Meu Retorno

Lembro vagamente, devagar na minha mente. Havia muitos matos e serenguetis. Muitos animais vinham até onde eu estava de tempos em tempos. Sei que era uma vida difícil. Às vezes mudávamos de lugar para ficar perto da água. Minha família era numerosa e trabalhava muito. Os caminhos eram muitos. Não dava para medir o quanto nós viajávamos. Havia poucas aldeias e ficavam muitos dias de distância uma das outras. Tenho certeza que em tudo o que conheci a quantidade de pessoas não era lá muito grande. Para nós o mundo era grande demais, não acabava nunca. Durante a minha vida conheci povos estranhos, mas tínhamos boas relações. Eu era muito curioso e passava o tempo todo fazendo perguntas para os meus pais. Nem sempre conseguia respostas. Quando adulto e depois ancião tentei responder as perguntas que eu mesmo fizera no passado. Sobre muitas coisas fiquei sem saber. Num determinado dia lá no longínquo passado eu apaguei de vez, não lembro direito o que havia acontecido. Sei que passaram milhares de anos, e cá estou novamente.

É um mundo estranho, talvez eu tenha caído aqui por acaso, não sei. Tem muita gente. Estou impressionado. E a pergunta que não quer calar: De onde veio toda essa gente?

Por diversas razões ou pelos meus constantes questionamentos não demorou muito para eu debandar para o espiritualismo.

Em que pese algumas divergências da minha parte, pois continuo com o mesmo espírito crítico de sempre, encontrei muitas coerências e algumas explicações para as minhas demandas na corrente espiritualista. Não muitas.

Quando é abordado o tema reencarnação, aceito sem parcimônia, pois eu sou a prova.

Fui para os livros e constatei que na minha época o planeta tinha poucos milhões de gentes. É teoria. Na realidade era bem menor, entretanto, não há como provar. Elaborei algumas teses sobre o tema e creio que essa desproporção tem lá suas razões. O que me preocupa mesmo é fato de eu estar aqui de novo. Não sei sequer o propósito de tudo isso. Aventei a possibilidade de um “tecido espiritual” que forneça “matéria prima” para esse monte de gente que chega todos os dias. Serão os mesmos espíritos de antes? A conta não fecha. Pode ser um planeta de expiação, para onde migram espíritos de outras paragens para reabilitação. Talvez nesses outros lugares tenha muita gente ruim que vem para cá burilar-se. Será?

É provável que as verdadeiras vidas nem sejam aqui no plano físico e nesse sentido explicaria tal desproporção. Ah, então o Budismo acertou em cheio sobre a ilusão da vida. O Catolicismo embolou o meio de campo e o Espiritismo ocultou-nos muitas coisas e revelou algumas. O nosso entendimento é nulo com relação ao segredo da vida. Não captamos a essência, não por comodismo, e sim por incapacidade cerebral. Esse é o maior de nossos defeitos. Esqueçamos a religião e os falsos conhecimentos ocultos. Não há nada nesses que não nos seja novidade. Contudo, o fato de alguma maneira nós professarmos determinada religião, nos eleva e nos aproxima um pouco dessas questões. Mas não esclarece. Só nos tranquiliza. Que bom.

Poupem esforços, pois o que sei hoje é mesmo que eu já sabia há milhares de anos. Nada mudou.

A luta pela sobrevivência ainda é a mesma. O desejo de aceitação pelos grupos de gentes é o mesmo. A vontade de melhorar as condições de vida é sempre a mesma. O ego é o mesmo. Para falar a verdade não encontrei nada nesse mundo que eu já não conhecesse. Posso garantir: Pioramos, apesar de toda a tecnologia…

Sérgio Clos

Sérgio Clos

Escritor de Porto Alegre/RS publicou "Premissas", "A maleabilidade do tempo", "Fios de Prata, "Império do cinismo" e "Fundamentalismo Democrático".

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