Leitura, letramento

“Um país se faz com homens e livros”, desse modo escreveu Monteiro Lobato, autor da saga do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” e tantos outros clássicos da literatura tupiniquim, já relatando a importância e o papel social-transformador do simples ato de debruçar os olhos sobre as páginas de um livro. O ato de ler é essencial à vida e a qualquer área do conhecimento. Ou, pelo menos, assim deveria ser.
O Brasil, assim como a maioria dos países em desenvolvimento, possui uma tradição de leitura fundamentalmente elitista e, em se tratando de nordeste, as consequências negativas provenientes de tal costume são ainda mais comprometedoras.
Enquanto o governo insiste em exaltar números fantásticos concernentes à redução da taxa de analfabetismo em território nacional, estima-se que 60% da população brasileira é composta por analfabetos funcionais, o que quer dizer que aproximadamente 115 milhões de pessoas não desenvolveram a capacidade de compreender o que lêem. Com isso, multiplicam-se as críticas à metodologia usada pelos educadores e instituições de ensino na formação do aluno-leitor.
É preciso encaminhar o aluno para além da decodificação dos códigos lingüísticos, como também aumentar a sua experiência de leitura, fazendo com que ele possa decifrar o que está subentendido no texto e, principalmente, fazer com que o aluno desenvolva a consciência do papel social desse ato, pois ler é transformar, revolucionar.
Para que esta mudança de postura seja devidamente efetivada, os educadores devem procurar novos métodos para incentivar a leitura, tanto em sala de aula quanto no ambiente extra-escolar. O objetivo atual do professor das séries iniciais não é o de alfabetizar apenas, mas também o de encaminhar cada criança ao letramento. Em termos mais específicos, trabalhar a partir da linha de pensamento da psicogênese da língua escrita, onde é considerado que cada aluno já traz consigo, ao chegar à escola, algum saber sobre a construção da escrita, ato conseqüente ao ato de ler. Tudo no intuito de entender o contexto em que cada estudante está inserido, sempre percebendo a heterogeneidade das salas de aula, para dizer a eles que os atos de ler e escrever possuem uma finalidade em si, ou seja, uma espécie de recompensa.
Ainda nesta linha de conhecimento, os professores se fazem perceber da importância de se trabalhar com a maior variedade de tipos textuais possíveis, assim como elevar o tempo destinado à leitura, fazendo com que se desenvolvam comportamentos leitores e escritores no corpo discente das instituições particulares e públicas do país.
É claro que a responsabilidade maior fica a cargo do professorado, porém é fundamental admitir que o auxílio dos pais deva ser incondicional no desempenhar do papel de incentivadores. É urgente tornar o hábito da leitura mais presente e prazeroso, principalmente entre os jovens.
Além do modo de ensino retrógrado usado pelas escolas, a reduzida influência familiar, a dificuldade no acesso a livros, revistas e jornais, outro fator tem contribuído, e de maneira avassaladora, para o desprezo frente ao hábito saudável da leitura: o ciberespaço.
Com a internet funcionando a pleno vapor, a palavra perdeu um pouco de sua magia. A tríade imagem, som e movimento suplantou o deleite que tínhamos ao folhear as páginas de um bom e velho livro. Estamos atravessando a fase da “escola do espetáculo”, onde a palavra vem sendo substituída por esses elementos de fascínio como instrumentos de mediação comunicacional. Uma sociedade de espectadores viciados, hedonistas e consumistas está sendo gerada numa velocidade inimaginável.
Por conseguinte, o tempo para o prazer está cada vez mais reduzido. Não tenho dúvidas que é esta “sociedade fast-food” a causa maior da redução do número de leitores no mundo. Fato muito, mas muito difícil de ser revertido.

Este texto nasceu de uma reportagem que fiz no início de 2007. Fiz uma reconstrução, para que ela se adequasse à proposta de um projeto de pesquisa que também executei naquele mesmo ano. Agradecimentos a Edeil Reis, Pedagogo e colega de Letras, pelas sempre sábias palavras.

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

2 Comentários
  1. Parabéns Germano, mais uma vez seu texto me levou ao passado, um bom leitor começa quando criança , em casa sendo estimulado por seus pais, não me considero uma ótima leitora, mais fui estimulada a ser, não pelas minhas professoras mais pelo meu pai que devorava livros na ânsia do conhecimento , tínhamos uma biblioteca em casa simples mais surtida de bons autores aos quais comecei a tomar gosto pela leitura. Livros que me levavam a viajar pela minha imaginação tentando dar outro final aqueles ” e foram felizes para sempre”. Hoje não vemos essa mesma vontade nem dos pais nem dos próprios filhos a esse habito tão bom, não temos mais bons livros infantis, as escolas infantis também não da ao meu ver uma grande importância a esse habito, os desenhos animados tomaram lugar de nosso bons livros e leitores infantis.

  2. Gostei muito do seu texto e concordo em gênero, número e grau!!

    Meu caro ex-colega de curso ( Letras), se estiveres atuando no magistério deves saber o quão difícil é para nós introduzirmos o hábito da leitura. Há variadas metodologias leitoras e, infelizmente, a escola/educação tradicional, que você salientou muito bem, desenvolveu e continua desenvolvendo a leitura para pesquisa. Levar o discente a decodificar, chegar ao prazer do texto lido tem sido um dilema, mas como toda regra possui exceção há também aqueles que se entregam ao prazer do texto. Esses fazem o nosso “trabalho trabalhoso” valer à pena.

    Parabéns pelo texto!!

Seu comentário é importante!

Your email address will not be published.

Você pode usaratributos e tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>