda minha vida no internato o sono era a parte mais insignificante de minhas ânsias de menino, até o dia em que aquilo começou.

Antes preciso dizer uma coisa: a gente nunca foi cristão de verdade. Digo, eu e meus amigos. Estávamos ali, estudando e fazendo outras coisas a que éramos obrigados, mas não tínhamos o menor medo do diabo, nem o menor respeito por Deus.

Voltando. Tudo começou numa noite bastante escura, clareada aqui e ali por raios que caíam aos montes. Tínhamos ido dormir cedo e eu não havia atendido o conselho da irmã Da Glória que tinha dito para nunca dormirmos de barriga cheia para não termos pesadelos. Não tinha medo de pesadelos, assim como não tinha medo do demônio, nem acreditava nas bestagens de Deus. Estava deitado esticado na cama, de vez em quando me mexia, espalhando-me pelos lençóis, até que dormi.

Não sei ao certo o instante exato do sono. Sei apenas que fechei os olhos e abri de novo. Estava num lugar completamente estranho. Havia uma luz tão forte, tão forte que não podia abrir os olhos sem ter de súbito uma dor gigantesca de cabeça. Pus minhas mãos nos olhos e fiquei parado, quando senti que o chão se movia. O chão se movia como se fosse o balançar das vagas agitadas de um mar tempestuoso. Caí. A sensação de cair foi terrível porque não teve pouso. Eu ia caindo e caindo e caindo enquanto tentava gritar, berrar, chamar por alguém, pedir ajuda. Minha voz havia sumido e os sons que articulava estranhamente pareciam de um nascido mudo. Aquilo teve uma duração sem marcação de tempo. É que eu havia perdido completamente a noção de tempo e de espaço. De repente minha queda foi estancada por um mar branco e gelatinoso. Eu estava imerso num mar branco fosco e gelatinoso, como se fosse um gigantesco oceano. Apenas minha cabeça estava para fora daquilo que eu tentava entender como água. Quando olhei para cima o que poderia compreender como céu era completamente branco e houve um instante em que toda aquela brancura me cegou.

Eu abria os olhos com toda força e do mesmo jeito que me esforçava mas não emitia som articulado com minha voz, esbugalhava olhos que não enxergavam. Estou cego! Gritei em pensamento e naquele exato instante em que havia gritado interiormente, senti que algo se enrolara em meus pés e me puxara para dentro de todo aquele mar. Num impulso que até hoje não compreendo, tomei o máximo de ar que pude, como se estivesse numa das aulas de natação do internato, e afundei.

Quando abri os olhos novamente, tornara a ver e estava diante dele. Ao contrário do que diziam os livros ele era horrível. Pior, muito pior em imagem que seu irmão. O rosto era todo branco, de um branco alvo resplandecente que dava vontade de suicídio. Não tinha boca nem nariz, apenas uns olhos gigantes de cor amarela, mas sem nenhuma pupila ou íris para onde olhássemos. Eram apenas duas bolas gigantes de cor amarela. Não me lembro muito de seu corpo, lembro apenas de que abaixo de sua cabeça algo esvoaçava como que lençóis brancos enfunados pelo vento de uma janela aberta. E ele falava através de minha mente.

Olhei fixamente para ele com o maior pavor que pude ter em toda a minha vida e ele ia me dizendo, aquilo era como um sussurro. Um sussurro demoníaco de um deus que não tinha nada a ver com a criança birrenta de barba branca do cristianismo. Ele me cobrava. Era como se ele fosse um agente do Fisco. Ele me cobrava o fato de eu nunca ter tido sonhos quando dormia. De fato, meu sono sempre fora dos melhores, dormia como um pássaro inocente. E ele cobrava isso. Quando eu ousei responder às suas cobranças, antes que minha voz mentalizada pudesse ser pronunciada, bradou como um monstro alucinado, enquanto sua cabeça se incendiava agora da mesma cor das bolas de seus olhos opacos. Disse-me que eu estava condenado. Eu estava condenado a viver dentro de um pesadelo durante todo o resto da minha vida. Durante TODO O RESTO DA MINHA VIDA…

Eu enlouqueci. Naquele momento eu enlouqueci. É que queria chorar, mas por mais que me esforçasse, não saía de meus olhos sequer um milímetro cúbico de lágrimas. Eu queria gritar e havia perdido a voz, queria correr, mas estava paralisando ante a figura horrenda daquele monstro das profundezas dos sonhos e queria chorar, mas meus olhos estavam secos como as areias quentes do Saara. Daí a voz dele tornou-se mecânica como a de um robô maquinal. E ele disse que eu tinha apenas uma escolha a fazer que ele me facultava. Pensei como se gritasse implorando que me dissesse qual – ele entendeu os meus pensamentos e disse que eu poderia escolher o pesadelo em que queria cair para o resto de minha vida, ou poderia escolher o momento de minha vida em que quisesse cair no maldito pesadelo que ele escolhesse ao seu alvedrio.

Tive vontade de rir por achar ele bobo de me propor isso, mas pensei bem rapidamente que ele poderia saber o que eu estava pensando. Foi aí que gritei em pensamento que optava pela segunda hipótese. Gostaria de escolher quando cairia no inferno dos pesadelos, abriria mão de escolher o pesadelo em que cairia. Ele olhou-me bem de perto e senti que perguntava em qual época de minha vida me entregaria ao seu poder. Pensei rapidamente: em minha velhice humana. Quando eu estiver bem velhinho.

Foi aí que senti um enorme calafrio tomar meu abdômen e vi aquele ser se agigantar em minha frente até que de um salto, esmurrou o chão onde estávamos em pé e eu caí num abismo escuro.

A sensação da queda foi algo como um piscar de olhos, de repente acordei com o coração a mil, sobre minha dura cama no internato escuro. Estava lavado em suor e meus lençóis estavam quentes como um braseiro.

Será que você imagina o que aconteceu? Sim, justamente! No dia seguinte eu havia seguido com minha vida de internato e em semanas havia esquecido completamente o fato. Voltei àquela minha realidade sonolenta de ausência total de sonhos no sono. Cresci, saí do internato, casei, me formei na universidade. Virei um homem de negócios e agora sinto um calafrio terrível como se algo me tomasse. Sim, estou velho. Estou bastante velho e sei que minha hora chegou. Lembro-me de seus olhos horrorosos… Lembro-me que disse: Assim que sua época chegar, a lua estará amarelada num fundo muito escuro de céu e você adormecerá e nunca mais acordará… Você cairá no pesadelo que preparei para si com muita ânsia… Agora estou em minha escrivaninha, pondo tudo isso a termo. Quero que saibam pelo que passei antes que eu vá. Quero que saibam, não que entendam. Ninguém é capaz de entender o que é estranho demais para essa nossa vida de faz de contas. Agora sei que tudo aquilo era real. É. A luz sem a escuridão é só mais uma forma de cegueira.

A lua está cheia e intensamente amarelada num fundo negro de céu, e eu estou adormecendo…

Mário Filipe Cavalcanti

Graduado em Direito pela Ufpe, advogado, escritor, autor dos livros de contos Comédia de enganos (Penalux, 2013) – Semifinalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014 – e O circo (EdUfpe, 2015), colunista das revistas Samizdat e Página Cultural e colaborador do site Homo Literatus, já saiu pelas revistas Flaubert e 7faces. Leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e também absolutamente nada. Conheça o Blog .

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