Mais não peço

Eu olho para o seu retrato na carteira, em meio a esse Vietnam particular, e sinto o quanto tem valido a pena voltar para casa tendo morto e debaixo do braço o leão do dia, o troféu que lhe entrego em permuta de um sorriso, o costumeiro, não mais do que aquele protocolarmente aberto junto com as venezianas às sete da matina, sua hora predileta.

Não importa que no decorrer do período me falte o eixo pela pressão baixa e o discernimento para o que quer que esteja a um palmo do meu nariz: o que posso lhe assegurar é que sempre prevalecerá a devoção incondicional e espontânea, oferecida de bom grado para que as coisas continuem simplesmente assim, sendo o que até agora foram, pois mais não peço por não ter direito nem merecimento. Eu me contento com a janta escassa e racionada, uma beirinha que me caiba é o bastante, dá de sobra.

Que eu lhe seja provisoriamente útil como um calço de mesa é ideia a que já me acostumei, não tenho em mim qualquer pretensão além de compor a série B do seu time de soldados descartáveis. Escolhi assim quando lhe vi me vendo, com olhos mais curiosos que propriamente interessados, apenas acolhendo meu espanto e deixando governar sua vontade sobre a minha, sentenciando a sina que desde então vai se perpetuando. Suas esporas e botas de cano alto fazem verter o sangue, mas não machucam mais.

Mesmo que a você não diga muita coisa o fato de estarmos juntos, do marco zero espero que possa estar lembrada, com uma mínima ponta de nostalgia. Era então naqueles dias do começo, o reconhecimento tátil que permitia quando muito a mão na mão e uma ou outra palavra dita só no intento de dizer alguma coisa, não que houvesse precisão. No mais das vezes o silêncio era servido e se bastava, em tons de um cinza azulado. Quanto às urgências do sexo e outras do amor sabia por ouvir falar, ou das lições da rua ou das besteiras escritas e ditas em caráter de segredo nos banheiros de escola – repertório nulo quando dei pelo seu corpo, meses depois do reconhecimento inicial, pois nada do que fantasiei como sendo de proveito se encaixava no campo de pelos e carnes de verdade, o que para mim foi outro e envergonhado susto. E de que forma estranha você ria de mim e de minha imperícia, nem um pouco complacente com este aprendiz nos seus braços.

Em seguida vimos nós dois, se impondo no sítio da cama, um desajeito cerimonioso seguido por um modo todo seu de olhar o desenho da serra como se houvesse um outro e oculto contorno por trás dele. Coisas que ia percebendo e ruminando quieto após o seu cansaço, pressentimentos que não lhe contava para que nesse homem das trincheiras você não enxergasse um covarde cheio de dedos. O que seria uma injustiça – logo eu que saio à luta a despeito de inimigos tão mais fortes, ansiando uma comenda de bravura.

De espanto em espanto não restou para mim um palmo de conforto, o suficiente para que pudesse me sentir, um dia que fosse, num lar e na intimidade da mulher da minha vida – ainda que não seja nem de longe o homem que você imaginou para a sua.

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Marcelo Sguassabia

Marcelo Sguassabia

Redator publicitário, pianista diletante, beatlemaníaco desde sempre e amante de filmes e livros que tratem de viagens no tempo.

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