Lembranças

As crianças acordam e engolem o primeiro gole da revolta. Ter que levantar, trabalho árduo. O mundo exige viver. Há aquele momento impactante em que as coisas parecem sair fora do lugar, nada parece ser o mesmo. Mas nunca, as coisas nunca haveriam de ser as mesmas, pois a mudança aconteceria espontaneamente. O lapidar metamórfico incessante de algo. O encontro marcado com a tarefa diária. A compreensão e incompreensão do instante. Roberto acordou-as às seis da manhã como o fazia desde o dia em que elas foram matriculadas no classe primária do colégio. Elas se revolveram na cama, espernearam, até que levantaram sem animo, feito zumbis. Tomaram banho, vestiram as roupas e desceram as escadas em direção a cozinha para tomar o café da manhã. A mesa estava posta, Roberto no canto observava as crianças se moverem, mastigarem, piscarem, reclamarem mesmo que interiormente. O dever chamava e cumpri-lo era uma obrigação, como tudo aquilo que é de obrigação de um homem a partir do momento do seu nascimento. A criação é um mistério, mas a missão é uma regra. Ser aquilo que se aparenta, o de dentro morre, o de fora é o que transparece. E o mundo gira conforme o ditado da boca que diz saber mais que as outras, a fala que antecede a vontade e impõe o senso comum.

Os meninos correram como duas feras ao terminarem de engolir o café da manhã e foram até a sala pegar suas mochilas que repousavam em cima do sofá, já arrumadas. Estava tudo pronto, o dia havia só começado. Roberto olhou para os filhos enquanto eles atravessavam aquela porta que dava para rua e pensou, agora é com eles. Trabalho feito, dever cumprido. Voltou seu olhar para a janela e viu quando as crianças subiram no transporte escolar sorridente, esquecida a revolta. Após o carro partir, ficou ainda alguns instantes parado observando a rua estreita em que morava, as casas todas, com a aparência idêntica, grama, jardim, portas de madeira, janelas de vidro, telhado de telhas. Abriu a boca num bocejo entediante, voltou o olhar para dentro da sua casa e subiu para o quarto onde começaria o seu trabalho, aquele que o dava condições para viver a vida que vivia.

O quarto estava escuro, abafado. Os moveis exalavam algum odor de velhice e solidão. As paredes estavam gastas. O computador ligado exigia o começo da tarefa. Pensou no quanto era dependente daquilo. Pensou em quantas vezes quis fugir daquela rotina para ser o outro que morava em seu interior, mas que era impossível. Sentou-se na cadeira a frente da máquina e recostou-se em seu espaldar. Abriu uma página na internet e digitou um endereço que lhe levou a página que era seu instrumento de trabalho. Verificou e-mails, olhou perfis, e sentiu-se completamente desolado diante daquela realidade árdua a qual ele se submetia. Havia acordado inquieto, a criatura amorfa e branca que morava num canto escuro do seu âmago, anunciava-lhe boas novas, boas velhas, quem sabe. O seu passado, a sua frustração socavam-lhe o estômago com a intensidade de um choque entre mundos, mais que isso, uma colisão etérea e inimaginável de sentimentos acontecia na sua indubitável vileza. Na sua acida certeza de estar fingindo, na sua conformidade com as coisas, na sua rotina imposta.
Aquele dia seria diferente, levantou-se da cadeira e seguiu em direção a cozinha. Ao chegar ao cômodo abriu a geladeira e retirou de lá uma garrafa de vinho que estava pela metade. Pegou uma taça no armário encheu-a até não poder mais e brindou consigo mesmo pela sabença da sua coragem naquele momento. Sorveu o líquido com a delicadeza de uma dama e a audácia de um jovem ébrio. Dirigiu-se até a sala e se sentou no sofá onde há minutos atrás repousavam cheias de livros as mochilas das crianças. A imagem dos filhos o perfurou a espinha, aquela imagem cruel e fria das crianças da qual tomava conta desde aquele… desde aquele acidente. A fatalidade que mudara sua vida por completo. A vil trapaça do destino que o amputara e tornara-o aquele, sabe-se lá o quê que era. Súbito foi pego pelo susto de ter consciência de quê precisava trabalhar, tinha sabe-se lá quantos livros pra ler e aprovar edição. Não podia fazer daquele um dia diferente, aquele seria um dia igual aos outros.

Levantou-se foi até a cozinha e despejou o restante do vinho que ainda estava na taça na pia cheia de pratos sujos e voltou para o quarto onde o computador ligado o esperava. O quarto estava parado. Uma sensação de mesmice perambulava pelos cantos do cômodo. Estático ele se restringiu quando ouviu do nada o barulho da campainha. “Quem será?” pensou automaticamente. Demorou-se um pouco parado do jeito que estava, até que a campainha soou de novo e ele teve a certeza de quê precisaria atender. Desceu novamente as escadas, o quê não era muito comum para ele. Tinha a sabença de quê descia e subia aquelas escadas apenas umas cinco vezes durante a semana, quando as crianças estavam na escola. No final de semana é que se extrapolava, e hoje ele havia feito aquilo de subir e descer as escadas tantas vezes que já havia perdido a conta. Inquietou-se com a possibilidade da quebra daquele involucro no qual se mantinha e pensou em não atender mais a porta. Só que lá no fundo, no escuro infindo do seu ser, algo o fez querer abrir. Boas novas, velhas novas…

Abriu a porta lentamente e viu aqueles olhos. Par de perolas brilhantes vindo de algum oceano fundo, e o rosto perfeitamente cinzelado, aquela boca rosada, aquele não sei o quê que o remetia ao grande pecado da mulher. Constrangeu-se. O rapaz a porta demorou-se observando-o alguns instante e depois disse-lhe.

– Olá, tudo bem. Bom dia! Sou Caio, assistente social. – Roberto ficou parado olhando para ele enquanto ele proferia as suas palavras de apresentação e esqueceu-se de apresentar-se, apenas fez um leve gesto para que ele entrasse, e ele agradecendo adentrou a casa daquele homem misterioso e carrancudo. O rapaz logo se sentou ao sofá e tirou de dentro de uma pasta preta uma ficha que continham alguns dados. – O senhor é o Roberto, não é isso? – A delicadeza provinda daqueles lábios, o som daquela voz. Oh deus… Roberto estava sem jeito com aquilo tudo. Caio sem o saber o havia arrancado de uma rotina para fazê-lo admirar-se pelos seus olhos, sua boca, seu rosto, seu nome.

– Sim, sou eu. – respondeu Roberto timidamente. O rapaz ofereceu-lhe um sorriso de canto de boca e passou a falar no que havia o trago até ali.

– Desculpe Sr. Roberto, mas eu sou o assistente social que ficará encarregado de verificar se tudo está ocorrendo bem em sua casa, com você e seus filhos. – dado os fatos, estava tudo explicado, e as lembranças viriam à tona. Boas novas, velhas novas.

– Ah, sim. Claro! – Roberto respondeu-o nada entusiasmado, e lembrou-se de que outra assistente social estava encarregada do seu caso, mas ela vinha aos sábados, e não as quintas-feiras. – O quê aconteceu com a senhorita Rose? – o rapaz demorou um pouco para responder e logo em seguida deu-o uma explicação na qual ele não prestou muita atenção. Seus olhos estavam vidrados no movimento daqueles lábios e na forma como o homem gesticulava para tentar explicar-lhe.

– É… Teremos que conversar um pouco sobre sua relação com a sua… Mulher, e como seus filhos vêm se adaptando a situação. – a palavra fora dita, a palavra proibida fora dita e todas aquelas coisas… Boas novas, velhas novas. Imergindo como um corpo que boia sobre as águas de um rio, imergindo, imergindo e amostra, inchado, sem sangue, pálido. Fora assim que ela aparecera para ele aquele dia. Ele correu, correu atrás do carro, mas ela estava desesperada, e então ela se jogou daquela ponte com o carro. Ele se desesperou e não podia fazer nada, não podia fazer nada. Tudo era culpa sua, tudo era sua culpa, e ele não podia fazer nada. Estava tudo acabado. Foi naquele momento que ele percebeu que as coisas têm que ser feitas, atitudes têm que ser tomadas, mas ele não tinha a coragem necessária para tomar atitudes, nem para decidir-se. Ele era um fraco, ele sempre fora um fraco. A vida não é uma brincadeira de criança, é preciso ser homem diante de algumas situações, brincar faz parte, mas levar as coisas a sério também é uma opção.

– Ah, é claro. – ele voltou daquele transe ao qual havia se deixado levar inconscientemente e voltou a admirar o rosto do rapaz, os olhos, as sobrancelhas cheias, a barba por fazer. Céus!… Ainda tinha aquela barba por fazer. Então, talvez olhando para aquele conjunto bem formado de homem poderia responder as respostas sem nenhuma culpa, sem lembrar-se da culpa.

– A sua mulher morreu num acidente de carro, não é isso… – Ah, é claro, a verdade nunca deverá ser dita, sempre há que ocultar alguma coisa. Pois é, ali estava, teria que mentir novamente, mas não poderia nunca mentir pra si. Olhou novamente dentro dos olhos daquele rapaz e lembrou se Junior.

“eu te amo”. Como era bom ouvir aquilo de forma tão suave e doce daquele rapazote depois de ter-lhe penetrado por horas a fio e libertado os seus projetos de filho dentro da sua caverna de mádidas frescuras. Ele o amou como nunca haveria de amar ninguém, como nunca, jamais, haveria de amar ninguém. Todos os dias em que se encontravam eram ditas aquelas coisas. O amor bordava aqueles dois seres desde o beijo ao sexo, até o pranto, nos momentos de angustia e dor. Mas Junior era impaciente, era imediato, sua infantilidade e fragilidade o impeliam a exigir coisas que eram consideradas absurdas até então. Todavia ele não podia evitar. Roberto sempre pairava no meio daquela grande dúvida, e o buraco ficava sempre mais profundo, mais profundo, mais profundo. Ele cavava, cavava, cavava e as coisas só pioravam. Sabia das lágrimas de Junior, das lágrimas da… Mulher e sabia das suas próprias lágrimas, por quê todos estavam sendo feridos inconsequentemente pelo desabrochar de um sentimento forte e nada sutil. A vida havia se tornado aquela coisa embaraçosa em que ele tinha que se equilibrar e pensar e pensar, e não pensar. A sua condição era insuportável, trancafiava-se no quarto e ficava a observar as paredes o teto as chaves, e pensava em tudo sem ter a certeza de como sair do meio daquele labirinto.

– Senhor? O Senhor está bem? – Caio o arrancou das lembranças e exigiu a sua presença em pensamento naquele lugar, mas logo que voltou a falar fez com que roberto se voltasse para dentro de si e reconstituísse os passos da sua memória.

“Não dá mais, Roberto. Eu não posso viver assim, você acha que eu sou o quê, eu estou inseguro, eu estou perdido”. “Junior, por favor, você prometeu, você sabia aonde estava se metendo desde o começo, você decidiu ficar então aguente as consequências”. “Olha como você fala comigo, olha o quê você me diz. Tu acha que é fácil Roberto, tu acha mesmo que é fácil”. “E você que fazer o quê?”. Então viera aquela pergunta e aquela resposta que ele não queria ouvir, pois era demais para ele. Ele o amava. No entanto aquela resposta veio, e ele foi obrigado a ouvir com a certeza de quê não haveria mais volta. Roberto não tomaria aquela atitude, não deixaria esposa e filhos para ficar com um, um… Homem, pois era exigir demais de si, deixar o comodismo da vida para enfrentar o que poderia a estar por vir. O que Junior exigia dele era coragem, mas ele nunca teve coragem, e então as cosias foram piorando, piorando até que desaguaram naquela resposta insossa e férrea. A ferida ficou exposta a partir daquele momento.

Foi então que ele decidiu, mas não falou nada a Junior, por quê queria que ele sentisse na pele como era deixa-lo. Dirigiu-se até a casa e discutiu com a mulher, deixou-a, pediu divorcio, e ela disse que já sabia de tudo, mas era de se esperar, e ele chorou, e ela chorou. Os dois estavam feridos, magoados e ela ameaçou-o com a sua morte. Ele duvidou da sua capacidade, mas ela se jogou, ela se matou e o único culpado era ele.

– Senhor? – Caio arrebatou-o novamente de dentro dos seus pensamentos, e naquele momento atordoado, Roberto só pôde tomar uma única atitude, que foi beijar os lábios daquele rapaz sem mais, nem menos. Ele sentiu a doçura daquela língua que relutou em encontrar a sua, mas que por fim cedera. Tomara-o para si naquele momento, revertera-se naquele que sempre fora, pois a única coisa que Junior exigia dele era coragem.

Caio se soltou dos braços do homem e levantou-se rapidamente do sofá. Seus olhos brilhavam, não se sabia se era de ódio ou de desejo. Virou as costas e rapidamente dirigiu-se a porta e foi-se embora. Roberto ficou parado olhando aquele homem ir, assim como Junior.

“Você vai embora?”. “Vou, não posso mais, você fez isso com a gente”. Batera a porta da casa e se fora. Deixou-o com a culpa e com a perda. Sentimentos extremamente ruins para um homem, sentimentos que poderiam torna-lo em algo inodoro e insosso. Acontecera. Depois de dita a palavra, depois da atitude tomada. E ele se foi, e Roberto ficou para trás, por que eles sempre iam, eles sempre iam e davam as costas. Ninguém nunca soube aguentar o peso de viver nas costas…

Marcos Welinton Freitas

Marcos Welinton Freitas

Baiano do Bravo/Serra Preta. Graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Escritor: poeta e contista. Publicou os livros “Poesia proibida” (Editora Multifoco/RJ, 2012) e “Badalos do século XXI” (Editora Penalux/SP, 2013). Comanda o blog Para Lavar a Alma.

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