Juntas

(apontamentos somáticos)

Quando sinto dor reumática eu lembro da minha avó. É como se a genética fosse um álbum de recordações e,a cada ano, a cada nova mudança do corpo, algum antepassado se revelasse. Quando ficamos velhos vamos nos parecendo com nossos pais, avós, bisavós. Às vezes mais e mais. Não adianta maquiagem.Olhamos no espelho e começamos a reconhecer todo um álbum de família.

A má oclusão de meus dentes faz com que eu sinta meu pai através da minha arcada dentária, quando sorrio. Já a vovó Hercília, que eu sinto nas juntas,eu lembro do seu aniversário que ocorria no primeirodia de janeiro:eu ia lá e abríamos uma champanhe na praia para o novo ano dela e de todos.

De forma singela, com nossas idades diferentes, tentávamos fazer uns programinhas juntas.  E quando conversávamos ela transmitia calma e serenidade. Eu era uma bomba relógio ambulante, e ela que tinha tão menos tempo do que eu, parecia ser uma ampulheta parada.Ela cruzava o tempo fazendo crochet, lendo e indo às compras em 3 jornadas diárias que duravam cerca de 90 minutos cada – para ir no supermercado Peralta, que ficava na quadra ao lado. O reumatismo a obrigava a andar em passinhos miudinhos, lentos, difíceis e orientados por uma bengala de madeira.O supermercado era só o pretexto para ela caminhar, para não ficar ainda mais paralisada.Minha avó dizia que não gostava de andar como boba. Ela podia dar 5 voltas no quarteirão esperando o açougue vender a ponta do pedaço de carne – para chegar no filé do meio que ela queria comprar, mas ela não suportava a ideia de flanar à toa e sem rumo.

Preenchia seus dias comprando papel higiênico, laranja e bife; e assim também dava bom dia ao porteiro do prédio fugindo um pouco da solidão que reclamava tanto.

Além do reumatismo, eu herdei da minha avó o sistema organizacional e a interdisciplinaridade. A minha avó possuía gavetas que reuniam objetos de toda a natureza e áreas do conhecimento, como por exemplo: um pente, um modelo de ponto de crochet, uma receita de bolo, um esmalte, uma caneta e um papel com manuscritos acerca de seus pensamentos soltos. Tudo junto, como um gabinete de curiosidades.

Sentíamos a mesma tristeza, ela com 80 e eu com meus 21 anos. Ela preenchia o vazio da minha existência com batatinhas fritas caseiras em rodelas. Quando ela morreu eu estava em uma entrevista de emprego. E, certamente, se ela estivesse viva hoje, eu ofereceria a minha companhia de adulta empregada e assalariada.

Agora ela está viva apenas entre meus ossos e se comunica comigo nos dias de crise reumática. Acordo, sinto dor e lembro dela. Não tem jeito, mas tem juntas.

Luciana Arslan

Luciana Arslan

Trabalha na Universidade Federal de Uberlândia - UFU, onde é professora do IARTE. É autora de livros publicados pela Editora Moderna e Thomson Learning. Formada em Artes Visuais, fez mestrado na UNESP, doutorado na USP e realizou estágio de pesquisa pós-doutoral no Center for Body, Mind and Culture na Florida Atlantic University com bolsa da CAPES. Tem concentrado seus estudos na área da Somaestética.

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