Literatura infantil e pedagogia: caos?

ZILBERMAN, Regina & MAGALHÃES, Lígia Cadermatori. Literatura infantil: autoritarismo e emancipação, 2 ed. São Paulo: Ática, 1984.

Todo e qualquer investimento do conhecimento humano no campo do trabalho/pesquisa pedagógico-linguístico necessita, antes de qualquer outra ação, de uma atitude bem posicionada com relação aos prováveis objetivos ou metas a que se destina a investigação. No que tange ao percurso tomado pela literatura classificada como sendo de caráter infantil, o cenário de observação não destoa de tudo isso. É justamente sobre esses e outros aspectos que o artigo escrito por Zilberman e Magalhães irá se enveredar.

A mera qualificação do tipo literário, neste caso o de “literatura infantil”, dá margens a uma observação muito mais abrangente acerca do modo como todos os conjuntos de valores socioculturais são geridos em nossa sociedade. Percebe-se, claramente, a dificuldade com que a não separação e organização conceitual de temáticas como essa podem interferir de modo negativo no andamento dos ensejos humanos, podendo causar assim um atraso para com o desenvolvimento das inúmeras faculdades do ser.

O processo de elaboração desta totalidade pedagógica, baseada na transmissão de uma linguagem harmônica ao indivíduo, principalmente ao infante, dotando-o de capacidades padrões para a efetiva reflexão e movimentação natural/plural dentro do meio ao qual a criança está inserida é, talvez, a mola propulsora dos principais embates teórico-práticos desse ramo da atividade científica. Para a pedagogia, o principal objetivo sempre foi o de possibilitar ao indivíduo uma formação humana que o faça ferramenta-modelo construtora de outros espaços de ação, ou seja, o de fomentar um indivíduo com habilidades para agir, sempre, e sob quaisquer circunstâncias.

Porém, o pragmatismo dessa atitude pedagógica fundamentada na formação de um sujeito basicamente consciente e com iguais instrumentos de ação, distanciado de sua parcela inconsciente e quase que mecanicamente instruído, tende a ser por demais questionável, à medida que priva o ser-criança de percorrer outros caminhos que não os “normais”, impedindo-o sobremaneira de descobrir-se e desbravar-se a si mesmo. A tomada desta posição por parte do ser é bastante dolorosa, já que por agir assim, indo de encontro ao natural espectro pedagógico, o indivíduo passa a ser, de modo instantâneo, considerado “marginal” e, por conseguinite, descaracterizado de suas funções naturais.

E é a língua, como fundadora de linguagens e enunciações possíveis, o objeto que faz atualmente a pedagogia preocupar-se tanto com o esticamento das distâncias existentes entre o fazer teórico de suas formulações e o fazer voltado à prática. Tudo isso no intuito de averiguar novas rotas para a melhor utilização da educação em todos os instantes da vida.

O trato com que a pedagogia tradicional destina ao objeto linguístico faz com que o universo do sentido, presente em todo discurso e enunciado, direcionado ou não ao ser-criança, passe a ser aferido e trabalhado sem a magia das insinuações várias do material textual, olhado e tratado de modo seco, sem que se preste a devida atenção às nuances imaginatório-reflexivas do mesmo. A consequência mais evidente deste preparo irregular é a formação de um indivíduo metódico ao extremo, voltado apenas aos interesses diretos do mundo, com pouca relação com seus questionamentos ulteriores, fatores esses de extrema importância para o processo reflexivo-crítico do ser humano.

E sobre todo esse viés problemático, brota do fundo de um escuro túnel, a luz da literatura. Este “ente” que se utiliza do outro para fazer-se completo urge um som de possibilidades. Seja em que gênero ou tipologia estiver, em contos de fadas, paródias, provérbios, fábulas, narrativas curtas ou mais alongadas, o sujeito pedagógico, sabendo-se detentor desta arma formadora de uma humanidade vistosa, sem perdas exageradas nem ganhos descartáveis, pode iniciar a produção de um ser-ator-agente envolvido no espaço mais digno dentre todos: o da liberdade humana.

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

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